A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 10 – por Carlos Loures
carlosloures
O fenómeno da aculturação a que assistimos na nossa península, com castelhanos a tentar suprimir os demais idiomas e sobrepondo as suas tradições e percursos culturais aos dos outros povos, permite-nos compreender melhor o que os turcos procuraram fazer na Grécia e noutros territórios submetidos ao poder central do Império. Se o catalão e o português resistiram sem soluções de continuidade à agressão castelhanizante, o galego quase foi suprimido, convertido em dialecto do espanhol, e quando, no século XIX, Rosalía de Castro e os seus companheiros empreenderam o rexurdimento tiveram de quase reinventar a sua língua. Com a vantagem de que, neste caso, em Portugal o idioma se conservara, evolucionara, criara neologismos próprios e os galegos puderam recorrer à genética linguística recolhida em Portugal para reconstituir alguns séculos de aculturação. O grego, como já vimos, resistiu até ao século XVII sob a forma escrita em Creta e em Chipre, enquanto as ilhas foram administradas pela República de Veneza na própria Sereníssima.
Na Grécia subsistiu sob a forma oral em canções, litanias, aforismos.. Mas resistiu também pela riqueza do acervo clássico que, por mais esforços que Istambul desenvolvesse, persistia no imaginário dos povos cultos – e as formas arcaicas ajudaram a recriação do grego. Grande obreiro desse trabalho, no início do século XIX, foi Adamantios Koraïs, que com base nas antigas regras gramaticais, recriou um grego moderno com o seu quê de laboratorial, mas utilizável. Mas só após a criação do moderno Estado grego a língua renasceu. Não sem polémica, pois durante o século XIX, foi recorrente a discussão sobre qual das bases deveria ser estruturada a língua literária da velha nova língua: na variante culta – o katharevusa, ou no demótico, variante basicamente oral. Lá iremos.