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EDITORIAL – Alcácer Quibir

A batalha de Alcácer Quibir foi num 4 de Agosto. O de 1578.

Este desastre militar é por vezes considerado o motivo da decadência do Império. Porém,  a decadência começara muito antes – a derrota é um efeito e não uma causa. Tal como a destruição da Invencível Armada não constitui a razão pela qual o Império centrado em Madrid perde a hegemonia europeia. Com a Reforma, cresce uma nova maneira de encarar o mundo e, pode dizer-se, uma nova mentalidade.

Por nova, não deve entender-se mais evoluída, pois em muitos aspectos a moralidade que vem agarrada ao protestantismo é mais retrógrada do que a que decorre da fé católica. O elogio da pobreza emanado de Roma, a promessa feita aos miseráveis de um lugar privilegiado no «reino dos céus» é substituído por um conceito que considera a pobreza um pecado – não prover as necessidades do agregado familiar  – Ou seja, os povos peninsulares descobriram novas terras, mas não souberam encontrar a melhor maneira de explorar as suas riquezas. A Guerra Civil Americana é um bom exemplo da nova mentalidade – “libertar” os escravos do Sul foi a maneira de acabar com a «segurança social» que a escravatura assegurava aos negros das plantações sulistas. Os impérios peninsulares que, mercê do seu avanço científico, descobriram novas terras, ricas em matérias-primas e com «grandes recursos» em matéria de mão de obra escrava, criaram as condições objectivas para o desenvolvimento do capitalismo.

Porém, acorrentados à moral emanada de Roma, perderam recursos, esgotaram energias, expulsaram os judeus que constituíam a intelligentsia e foram enriquecer a cultura de outras nações, procurando evangelizar a bem ou  a mal, pela cruz ou pela espada. Os novos tempos exigiam uma nova moral – e aí temos em todo o seu esplendor o capitalismo triunfante, imposto à escala global. Católicos, ortodoxos, budistas, islamitas e tutti quanti, comendo Corn Flakes ao pequeno almoço, usando sapatilhas Nike… D. Sebastião foi o actor casual da lusitana tragédia. Produto de uma estrutura decadente.

Alcácer Quibir efeito e não causa. Se Marrocos tem sido submetido e prolongasse Portugal pelo Magrebe, os marroquinos teriam em vez de um rei um presidente. Em vez de Maomé V um Aníbal primeiro ou um Maomé da Silva. Ou ter-se-iam libertado como o fizeram relativamente a Espanha e França. Pormenores…

 

 

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