TRATAR A FERIDA E ISOLAR O VIRUS por Luísa Lobão Moniz
clara castilho
…e todos os dias, vagas atrás de vagas … e aí vêm eles , os refugiados.
É tão bonito o mar, a cor, a consistência, a espessura.
Embalados nesse encantamento dão à costa já sem vida. Não pára a sangria, todos os dias há sangue derramado.
Teremos a verdadeira noção do que é ser-se refugiado?
Todos os dias, os jornais enchem páginas e páginas com comentários e fotografias desta realidade que se tem repetido ao longo da História.
Segundo, o ACNUR, 60 milhões de pessoas estão a ser forçadas a andarem pelo mundo à procura de paz, a fugir de atrocidades bélicas, de ditaduras, de cataclismos.
Refugiado é uma palavra cheia de sentimento.
A palavra refugiado é uma palavra sobejamente conhecida dos europeus.
A Europa foi feita também com refugiados.
A nossa História está marcada por milhões de europeus que fugiram devido a perseguições religiosas ou políticas; que fugiram da guerra, da ditadura, da repressão, da invasão do seu território.
É tão bonita a paisagem, tão colorida e com uma harmonia de difícil imitação.
Quem se esqueceu dos judeus, dos ciganos e de muitos outros que fugiram da Alemanha, durante o pesadelo nazi; dos republicanos espanhóis que fugiram para a França após a derrota da Guerra Civil espanhola; dos portugueses que desertaram do exército, da marinha e da aviação por causa de uma guerra colonial em África.
Há pouco tempo, no final do século XX, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas por causa das guerras na Jugoslávia, bem no coração da Europa.
Ser refugiado é lutar contra a escravatura, contra a morte, é lutar pela Liberdade.
É uma luta dura, feita de tragédias.
O que têm de diferente estes refugiados que todos os dias vemos na televisão? Nada, apenas o facto de terem mais visibilidade.
Ser refugiado é mostrar ao mundo o Homem. O Homem que mata e destrói e o Homem que ama a vida. Os refugiados não querem ser só protegidos pelas leis internacionais, querem o fim da guerra.
Estamos, e bem, a tratar da ferida, mas não do vírus.
Os portugueses têm revelado, ao longo das épocas, que a palavra solidariedade é para ser gritada bem alto, mas essencialmente, é para ser vivida.
Porque é que há tanta gente a dizer que tem vergonha de ser português?
Porque olhamos tanto para os nossos erros?
É verdade que ninguém aprende com a experiência dos outros, mas também é verdade que para sermos Homens e Mulheres, com a noção das nossas finitudes, é preciso ter boa auto estima para podermos dar a mão com firmeza e segurança. Quando, dermos por isso, morremos no mesmo mundo em que nascemos. O que fizemos para o crescimento da Humanidade?
Bem hajam todos aqueles que já contribuíram para tratar a ferida. Quem estará interessado em isolar o vírus?