EDITORIAL – Ganhar uma bandeira, pagar a independência.
carlosloures
Passaram ontem 630 anos sobre a Batalha de Aljubarrota que pôs termo à crise política que se iniciara em 1383. Na sua excelente crónica semanal, Ernesto V. Souza descreve com rigor o quadro em que a nossa crise se insere «Desde 1350 nos territórios da França, na Germânia e na Península, começa da mão de novas dinastias um processo no que os diversos tronos em consolidação irão incorporando, subordinando e dissolvendo em diversa medida territórios, regiões, ducados, condados e até antigos Reinos que apenas um século antes representavam histórias, identidades, poderes, linhagens e economias que definiram por quase mil anos a política Europeia. (…) A descoberta da América, as navegações a Oriente, e a Norte transformarão, não apenas as economias, senão as percepções e sentido de uma Europeidade que emerge diversa e em competência. (…) A Borgonha, Gênova, Aquitânia, Navarra, Normandia, Gascunha, a Provença, Lombardia, Sicília, Catalunha, a Galiza são nomes e culturas, espaços geográficos, económicos e políticos que se apagam entre 1400 e 1500, e que passam a formar parte, especializada, subordinada, ou dependente de conjuntos reunidos politicamente arredor de dinastias, linhagens e monarcas destacados.[…] Uma história nacionalista dificilmente pode enxergar a quantidade de fatores e circunstâncias, que operam ao mesmo tempo em toda a Europa e no Mundo, e como a incorporação da Normandia e a Aquitánia a França, a divisão de Navarra e Aragão entre Castela e França, o declínio da casa da Borgonha na França mas não nos principados Germânicos, a debilidade do império Mediterrâneo Aragonês, terminarão por implicar a emergência e política das casas de Avis e Trastâmara e a modificação do espaço peninsular numa realidade política Atlântica (Portugal) e outra potência Mediterrânica e Continental (Castela). E Ernesto V. Souza conclui: «É fascinante entender que o mapa europeu podia ter sido tão outro com a mudança de uma dinastia por outra em qualquer uma das fases ou quadrinhos do tabuleiro do grande xadrez».
Estamos de acordo, embora mesmo uma história objectiva (não inquinada por visões nacionalistas) deva reconhecer que um pequeno país como Portugal teve de exigir grandes sacrifícios ao seu povo para, parafraseando o poeta angolano Rui Monteiro, «ganhar uma bandeira»… e também uma língua, uma literatura. uma identidade. Continuamos a pagar, com um baixo poder de compra e outros desfavoráveis indicadores, Não há almoços (nem independências) grátis.