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BISCATES – “O imperfeito” – por Carlos de Matos Gomes

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Passos Coelho declarou-se imperfeito e com isso queria que acreditássemos que era como todos nós. Tendemos a desculpar os nossos semelhantes. Também quis dizer que tem da justiça portuguesa o mesmo entendimento do mais vulgar cidadão: só era culpado por ter sido apanhado. Que está nesta difícil situação por puro azar. Para ele os impostos não são um processo de redistribuição de riqueza, nem de equilíbrio social, nem de conseguir meios para a realização dos fins do Estado, são um assalto praticado pelos agentes do Estado para a sua satisfação, uma violência da qual todos temos o direito de tentar escapar.

Para Passos Coelho, o Estado é um gangue. A opinião não difere muito da que ouvimos nos transportes públicos, barbeiros e soleiras de porta. Esquece-se de que é o chefe do governo e isso tem como consequência ele se assumir como chefe de uma associação de malfeitores. É um direito dele orgulhar-se do ponto a que chegou, mas esse sucesso na carreira levanta um conflito funcional: é que ele, o gangster, tem de, pela função de primeiro ministro da troika, de pregar moral aos assaltados! É este último discurso que irrita os portugueses. Ele vive a situação do estranho caso do Dr. Jekyll and Mr. Hyde, das personalidades múltiplas, uma boa e outra má, ambas muito distintas.

Esta é a cultura política e a estatura moral de Passos Coelho. O problema da declarada imperfeição de Passos Coelho, que ele quer associar à de um português comum, não é ele ser imperfeito. É ele ser parvo, uma palavra que começou por querer dizer pequeno (parvus). Imperfeito era o nosso Príncipe Perfeito, D. João II, que assassinou mais de metade da família chegada, mas que se declarou dono de meio mundo. Imperfeito era Afonso de Albuquerque, que fez pela Índia e arredores maldades que nos arrepiam só de ouvir, mas estabeleceu uma estratégia de domínio dos estreitos para dominar os continentes que ainda tem o seu nome. Imperfeitos na vida do dia a dia foram o Camões, o Fernão Mendes Pinto, ambos com dificuldades crónicas de dinheiro, o Fernando Pessoa, com a bebida, mas criadores de obras geniais. Imperfeitos foram o Picasso, o Charlie Chaplin, ou o Churchill, ou Kennedy, ou Júlio César, ou Alexandre… grandes, todos grandes. O problema de Passos Coelho não é a imperfeição, é a sua insuperável pequenez, a sua manha viscosa, a sua estreita visão do mundo, a sua vacuidade.

Nos grandes homens imperfeitos, as imperfeições fazem o que o álcool fazia a Churchill e as mulheres a Picasso, fortalecem-nos, dão-lhes energia, incentivam-nos a correr riscos, a criar obras geniais. Nos pequenos causam dó.

A imperfeição de Passos Coelho não resulta dos esquecimentos dos pagamentos de taxas e impostos. As imperfeições de Passos Coelho são as políticas de obediência aos ditames da troika que ele objectivamente chamou, a dependência da especulação financeira, que causaram a delapidação do património nacional. São a venda ao desbarato do sector produtivo, das grandes empresas prestadoras de serviços essenciais aos portugueses, instrumentos da afirmação da soberania e da projecção de Portugal. São os cortes de rendimentos impostos em nome de um reajustamento que é um embuste e que têm por finalidade degradar os serviços públicos para passar os sectores lucrativos para os privados.

A imperfeição de Passos Coelho é a de, para nossa vergonha, ter transformado Portugal no mais manso e disponível dos cordeiros sacrificiais das políticas ditas da troika que destruíram o tecido social e as relações que nos permitem viver em sociedade, que nos alimentam com uma história, uma cultura, um sentimento de pertença a um território, a um povo, a um destino. A imperfeição de Passos Coelho foi a de ter mandado a sua ministra das finanças ao beija mão a Berlim.

A imperfeição de Passos Coelho é a sua acção política ter tido como resultado fazer de Portugal o país da União Europeia onde são maiores as desigualdades entre ricos e pobres, o país onde essas desigualdades mais aumentaram desde 2012, em conjunto com a Letónia e a Lituânia, onde os 10% mais ricos têm 12 vezes mais rendimentos que os 10% mais pobres, em que 20% da população está em risco de pobreza.

A imperfeição de Passos Coelho não são as suas relações com o fisco – essas são o reflexo da sua personalidade, da sua falta de qualidade – a imperfeição de Passos Coelho é de raiz, é a que o levou a conduzir uma política em que o emprego é mal pago e precário, não gera trabalhadores, mas ranchos de homens e mulheres que acorrem em busca de uma oferta de tarefas, sôfregos e disponíveis, a que se chamam colaboradores temporários.

A imperfeição de Passos Coelho é uma política que fez dos portugueses uma multidão de jovens desocupados e de velhos abandonados, a vaguear sem destino e sem esperança.

Que ele não tenha percebido a raiz do clamor que se levantou contra o facto de não ter pago taxas e impostos é a sua mais evidente imperfeição. Que o senhor que habita em Belém atribua este clamor contra o homem que simboliza a devastação do país como resultado das tricas político-partidárias, quer dizer que temos em Belém um fantasma emparedado.

 

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