CONTOS & CRÓNICAS – Toada do Conde de Montanelas (ideário de um marialva quinhentista) – por Joaquim Palminha Silva carlosloures8 de Abril de 20158 de Abril de 2015Literatura Navegação de artigos PreviousNext Lá se foi D. Montanelas sozinho a enterrar sem padre com balelas p’ra sua alma sossegar. Lá se foi o incontido de que há muito a contar pois perdeu o sentido de quando devia parar. Lá se foi D. Montanelas grão-cavaleiro apeado… E as mulheres às janelas já gabam o finado. Filho varão lhe deixaram um nome ramalhudo… Mas se nada lhe legaram aprendeu arte de topa-a-tudo. Mestre natural d’esta arte síntese da nossa História espadeirou por toda a parte deixando vasta memória. Soprou em soturnas freiras fogo posto que ateava… Enlaçou rolinhas mouras cujo corpo se acomodava. Na África quente e comprida após turva heroicidade desaparecia em seguida a saciar-se na imensidade. Descobridor buscou sôfrego leitos que descortinar nunca lhe faltou o fôlego nem conjugou o verbo amar. Insolente máscara carnal dono de segunda natureza: Como a palavra anormal nenhuma sei mais portuguesa. Olhos d’águia nas ameias sobre a terra e sobre o mar escamou quantas sereias depois de muito as prostrar. D. Juan quedo e mudo d’ aventura empedernida figura um fofo quase tudo sem lhe alcançar a medida. Do langor das sestas necessárias lá nos climas orientais despertava D. Montanelas para outras tantas saturnais. Lá vai o conde de Montanelas que esteve no cerco de Diu combateu e cortou as goelas às indianas que possuiu. Dizem que guardou a lusa vinha grande vindimador original por isso a História definha carente de poda especial. Mudou enfim sua cadência o mestre fecundo sem rival uma vez perdida a essência só lhe ficou o cerimonial. La vai o conde de Montanelas num choro soluçado fundo levantando com mãos geladas testículos de comover mundo. Transporta-os assim seguros sobre carrinho-de-mão pois de moles e maduros esborrachavam-se no chão. Lá vai a carantonha olhai com olhos de ver um velhinho com peçonha e de pernas a tremer. Dizem com pena que foi poeta mas com a sífilis a roer nunca se soube se foi peta se foi o Diabo a escrever. Quem no século dos tolos viu a dimensão do barroco logo a vista viu a todos na figura deste bacoco. Não era esquisito D. Montanelas sempre erecto p’ra tudo desde as mulatas mais belas a meninos de coro sobretudo. Dotado desta filantropia cego aos efeito do vício o cavaleiro não percebia ao que o sexo é propício. (Nunca alto afirmem o facto pois nesta terra de colossos é preciso muito tacto não vos partam os ossos.) Lá se foi D. Montanelas que tinha muito que contar e já andava pelas vielas sem se puder aguentar… A ver o enterro passar sem nada para fazer há donas a perguntar quem lhe irá suceder… …E à pátria lusitana com séculos de fastio extinta a sua chama acabou-se-lhe o pio… Share this: Share on Facebook (Opens in new window) Facebook Share on X (Opens in new window) X Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp Email a link to a friend (Opens in new window) Email More Print (Opens in new window) Print Like this:Like Loading...