CORSINO FORTES, POETA DE CABO VERDE- por Manuel Simões*
carlosloures
*Professor jubilado da Universidade de Veneza
Em Março de 1959, na cidade do Mindelo (ilha de São Vicente), um grupo de estudantes do Liceu Gil Eanes publicou o Boletim, número único no qual se estreou como poeta Corsino Fortes (1933), recentemente falecido em 24 do corrente mês. Uma voz que de súbito se impôs e que haveria de confirmar-se na famosa revista Claridade, merecendo ser incluída na antologia Modernos poetas cabo-verdianos (1961). E se a sua primeira poesia tem o tom melancólico da morna, o que não deixa de marcar a cabo-verdianidade latente, logo em 1960 (Claridade, nº. 9) a palavra se revela insubmissa e instaura um discurso onde se percebe já a ânsia de liberdade: «Girassol/ rasga a tua indecisão/ e liberta-te».
É, porém, com Pão & fonema (1974) que o poeta manifesta o peso da palavra e que a sua lírica adquire traços distintivos da vanguarda que se afirma na singularidade da literatura de Cabo Verde. Veja-se este magnífico segmento:
Ouve-me! primogénito da ilha
Ontem
fui lenha e lastro para navio
Hoje
sol semente para sementeira
… … … … … … … … … … … …
Aqui
Ergo a minha aliança
De pão & fonema
Enquanto
o vento bebe
E o vento bebe meu sangue a barlavento
(“Pilão II”)
Esta é uma poesia de denúncia («e os corvos sangram do alto/ bibliotecas de tantas sílabas»), elaborada em anos de pesquisa e frequência de outras poéticas de língua portuguesa, de que o concretismo brasileiro será porventura o “modelo” influente. E ainda sem sair do seu primeiro livro, a poesia adquire uma dimensão épica, porta-voz de uma história de resistência, também no exílio, com a consciência de «Que toda a partida É potência na morte/ E todo o regresso É infância que soletra» (“Emigrantes”).
Depois desta colectânea, o poeta publicou ainda Árvore & tambor e Pedras de Sol & Substância, trilogia que reuniu em A Cabeça Calva de Deus (2001). O grande poeta cabo-verdiano faleceu dois dias depois de ter apresentado o seu último livro, Sinos de Silêncio.
Além de poeta, Corsino Fortes, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa (1966), foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Lisboa, logo a seguir à independência (1975). Enquanto escritor, presidiu à Associação dos Escritores Cabo-verdianos e à Academia Cabo-verdiana de Letras. E no corrente ano foi distinguido com o Prémio Literário do 40º. Aniversário da Independência de Cabo Verde.