Já escrevi algumas vezes sobre a minha pequena amiga, a menininha Esperança, que costuma sair do poema de Charles Péguy, o das virtudes teologais, para me visitar sempre que ando triste ou horrorizada com as notícias do mundo ou do meu país. Pois esta manhã – como já expliquei, ela gosta de dizer Bom Dia assim que nasce o sol – ela entrou correndo no meu quarto, afogueada, com um brilho novo e muito forte no olhar. Pensei que estivesse febril e toquei-lhe a testa com os lábios, suavemente, como fazia minha mãe quando éramos crianças. Nada: fresca como o orvalho.
– Já sei, já sei, disse com pressa, exigindo a minha atenção. E antes que eu tivesse tempo de perguntar que é que ela sabia: – Sei o que Obama e Ban Ki Moon e a ONU e todas as ONGs da Paz precisam fazer com os terroristas jihadistas do Estado Islâmico, ou do Boko Haran e com os talibãs e todos os demais ! Precisam usar os drones, drones enormes, drones que carreguem toneladas, muitas toneladas…
– Toneladas de que, Esperança? perguntei intrigada.
– Toneladas de panfletos, de poemas e de trechos do Alcorão que contestem e contradigam as ideias distorcidas e as más interpretações daqueles pobres coitados fanáticos! Eles precisam fazer uma boa lavagem cerebral, precisam aprender o Alcorão de verdade.
– Você já leu o Alcorão, Esperança?
– Não precisei ler tudo para saber que é uma religião do Amor como todas as outras! respondeu-me um tanto irritada e com uma segurança extraordinária. E, para minha surpresa, acrescentou: e você não leu Malek Chebel, não o citou em seu livro sobre a violência contra as mulheres? São textos de estudiosos como ele que precisam ser enviados com urgência para aqueles doentes, junto com o verdadeiro Alcorão.
– Seria fantástico, precisei admitir, quase entrando naquele delírio infantil.
– Pois é essa a solução!
Esperança está convencida de que não é com armas e bombardeios que o Estado Islâmico será vencido. Diz que é preciso educar os jovens muçulmanos que vivem no Ocidente, que é preciso com urgência debater ideias, estimular discussões, fazer conferências, promover muitas leituras, muito estudo e muita pesquisa para que os que se sentem excluídos não sejam aliciados pelos terroristas. E esses mesmos, ela acredita, só serão modificados com ideias, não com repressão. Pensa que é preciso demonstrar que todas as religiões têm algo em comum, o amor ao próximo, a compaixão. Diz que fé e autoritarismo, fé e intolerância não podem juntar-se jamais. Insiste: fé é luz, é Alegria. Como pode uma fé ser assassina?
Pobre Esperança! Nessas horas sei que não devo contrariá-la. Limito-me a escutá-la e a me deixar embalar por tantas ideias loucas, mas tão lindas, tão quixotescas e tão lindas.
Como se tivesse ouvido meu pensamento, ela disse: Não é interessante que tenham descoberto agora os possíveis restos mortais de Miguel de Cervantes Saavedra, o autor do Don Quixote? E por que estão fazendo tanto estardalhaço sobre isso? Não sobrou quase nada dos ossos dele, mas sobrou todo o sentimento de honra do mundo, que ele concentrava em sua louca fantasia. Don Quixote não era louco, era um sábio. Um santo e um sábio… E sabe o que vamos encontrar depois dos moinhos de vento? O horizonte da Utopia, a Utopia que nos ensina a caminhar, como diz Eduardo Galeano, o escritor uruguaio que você tanto admira.
Mais uma vez, tive de concordar com minha amiga, a menina Esperança. Sei que sem suas maluquices é mais difícil viver. Então, resolvi provocá-la e fiz-lhe uma pergunta bastante difícil:
– E como é que vamos tratar aqueles estupradores do Boko Haran, os da Índia, os do Brasil e os do mundo inteiro?
– Ensinando-lhes as alegrias e os verdadeiros prazeres do amor, respondeu sem hesitar. – Mostrando-lhes que sexo com amor é infinitamente melhor. (Ela disse isso sem corar, como se entendesse mesmo do que estava falando.) E continuou:
– Você já não disse e repetiu, e escreveu que a Educação Sexual deve começar muito cedo nas escolas e que pais e professores precisam ser orientados para isso?
– Mas há os casos patológicos.
– Sim, mas uma cultura inteira, uma sociedade inteira não pode ser patológica. A reviravolta precisa ser grande, em toda parte. A publicidade de todo o mundo precisa ser posta a serviço da educação sexual, da educação para o respeito ao outro, para a compaixão, ou para a paixão vivida junto, que é o contrário da violência. Precisamos educar para o prazer e para a alegria. A mídia tem de parar de explorar a figura da mulher como objeto e o sexo violento precisa desaparecer dos filmes e das TVs.
– Mas você então fala numa espécie de censura.
– Não! não é censura! Falo na necessidade urgente da reeducação. Pouco a pouco, no mundo inteiro, numa campanha sistemática e ininterrupta, poderíamos substituir a violência pela ternura, a ideia de conquista pela de encontro e descoberta, pelo deslumbramento das realizações amorosas bonitas, completas, criativas. Refiro-me ao que uma vez li sobre a descoberta de si mesmo em face ao outro e por causa do outro. Se não me engano, li isso na Cabala.
– Ah! Esperança! seria lindo, sim, concordo com você. Percebo que você não para de ler e não esquece o que lê.
– Wim Wenders mostrou que os livros estão guardados pelos anjos, ao menos lá, naquela biblioteca maravilhosa de Berlim, do filme As Asas do Desejo.
Nesse ponto, meu ceticismo me levou a provocá-la mais uma vez:
– Ah! eu sei, um anjo se apaixona por uma trapezista e a trapezista se apaixona pelo anjo. Talvez todos os amores no começo sejam assim: um vê no outro uma deusa ou um anjo. E brinco: mas também lembro outro filme em que o grande Jean Gabin dizia: “O melhor é no começo, quando ainda fazemos cerimônias…”
Ela dá uma boa gargalhada e vai-se embora. Fico um tanto preocupada porque agora preciso ler o jornal.