Às vezes, um autor impulsivo, de temperamento sanguíneo, versátil e capaz de derrubar contrariedades por uma pá velha, praticante de vários ofícios e artes, não chegava para fugir à “conspiração” contra os seus livros. Pelo contrário, parece que a perseguição mais se comprazia em liquidar o livro proveniente de tal autor…
Foi o que aconteceu a João Pereira da Costa Lima, pícaro fora de época, escritor mediano. A sua vida foi a de um verdadeiro homem dos sete ofícios: aprendiz de ferreiro, marçano, saltimbanco, fotógrafo, comerciante, hoteleiro, proprietário de agência funerária, director do Asilo Maria Pia, pagador da Companhia Nacional dos Caminhos de Ferro, empresário teatral, dramaturgo e actor. Enfim, dono de biografia capaz de encher uns centos de páginas de um livro de aventuras. Formação de autodidacta, emigrou para o Brasil aos 14 anos de idade, pelo que os seus estudos ter-se-ão feito ao ritmo do desconcerto das circunstâncias da vida. Em 1862, estreou-se como literato no Brasil, exactamente num jornal de São Luís do Maranhão, com o poema Maldição.
Entretanto, alicerçou carreira de autor de peças de teatro, que eram levadas à cena por companhias de ambulantes, das quais por vezes era o director, encenador e um dos actores. Assim percorreu o Brasil a dar espectáculos para a numerosa comunidade portuguesa emigrada, cuja dura realidade de trabalho e desamparo conhecia bem. Espírito livre, pouco submisso, parece que só escreveu e levou à cena aquilo que estava de acordo com o seu ideal de vida. Resumindo, o seu labor artístico não era muito do agrado das autoridades brasileiras, bem como da política portuguesa para a emigração. Publicou, pois, livros “mal vistos” pelas autoridades dos dois países. A sua última obra, deixada em manuscrito, Os Pupilos do Escravo, desapareceu assim que o autor de finou!
Que espécie de revelação poderia ter produzido este aventureiro-dramaturgo, naquele drama em três actos, para que “alguém” lhe desse sumiço?
Numa noite, conta-nos Alexandre Herculano (in Opúsculos, t. 1), entre outros disparates de que teve notícia, porque estivessem todos juntos e sem cautelas, pereceram os «arquivos mais ricos de monumentos da Beira Alta, os de Salzedas, Tarouca, S. Pedro das Aguias e S. Cristóvão de Lafões». O mesmo Alexandre Herculano dá-nos conta de que o incêndio da Casa Pia do Porto, deu «aso a perderem-se […] quasi todos os cartórios monásticos do Minho, que constituíam a parte mais importante das riquezas do paiz n’este género». Os acasos do desleixo e humano menosprezo por manuscritos com interesse histórico, e livros em geral, completavam, como se vê, a obra nefasta dos perseguidores, brutamontes à caça do livro, como se este fosse fera perigosa!
A partir da 2ª metade do século XIX mudou um pouco o teor da perseguição e aniquilação do livro, pois regista-se alguma debilidade na sua daninha acção.
Mas ainda surgem casos estranhos, que chegaram até ao século XX… De Almeida Garrett (1799-1854) sabe-se que perdeu um longo poema intitulado O Magriço, “evaporado” a bordo do transporte marítimo à entrada da barra do Tejo. Antero de Quental (1842-1895), desiludido com mediocridades e mentalidades correntes no seu tempo, destruiu o seu escritor: Programa para os Trabalhos da Geração Nova! Do médico e poeta Manuel Laranjeira (1877-1912), espírito lúcido e muito desiludido com a “evolução” do regime republicano, ficaram inéditas e, depois perderam-se, as seguintes peças de teatro: O Filósofo; Naquele Engano de Alma… e Almas Românticas. O escritor e exuberante contista alentejano Fialho de Almeida (1857-1911), chegou a imprimir o seu romance A Quebra… Súbito, numa fúria sabe-se lá de quê (lucidez auro-crítica!), foi até à tipografia e destruiu toda a edição, (vd. In Mermoriam, edição de 1917).
Em síntese, inclinamo-nos para a longa duração deste estranho fenómeno que se estica, século após século, como se fosse um vírus imbatível colado à mentalidade portuguesa… A obra maléfica de destruir ou fazer desaparecer livros, perseguir manuscritos (às vezes encarcerando o seu autor), chegou até à 2ª metade do século XX: – Sob os auspícios do regime da ditadura fascista de Oliveira Salazar!
Esta ”conspiração” anti-cultural chegou a influir no espírito dos autores pelo medo que incutia, limitando o próprio acto de criação literária, e obrigando o autor a auto-flagelar-se, ora destruindo o que ia produzindo, ora mutilando ou destruindo o que lhe ditava o próprio medo!
Quer se queira ou não, existe um enorme e gritante silêncio em Portugal, feito pelos manuscritos desaparecidos e pelos livros destruídos. Silêncio que este registo, tosco esboço, pretende dar ideia do muito que é preciso investigar…
Enfim, que se cuidem todos os investigadores de História (e não só!) que julgam ter “visto” tudo o que “era preciso ver” de documentação coeva, na Torre do Tombo, pois há muito acontecimento que não tem o seu registo, que portanto jamais será “visto”!
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Bibliografia Concultada:
Para além das obras citadas no corpo do texto, foi especialmente compulsada a seguinte bibliografia:
– História dos Cristãos Novos Portugueses, J. Lúcio de Azevedo, 2ª edição, Lisboa, 1975.
– Estudos sobre a Época do Renascimento, Américo da Costa Ramalho, Coimbra, 1969.
– Judeus Portugueses em França, J. Lúcio de Azevedo, in «Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa», Vol. IX, 1915.
– Portugal e a Cultura Europeia (Sécs. XVII a XVIII), J. A. da Silva Dias, Coimbra, 1953.
– História da Cultura em Portugal, António José Saraiva, Lisboa, 1950-1962.
– Estudos sobre a Cultura Portuguesa do Século XVI, Joaquim Barradas de Carvalho, 1948-1949.
– História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes, 8ª edição, Porto, 1975.
– Le Romantisme Au Portugal / Etude de Faits Socio-Culturels, José- Auguto França, Paris, 1974.
– História da Filosofia em Portugal, Lopes Praça, Lisboa, 1987.
– A História Natural em Portugal, Rómulo de Carvalho, Lisboa, 1987.
– Dicionário de História de Portugal, direcção de Joel Serrão, edição de 1971.
– Dicionário Enciclopédico de Medicina, 2ª edição revista e ampliada por Artur do Céu Coutinho, Lisboa, 1957.
– Dicionário Ilustrado de História de Portugal, coordenação de José Costa Pereira, Lisboa, 1985.
– Dicionário de Literatura, direcção de Jacinto do Prado Coelho, 3ª edição, 1984.
– Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa s/d.
– Dicionário Bibliográfico Português, Inocêncio Francisco da Silva, etc.. reedição Lisboa, 1972.
– Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (5 vols.), edição Instituto Português do Livro e da Leitura, Lisboa, 1985-1996.

