SOBRE A LITERATURA DE CABO VERDE/2 – textos e escolhas de Carlos Loures

Eugénio Tavares

Vamos aqui transcrever textos de diversos autores portugueses que se dedicaram ao estudo da obra de Eugénio Tavares. Corsino Fortes considerou-o «o Camões de Cabo Verde». Há países onde a obra de um escritor constituí os alicerces de uma literatura. As literaturas portuguesa e castelhana existiriam sem Camões e sem Cervantes?

 

FALEMOS SOBRE EUGÉNIO TAVARES

Em Outubro de 2013, a Fundação Eugénio Tavares apresentou a ideia da realização de um Congresso Eugénio Tavares, definindo esse projectado forum como um «espaço cultural e científico ajustado à dimensão política de Eugénio Tavares e de outros autores nativistas da sua geração, enquanto pilares fundamentais da construção da identidade nacional cabo-verdiana e do processo de emancipação desta nação». Estou de acordo, pois parece-me que debater a obra de Eugénio Tavares, constitui um meio de falar sobre a proto-história da literatura de Cabo Verde

Como se costuma dizer, a minha opinião vale o que vale e é apenas o parecer de um estudioso da cultura cabo-verdiana. Por certo, haverá quem possa, com maior saber e propriedade, pôr os pontos nos ii e confirmar ou rectificar o que aqui vou dizer. – antes de Eugénio Tavares, houve livros publicados em Cabo Verde, alguns mesmo escritos por autores nascidos no Arquipélago. Mas não se lhes poderá atribuir a designação de literatura nacional.

Corsino Fortes (1933), escritor e ex-embaixador de Cabo Verde em Portugal, considerou Eugénio Tavares o «Camões de Cabo Verde». Há também quem o designe por o «pai» da literatura de Cabo Verde. Criou o próprio conceito de caboverdianidade, sem o qual não teria sido possível uma literatura. Nem uma verdadeira pátria. Um Congresso centrado na sua figura e na sua obra, faz todo o sentido.

Disse-o já, no âmbito de uma troca de impressões com o nosso saudoso Sílvio Castro, e não vejo motivos para alterar a minha convicção de que na História da Literatura cabo-verdiana existem dois momentos-chave – o primeiro é a obra de Eugénio Tavares (1867-1930). O outro momento é marcado, em 1936, pela publicação do primeiro número da revista Claridade, fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa e outros.

O primeiro prelo foi introduzido em 1842 e em 1856 surge o primeiro romance de um autor cabo-verdiano, O Escravo, de José Evaristo d’Almeida, (…) como diz Pires Laranjeira em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995, «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes e Pedro Cardoso». Óscar Lopes e António José Saraiva, numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, dizem ao avaliar as literaturas de língua portuguesa, «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», , destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».

Pode dizer-se que antes de Eugénio Tavares (1867-1930), não existia, mesmo entre as elites do arquipélago, em Cabo Verde uma consciência explícita da identidade cultural dos cabo-verdianos. A consciência dessa identidade, foi o primeiro e importante passo para criar uma literatura própria. E não só.

Disse-o já, no âmbito de uma troca de impressões com o nosso saudoso Sílvio Castro, e não vejo motivos para alterar a minha convicção de que na História da Literatura cabo-verdiana existem dois momentos-chave – o primeiro é a obra de Eugénio Tavares (1867-1930). Escrita em português e em crioulo abriu um espaço identitário nunca antes enunciado – o da caboverdianidade. A partir dos seus escritos (e da sua acção) nasceu nos intelectuais do Arquipélago a consciência de que, quer se exprimissem numa ou na outra língua, se moviam num território cultural diferente.

O segundo momento é marcado, em 1936, pela publicação do primeiro número da revista Claridade, fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa e outros.

O primeiro prelo foi introduzido em Cabo Verde no ano de 1842 e em 1856 surge o primeiro romance de um autor cabo-verdiano, O Escravo, de José Evaristo d’Almeida, (…) como diz Pires Laranjeira em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995, «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes e Pedro Cardoso».

