A IDEIA – O GRUPO DO CAFÉ GELO: DO PRINCÍPIO AO FIM- 3 – por António Cândido Franco.
carlosloures
A história do epílogo do grupo do Gelo, ou ao menos das reuniões no café, é contada por Luiz Pacheco. É um passo importante em que se fica a saber com pormenor os sucessos que levaram a que o café deixasse de ser centro das reuniões do grupo. Esses encontros, que haviam começado em 1956 (ou 1955), fecharam no princípio do mês de Maio de 1962. Não vale a pena parafrasear Luiz Pacheco; prefiro passar-lhe a palavra. Conta ele assim (O crocodilo que voa, 2008: 214-15): Lembro-me do dia 1 de Maio. Havia uma manifestação muito grande em Lisboa… havia greve, talvez… ó pá, houve mortos e tudo, houve polícias que foram parar dentro do lago do Rossio… aquilo foi a sério… foi a primeira manifestação a sério que houve em Lisboa … depois no dia 8 houve segunda… foi a primeira vez que apareceram carros de água com metilene para marcar as pessoas, tinta que não saía… eles aí apanharam muita porrada, na Rua da Madalena, no Largo da Anunciada… então a malta do Gelo, estava lá o Virgílio Martinho, que disse: “o que é que a gente veio cá fazer?” Respondi-lhe: “então a gente veio cá mostrar o casaco… dar porrada? O que é que se pode vir fazer…” E de facto estivemos no dia 1 de Maio muito sossegados. Eu sentei-me num cantinho, tinha ao meu lado o pai da Fernanda Alves, que era o funcionário do DN, por isso é que o genro aparece no DN, ele estava ao meu lado, também muito choné, e mostra-me a arma que era um canivete com uma coisa deste tamanho… também devia estar o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues… ao lado do Gelo havia uma pensão residencial e acho que uma estrangeira qualquer, americana ou inglesa, saiu da pensão para a rua, sabia lá o que se passava, e os gajos vieram atrás da mulher, pareciam verdadeiras feras, ela vinha assarapantada, vieram a sacudir a mulher… disseram: “ninguém se levanta daqui, ninguém sai!” O João Rodrigues tinha ido mijar ao primeiro andar, vinha a descer a escada, disseram, “ei você…” E a malta disse: “É daqui! É daqui! É daqui deste grupo que está aqui sentado…” Quando os gajos iam a sair, já de costas voltadas, não sei por que carga de água começámos “uhuhuhuhuhuh”. Quando a malta faz o “uhuhuhuhuhuh” os gajos regressam e começam a dar porrada à maluca… eu estou no canto, vem um gajo distribuir cacetadas… eu aponto para os óculos e fizemos um passo assim de dança, ele para um lado eu para outro, depois começou a dar porrada num gajo que estava sentado e eu pirei-me, pirei-me para outro canto… nós não podíamos sair… Havia uns açucareiros de metal, que eram assim uma meia esfera de metal, cheios de açúcar, aquilo era chato, os açucareiros voaram, estava um gajo com a pinha toda partida, cheia de sangue e de açúcar… havia lá um gajo que era careca, diziam que era bufo, levou porrada dos polícias. O gerente, que era um gajo chamado Sequeira, um gajo muito simpático, foi chamado à esquadra nacional e perguntaram-lhe: “quem são esses gajos?” “Ah, aquilo é malta, estudantes, artistas, pintores, poetas…” “Não quero lá esses gajos”. De maneira que quando lá voltámos, 3 ou 4 de Maio, o gerente disse; “Vocês não podem estar aqui”. Fomos expulsos do Gelo. Foi quando a malta se passou para o Café Nacional, um café enorme, que agora já não há, que era lá ao fundo, na Rua 1.º de Dezembro, do lado direito… Foi pois com uma batalha campal que tiveram fim as reuniões do grupo no café Gelo, que se passou para a rua 1.º de Dezembro e depois para os cafés da zona do Saldanha, sobretudo o Monte Carlo, onde o grupo se encontra no momento da feitura da colectânea Grifo (1970), onde parte da geração do Gelo se volta a encontrar numa publicação colectiva.
Regresso aos textos de Helder Macedo e ao momento da fundação do grupo do café Gelo. No segundo testemunho, não resisto a transcrever um passo, em que se encontram elementos para a caracterização do café no quadro dos outros que por perto havia, isto numa época em que o Rossio era uma praça de cafés e esplanadas, uns ao lado dos outros, e ainda os valores que orientaram a geração que por lá se começou a reunir e donde saíram depois as várias publicações que atrás se comentaram, Folhas de Poesia, “A Antologia em 1958”, Pirâmide e até KWY. Mesmo se esta já pertence a um lugar diferente, foi ainda feita pela mesma geração. Dou-lhe a palavra (Relâmpago, 2010: 139-40): Conheci o Mário Cesariny julgo que em 1956, no café Gelo, no Rossio, um café tradicionalmente frequentado por pacatos comerciantes imunes às intelectualidades institucionais da Brasileira do Chiado e aos esforçados suores estudantis na cave do café Martinho que então havia para os lados do Teatro Nacional. O Gelo tornara-se num conveniente local de encontro de alguns aspirantes a poetas com alguns aspirantes a pintores que partilhavam um parco atelier nas águas furtadas do prédio ao virar da esquina. Os jovens pintores, futuramente associados ao exílio parisiense do grupo KWY, atraíram outros pintores, e os jovens poetas atraíram outros poetas já exilados em si próprios. O Mário Cesariny, mais velho do que nós e por todos nós admirado, foi um deles. O que todos nós, os jovens do Café Gelo, tínhamos em comum era uma atitude de recusa, uma partilhada vontade de quebrar amarras, um só sabermos o que não queríamos para podermos deixar um espaço livre para o que pudéssemos talvez querer. A recusa de normas estabelecidas era a nossa única norma. O questionamento de valores impostos o noss