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LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 8 – por Joaquim Palminha Silva

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Às vezes, um autor impulsivo, de temperamento sanguíneo, versátil e capaz de derrubar contrariedades por uma pá velha, praticante de vários ofícios e artes, não chegava para fugir à “conspiração” contra os seus livros. Pelo contrário, parece que a perseguição mais se comprazia em liquidar o livro proveniente de tal autor…

Foi o que aconteceu a João Pereira da Costa Lima, pícaro fora de época, escritor mediano. A sua vida foi a de um verdadeiro homem dos sete ofícios: aprendiz de ferreiro, marçano, saltimbanco, fotógrafo, comerciante, hoteleiro, proprietário de agência funerária, director do Asilo Maria Pia, pagador da Companhia Nacional dos Caminhos de Ferro, empresário teatral, dramaturgo e actor. Enfim, dono de biografia capaz de encher uns centos de páginas de um livro de aventuras. Formação de autodidacta, emigrou para o Brasil aos 14 anos de idade, pelo que os seus estudos ter-se-ão feito ao ritmo do desconcerto das circunstâncias da vida. Em 1862, estreou-se como literato no Brasil, exactamente num jornal de São Luís do Maranhão, com o poema Maldição.

Entretanto, alicerçou carreira de autor de peças de teatro, que eram levadas à cena por companhias de ambulantes, das quais por vezes era o director, encenador e um dos actores. Assim percorreu o Brasil a dar espectáculos para a numerosa comunidade portuguesa emigrada, cuja dura realidade de trabalho e desamparo conhecia bem. Espírito livre, pouco submisso, parece que só escreveu e levou à cena aquilo que estava de acordo com o seu ideal de vida. Resumindo, o seu labor artístico não era muito do agrado das autoridades brasileiras, bem como da política portuguesa para a emigração. Publicou, pois, livros “mal vistos” pelas autoridades dos dois países. A sua última obra, deixada em manuscrito, Os Pupilos do Escravo, desapareceu assim que o autor de finou!

Que espécie de revelação poderia ter produzido este aventureiro-dramaturgo, naquele drama em três actos, para que “alguém” lhe desse sumiço?

Numa noite, conta-nos Alexandre Herculano (in Opúsculos, t. 1), entre outros disparates de que teve notícia, porque estivessem todos juntos e sem cautelas, pereceram os «arquivos mais ricos de monumentos da Beira Alta, os de Salzedas, Tarouca, S. Pedro das Aguias e S. Cristóvão de Lafões». O mesmo Alexandre Herculano dá-nos conta de que o incêndio da Casa Pia do Porto, deu «aso a perderem-se […] quasi todos os cartórios monásticos do Minho, que constituíam a parte mais importante das riquezas do paiz n’este género». Os acasos do desleixo e humano menosprezo por manuscritos com interesse histórico, e livros em geral, completavam, como se vê, a obra nefasta dos perseguidores, brutamontes à caça do livro, como se este fosse fera perigosa!

A partir da 2ª metade do século XIX mudou um pouco o teor da perseguição e aniquilação do livro, pois regista-se alguma debilidade na sua daninha acção.

Mas ainda surgem casos estranhos, que chegaram até ao século XX… De Almeida Garrett (1799-1854) sabe-se que perdeu um longo poema intitulado O Magriço, “evaporado” a bordo do transporte marítimo à entrada da barra do Tejo. Antero de Quental (1842-1895), desiludido com mediocridades e mentalidades correntes no seu tempo, destruiu o seu escritor: Programa para os Trabalhos da Geração Nova! Do médico e poeta Manuel Laranjeira (1877-1912), espírito lúcido e muito desiludido com a “evolução” do regime republicano, ficaram inéditas e, depois perderam-se, as seguintes peças de teatro: O Filósofo; Naquele Engano de Alma… e Almas Românticas. O escritor e exuberante contista alentejano Fialho de Almeida (1857-1911), chegou a imprimir o seu romance A Quebra… Súbito, numa fúria sabe-se lá de quê (lucidez auro-crítica!), foi até à tipografia e destruiu toda a edição, (vd. In Mermoriam, edição de 1917).

Em síntese, inclinamo-nos para a longa duração deste estranho fenómeno que se estica, século após século, como se fosse um vírus imbatível colado à mentalidade portuguesa… A obra maléfica de destruir ou fazer desaparecer livros, perseguir manuscritos (às vezes encarcerando o seu autor), chegou até à 2ª metade do século XX: – Sob os auspícios do regime da ditadura fascista de Oliveira Salazar!

Esta ”conspiração” anti-cultural chegou a influir no espírito dos autores pelo medo que incutia, limitando o próprio acto de criação literária, e obrigando o autor a auto-flagelar-se, ora destruindo o que ia produzindo, ora mutilando ou destruindo o que lhe ditava o próprio medo!

Quer se queira ou não, existe um enorme e gritante silêncio em Portugal, feito pelos manuscritos desaparecidos e pelos livros destruídos. Silêncio que este registo, tosco esboço, pretende dar ideia do muito que é preciso investigar…

Enfim, que se cuidem todos os investigadores de História (e não só!) que julgam ter “visto” tudo o que “era preciso ver” de documentação coeva, na Torre do Tombo, pois há muito acontecimento que não tem o seu registo, que portanto jamais será “visto”!

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Bibliografia Concultada:

Para além das obras citadas no corpo do texto, foi especialmente compulsada a seguinte bibliografia:

História dos Cristãos Novos Portugueses, J. Lúcio de Azevedo, 2ª edição, Lisboa, 1975.

Estudos sobre a Época do Renascimento, Américo da Costa Ramalho, Coimbra, 1969.

Judeus Portugueses em França, J. Lúcio de Azevedo, in «Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa», Vol. IX, 1915.

– Portugal e a Cultura Europeia (Sécs. XVII a XVIII), J. A. da Silva Dias, Coimbra, 1953.

História da Cultura em Portugal, António José Saraiva, Lisboa, 1950-1962.

Estudos sobre a Cultura Portuguesa do Século XVI, Joaquim Barradas de Carvalho, 1948-1949.

História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes, 8ª edição, Porto, 1975.

Le Romantisme Au Portugal / Etude de Faits Socio-Culturels, José- Auguto França, Paris, 1974.

História da Filosofia em Portugal, Lopes Praça, Lisboa, 1987.

A História Natural em Portugal, Rómulo de Carvalho, Lisboa, 1987.

Dicionário de História de Portugal, direcção de Joel Serrão, edição de 1971.

Dicionário Enciclopédico de Medicina, 2ª edição revista e ampliada por Artur do Céu Coutinho, Lisboa, 1957.

Dicionário Ilustrado de História de Portugal, coordenação de José Costa Pereira, Lisboa, 1985.

Dicionário de Literatura, direcção de Jacinto do Prado Coelho, 3ª edição, 1984.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa s/d.

Dicionário Bibliográfico Português, Inocêncio Francisco da Silva, etc.. reedição Lisboa, 1972.

Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (5 vols.), edição Instituto Português do Livro e da Leitura, Lisboa, 1985-1996.

 

 

 

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