A IDEIA – O GRUPO DO CAFÉ GELO: DO PRINCÍPIO AO FIM – 2 – por António Cândido Franco

ideia1

Mais próxima do grupo do Gelo, e tão próxima que a podemos tomar como emanando dele, o que não sucede a KWY, está uma outra revista da época, Folhas de Poesia, que teve ligações directas com membros do grupo e recebeu prestações surrealistas. Não creio porém que possa ser avaliada como órgão exclusivo do grupo e menos ainda como surrealista. A revista tirou quatro números (1957-1959), teve coordenação de António Salvado, contou com a ajuda de Herberto Helder e Helder Macedo, e chegou a ter colaboração gráfica do grupo de jovens pintores que tinham oficina por perto, então em trânsito para a Europa, mas ainda, no momento do arranque da publicação, por Lisboa. As capas foram todas assinadas por eles. O primeiro livro de Helder Macedo, Vesperal (1957), também com capa e arranjo dum deles, João Vieira, foi editado pela colecção “Folhas de Poesia”, que chegou a anunciar um livro de Alfredo Margarido, outro de Fernando Gil, outro ainda de Herberto Helder (Dicionário de Rimas). As folhas, cujo número final foi dedicado a Ângelo de Lima, merecem pois larga atenção quando se fala da geração do Gelo.

De todos os membros do grupo que deram colaboração à revista KWY o mais persistente, o mais regular, o de mais larga colaboração, foi Manuel de Castro. Enquanto Herberto, Margarido, Cesariny ou Helder Macedo apenas colaboram com a revista uma única vez, Manuel de Castro multiplicará as prestações. A separata do número cinco, de Dezembro de 1959, do ponto de vista poético a melhor realização do grupo, com textos de Manuel de Castro, Mário Cesariny, José Manuel Simões, que prestou apoio a vários números, e António Ramos Rosa, é organizada por ele e por João Vieira. Foi essa plaquete, ou o extra-texto dela com poemas de Luiz de Macedo e Pedro Tamen, que motivou a crítica dura de Helder Macedo e que levou depois à carta de Manuel de Castro de 8/9 de Fevereiro de 1960, que noutro lugar desta revista se dá a conhecer com o comentário do destinatário. O autor de Paralelo W volta a colaborar no número seis de KWY (Junho de 1960), com um texto de homenagem ao amigo do liceu, Gonçalo Duarte, “O Pintor de Monstros”, e no número oito (Outono de 1961), com um texto em francês.

Sabemos pelas cartas de Manuel de Castro a Helder Macedo, que este ainda no final de 1959 ou nas primeiras semanas de 1960 trocou Lisboa por Londres, passando pela África do Sul. O autor de Vesperal já estivera em Londres dois anos antes, entre Novembro de 1957 e Março de 1958; o poema que publicou no segundo número de KWY (Agosto de 1958) aparece pois com a data de Janeiro de 1958 (Londres). Também o poema de Manuel de Castro, “Notícia pessoal para um Amigo em Londres”, consagrado a Helder Macedo, é dessa época e surge no livro desse ano, Paralelo W. Manuel de Castro ficou em Lisboa e seguiu os desenvolvimentos do grupo do Gelo, que acabara de receber, em 1958, Carlos Loures e Máximo Lisboa, que organizarão a revista Pirâmide, de que sairão três números (Dezembro de 1959; Junho de 1960 e Dezembro de 1960). Helder Macedo deixa de frequentar de forma definitiva o café no momento em que o grupo entra na fase da publicação de Pirâmide, na qual já não entra. A importância desta revista na existência do grupo do Gelo é grande. Quer pela qualidade dos textos e das imagens, quer pelas colaborações surgirem como maximamente representativas da vida do tempo e das figuras do grupo, quer ainda por poder ser considerada como uma das raras revistas, se não mesmo a única, que o surrealismo português deu a lume, a publicação pode ser tida como a voz mais autêntica da geração do Gelo. Sem ter a originalidade gráfica de KWY, nem de perto nem de longe, a revista compensa a inferioridade neste campo, com uma qualidade textual excepcional, deixando muito para trás a do grupo parisino. Basta apontar que para além de Cesariny, de Manuel de Castro, de Margarido ou de Herberto, que tanto colaboraram em KWY como em Pirâmide, nesta entram ainda António José Forte, Luiz Pacheco, Raul Leal, Pedro Oom, António Maria Lisboa, Virgílio Martinho, José Carlos González, José Sebag e Ernesto Sampaio. Mesmo no restrito campo das imagens, registe-se a colaboração de D’Assumpção, um habitual nas reuniões do Gelo, e que nunca entrou em KWY. Não é pois despropositado afirmar que o ponto alto da vida do grupo do Gelo se situa entre 1959 e 1960 e corresponde ao momento da feitura e da saída dos três números de Pirâmide, mesmo se nesta época os fundadores do grupo já por lá não estavam e nenhum deles tenha colaborado na publicação.

O caso da colecção “A Antologia em 1958”, da responsabilidade de Mário Cesariny, que editou entre 1958 e 1963, é diferente de KWY e Folhas de Poesia. Não sendo uma revista, mas uma junção de livros, onde editaram Luiz Pacheco, António José Forte, Natália Correia, Virgílio Martinho, António Maria Lisboa e Mário Cesariny, a colecção pertence quer ao surrealismo, quer ao grupo do Gelo. Em termos de edição, é ela porventura a mais importante manifestação do grupo, donde mais uma vez estão ausentes os quatro ou cinco fundadores que tinham oficina na esquina. O seu período de vida coincide com o da última fase do grupo que se reuniu no Gelo. É a fase em que os iniciais já haviam desandado para Paris e posto em andamento a revista KWY, assim se autonomizando em sentido diferente; é também o momento em que Carlos Loures e Máximo Lisboa chegam ao grupo, coordenam os três números de Pirâmide e dão à geração do Gelo uma expressão que antes não tivera. A colecção orientada por Cesariny durou porém mais do que as reuniões do grupo no café, que tiveram o seu fecho em 1962, e mais do que os três números de Pirâmide, que se ficou entre 1959 e 1960.

Na sequência da actividade editorial desta colecção de opúsculos, orientados graficamente por Cesariny, sempre com idêntico enquadramento de capa, que em 1980 retomou no catálogo da Biblioteca Nacional dedicado a três poetas do surrealismo português (Oom, Lisboa, Leiria), é possível colocar outra empresa que surgiu por esta mesma época. Trata-se do volume antológico em torno do surreal-abjeccionismo, editado em 1963, com o título Surreal-Abjeccion-ismo, mas cujo trabalho de preparação vem de trás, arrastando-se com certeza ao longo dum bom par de anos. Muitos das matérias publicadas na colectânea são da segunda metade da década anterior e chegou a haver uma publicação de parte dos materiais antológicos um ano antes da saída do volume, no Jornal de Letras da época (n.º 16, 17-1-1962), em que Helder Macedo colabora com uma colagem enviada da África do Sul. Não veio porém a colaborar na edição em volume, o que também sucedeu a Carlos Loures, que surge na página do jornal, não figurando depois no volume, onde em contrapartida surge António Quadros, o poeta de Quybíricas, que também passou pelas mesas do café. O conceito do surreal-abjeccionismo é típico da fase do Gelo e foi por certo coado e desenvolvido à volta das mesas do café do Rossio, dando origem à colectânea de 1963 – assim como à entrevista de Pedro Oom ao Jornal de Letras, 6-3-1963, em que se teoriza pela primeira vez o abjeccionismo como movimento e se postula a sua autonomia, mas também a sua estreita proximidade, em relação ao surrealismo.

Leave a Reply