CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – DEPOIS DO ANÍBAL, QUAL A SENHORA, O SENHOR QUE SE SEGUE? –
joaompmachado
Pelos vistos, continuamos convencidos de que o país tem de ter um presidente. Nem os dois desastrados mandatos do presidente Aníbal nos convenceram do seu total absurdo. Se os outros povos têm um Estado, e este um chefe, também nós temos de ter. Nem que este venha a revelar-se o principal problema institucional do país. Damo-nos, inclusive, ao trabalho de ir depositar o nosso voto nas urnas do dito. Com o Aníbal, o país viveu os primeiros anos do terceiro milénio como nos sinistros tempos do fascismo. E logo que conseguiu pôr o seu PSD a governar, com maioria absoluta no Parlamento, foi o seu fiel lacaio, a fazer lembrar o famigerado Américo Thomaz. Foi ainda mais absurdo político do que aquele. Rodeou-se de uma corte que rivalizou com a do Rei Sol, antes da Revolução Francesa. Cercado de assessores por todos os lados, menos por um, precisamente, o da Cultura. Um assessor de Cultura seria um perigo para o próprio presidente Aníbal e para o seu governo CDS-PSD que cultivou o analfabetismo escolarizado e atirou borda-fora quantas, quantos das novas gerações atreveram-se a crescer em engenho e arte, conhecimento científico e filosófico, medicina e enfermagem de qualidade, economia e finanças ao serviço das populações em vez de ao serviço dos banqueiros. Viram-se assim obrigados a ir dar o seu melhor no estrangeiro. Vêm agora em seu lugar levas de refugiados, com saudades dos seus países dilacerados por guerras fratricidas e sistematicamente bombardeados pelos aviões da Nato. O país conhece, nesta altura, um novo governo, apoiado à esquerda no Parlamento, e vai ter de se habituar a um novo Presidente da República. Qual a senhora, o senhor que se segue? Mais um PSD, como o Aníbal, só que muito mais perito em malabarismos e em criar factos políticos, charlatão e sacristão católico q.b., ou alguém politicamente culto que escute e interprete os anseios das populações, há séculos, mergulhadas e perdidas no nevoeiro e no cinzentismo cristão eclesiástico? Há candidatos à medida dos interesses de cada partido. Às populações, resta votar. Ou recorrer à gritante abstenção. Que prevaleça a consciência de cada uma, cada um de nós. Mas já somos populações com consciência política, ou ainda só rebanhos que executam as ordens dos mercenários do poder político?