Dissemos, há poucas semanas atrás, que iria ser prestada homenagem ao Professor Germano Sacarrão, que foi um emérito catedrático de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ao que parece, será levada a cabo a propósito do lançamento de uma colecção onde se vão publicar obras-chave do Evolucionismo – Sacarrão foi um os grandes estudiosos deste campo da ciência, com vários livros publicados – estamos a recordar O Embrião e a evolução dos vertebrados, integrado na excelente colecção Saber, da Europa-América, versão portuguesa da Que sais-je?, da Presses Universitaires de France, Germano Sacarrão foi um daqueles portugueses que, se nascidos nos Estados Unidos, teria recebido um Nobel.
E também um daqueles muitos portugueses que mereciam que os seus restos mortais estivessem no Panteão. Não que isso lhes faça alguma diferença. Faz-nos diferença a nós, os que ainda estamos vivos e que nos arrogamos o direito de dizer onde devem repousar os que nos vão deixando. Não contestamos o critério que ali colocou Amália Rodrigues e Sophia, e vai colocar Eusébio. Uma extraordinária cantora, uma excelente escritora e um fabuloso futebolista – dois embaixadores do Portugal e uma inventora do país luminoso que se situa no anverso do miserabilismo, do complexo de inferioridade que nos leva a preferir o que é estrangeiro, a adoptar um culto do viajante que nos faz acolher qualquer idiota americano que guinche as suas idiotices, mas em inglês, ou qualquer actriz de telenovela, como a que em Portugal filmou um programa que basicamente provava o axioma brasileiro «português é burro». Depois de Sophia de Mello Breyner Andresen e da aprovação de Eusébio, fala-se em Aristides de Sousa Mendes, Salgueiro Maia, Zeca Afonso. Seria justo, relativamente a todos eles,. Mas depois começam as comparações – se está o Eusébio, por que não estão o Pinga, o Pepe, o Peyroteo? Estando a Amália, por que não estão a Hermínia e o Alfredo Marceneiro? A Sophia, muito bem – então e o Pessoa, o Régio e o Herberto…?
De facto, não se compreende o critério de admissão. Seja qual for, aceitemo-lo. Por votos é que não – com o discernimento eleitoral que o nosso eleitorado demonstra – Quim Barreiros, o Emplastro e Cavaco Silva, cujos passamentos não desejamos, mas mais tarde ou mais cedo ocorrerão, teriam lugar assegurado. Não esqueçamos que num amplo inquérito sobre o maior português de todos os tempos, o escolhido foi Oliveira Salazar!
ã


