CONTOS & CRÓNICAS – Toada do Conde de Montanelas (ideário de um marialva quinhentista) – por Joaquim Palminha Silva

Lá se foi D. Montanelas
sozinho a enterrar
sem padre com balelas
p’ra sua alma sossegar.
Lá se foi o incontido
de que há muito a contar
pois perdeu o sentido
de quando devia parar.
Lá se foi D. Montanelas
grão-cavaleiro apeado…
E as mulheres às janelas
já gabam o finado.
Filho varão lhe deixaram
um nome ramalhudo…
Mas se nada lhe legaram
aprendeu arte de topa-a-tudo.
Mestre natural d’esta arte
síntese da nossa História
espadeirou por toda a parte
deixando vasta memória.
Soprou em soturnas freiras
fogo posto que ateava…
Enlaçou rolinhas mouras
cujo corpo se acomodava.
Na África quente e comprida
após turva heroicidade
desaparecia em seguida
a saciar-se na imensidade.
Descobridor buscou sôfrego
leitos que descortinar
nunca lhe faltou o fôlego
nem conjugou o verbo amar.
Insolente máscara carnal
dono de segunda natureza:
Como a palavra anormal
nenhuma sei mais portuguesa.
Olhos d’águia nas ameias
sobre a terra e sobre o mar
escamou quantas sereias
depois de muito as prostrar.
D. Juan quedo e mudo
d’ aventura empedernida
figura um fofo quase tudo
sem lhe alcançar a medida.
Do langor das sestas necessárias
lá nos climas orientais
despertava D. Montanelas
para outras tantas saturnais.
Lá vai o conde de Montanelas
que esteve no cerco de Diu
combateu e cortou as goelas
às indianas que possuiu.
Dizem que guardou a lusa vinha
grande vindimador original
por isso a História definha
carente de poda especial.
Mudou enfim sua cadência
o mestre fecundo sem rival
uma vez perdida a essência
só lhe ficou o cerimonial.
La vai o conde de Montanelas
num choro soluçado fundo
levantando com mãos geladas
testículos de comover mundo.
Transporta-os assim seguros
sobre carrinho-de-mão
pois de moles e maduros
esborrachavam-se no chão.
Lá vai a carantonha
olhai com olhos de ver
um velhinho com peçonha
e de pernas a tremer.
Dizem com pena que foi poeta
mas com a sífilis a roer
nunca se soube se foi peta
se foi o Diabo a escrever.
Quem no século dos tolos
viu a dimensão do barroco
logo a vista viu a todos
na figura deste bacoco.
Não era esquisito D. Montanelas
sempre erecto p’ra tudo
desde as mulatas mais belas
a meninos de coro sobretudo.
Dotado desta filantropia
cego aos efeito do vício
o cavaleiro não percebia
ao que o sexo é propício.
(Nunca alto afirmem o facto
pois nesta terra de colossos
é preciso muito tacto
não vos partam os ossos.)
Lá se foi D. Montanelas
que tinha muito que contar
e já andava pelas vielas
sem se puder aguentar…
A ver o enterro passar
sem nada para fazer
há donas a perguntar
quem lhe irá suceder…
…E à pátria lusitana
com séculos de fastio
extinta a sua chama
acabou-se-lhe o pio…