Temos, os portugueses, o hábito de nos depreciarmos com expressões do tipo – «Isto, só em Portugal!». A propósito da greve dos pilotos da TAP, sucediam-se os depoimentos de passageiros, portugueses e estrangeiros, onde esta frase e outras com o mesmo sentido, eram repetidas com frequência e constituíam a cúpula das justas queixas. Quem usa o avião como instrumento de trabalho, sabe que em Espanha, França, Itália ou Alemanha, em todo o mundo, há greves nas companhias aéreas e que a falta de apoio aos passageiros afectados é pouca ou nenhuma.
Mais grave é outra enfermidade que se diz ser endémica em Portugal – a da ingratidão perante portugueses que deram à comunidade o fruto do seu trabalho intelectual, por vezes muito valioso, e que são ignorados. «Só depois de morrerem se lhes dá valor». Escritores como Camões ou Bocage são exemplos vulgarmente referidos. Vidas atormentadas e, após o passamento, a tardia glória. Mas o caso de José Saramago desmente a «regra» – Foi premiado, conhecido universalmente, reconhecido como grande escritor.
Em suma: muitas das «particularidades» dadas como idiossincráticas ou, como exclusivo português, não passam de características da natureza humana e de reacções a circunstâncias específicas – como, por exemplo, a carência de meios económicos. Muitas das nossas «especificidades» não passam de reflexos da nossa pobreza, de reacções à falta de condições criadas por essa pobreza. O «desenrascanço» constitui uma resposta que não nos deve envergonhar.
No campo das Ciências, temos a convicção de que alguns investigadores, se fossem norte-americanos, por exemplo, teriam ganho o Nobel. Nessa injustiça há vultos como o de Bento de Jesus Caraça que, ao crime da sua lusitanidade acrescentou o grave pecado de ser marxista num tempo em que um regime estúpido (mas inspirado em exemplos vindos da Alemanha, de Itália, de Espanha) não concedia aos comunistas sequer o direito de respirar. Vêm estas considerações a propósito da homenagem que no dia 1 de Junho, pelas vai ser prestada ao Professor Germano Sacarrão (Lisboa, 19—1992) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A homenagem decorre no âmbito do lançamento do seu livro Homem – Origem e Evolução, que encerra a colecção composta por textos de cientistas e filósofos da biologia contemporânea, bem como textos “clássicos” de Darwin, Oparin, Dobzhansky…
No espaço próprio, divulgaremos dados sobre esta colecção e sobre quem a dirige. Aqui, apenas quisemos referir o acto de justiça que, embora póstuma, é de louvar e de destacar. O Professor Sacarrão é uma das tais figuras que pagaram caro o crime de ter nascido num país pobre.