Na avaliação das literaturas de língua portuguesa, «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», dizem Óscar Lopes e António José Saraiva numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».

Manuel Ferreira, sem dúvida um dos maiores especialistas portugueses em literatura africana, particularmente na de Cabo Verde, considera Eugénio Tavares, sobretudo um poeta e um jornalista «de excelente qualidade», quer exprimindo-se em português, quer em crioulo. O Tenente-Coronel Joaquim Duarte Silva, um dos mais antigos estudiosos da sua obra, é da opinião que o primeiro texto escrito em crioulo, até então exclusivamente usado na forma oral, é da autoria de Eugénio Tavares. Refere-se a uma «transposição» para crioulo do famoso texto de Camões, Endechas a Bárbara Escrava (Aquela cativa/Que me tem cativo…), feita por Eugénio. Diz a versão crioula – Bárbara, bonita escraba… João Augusto Martins em Madeira, Cabo Verde e Guiné, Carlos Parreira e outros autores, consideram-no o maior poeta lírico de Cabo Verde. Corsino Fortes (1933), escritor e ex-embaixador de Cabo Verde em Portugal, designou-o por o «Camões de Cabo Verde». É por muitos considerado o «pai» da literatura de Cabo Verde e, como disse, o criador do próprio conceito de caboverdianidade, sem o qual não teria sido possível criar uma literatura.

Nem uma pátria.

Assente esse pilar da dignidade nacional, a cultura cabo-verdiano, sobretudo a literatura, divide-se em duas épocas distintas – antes e depois da revista Claridade. Em Março de 1936 surgia o primeiro número; em Dezembro de 1960 publicou-se o último. Foram dez números o que, em 24 anos não parece muito, sobretudo se analisarmos esse facto à luz da realidade actual.

No entanto, não podemos esquecer que, em 1936, ano em que foi desencadeada a Guerra Civil de Espanha, o governo de Salazar tentava limpar o País dos derradeiros resíduos da democracia que, desde o advento do liberalismo, e com breves interregnos, se vivia em Portugal. As colónias não escapavam a essa limpeza metódica que, procurando erradicar tudo o que cheirasse a vestígios de hábitos democráticos, fazia também desaparecer nichos culturais que, à gente do regime e ao ditador, pareciam ser (e, de facto, eram) refúgios das oprimidas ideologias políticas.

Os primeiros «claridosos» foram os escritores Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. Aos nomes dos três fundadores vieram juntar-se, entre outros, os de Félix, Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Luís Romano, Abílio Duarte, Virgílio Avelino Pires, Onésimo Silveira, Xavier Cruz, Artur Augusto .

O conteúdo dos dez números, algo heterogéneo (ou ecléctico, se preferirmos), permite estabelecer afinidades com o movimento neo-realista que, em Portugal, velejava a todo o pano por esses tempos. Afinidades que também teve com a literatura brasileira. Em todo o caso, mantendo sempre a inclusão de textos em crioulo, poemas sobretudo, apesar de o português ser dominante, a «Claridade» conservou, ao longo da sua existência, um carácter de genuinidade autóctone.

Não pretendo com esta crónica esgotar este tema ou sequer abordá-lo com a profundidade que merece. Aliás, existem sobre o tema estudos de grande qualidade, nomeadamente os de Manuel Ferreira e os de Alfredo Margarido. Quis apenas chamar a atenção para estes dois marcos da cultura do povo irmão de Cabo Verde – a obra de Eugénio Tavares e a revista «Claridade», que foram respectivamente, um apóstolo da caboverdianidade e um farol de cultura de um arquipélago, onde existe agora uma literatura fecunda com nomes como os de Germano Almeida, Aguinaldo Fonseca, Yvone Ramos, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Yolanda Morazzo, Gabriel Mariano e tantos outros.

Eugénio Tavares proclamou que existia uma identidade literária nacional e os dez números da «Claridade», provaram que essa identidade existia, lançando uma luz intensa e duradoura sobre o arquipélago.

Leave a Reply