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EDITORIAL – Franco lo dejó bien atado

logo editorialNunca fizemos segredo sobre a nossa forte aversão ao vizinho estado espanhol; nunca calámos o nosso protesto pelo roubo de Olivença, nem nunca ocultámos o nosso desprezo pela cobardia da diplomacia portuguesa que não exige 0 que nos pertence e mantém relações diplomáticas com um estado ladrão; nunca deixámos de defender a criação de uma fragmentação do mapa da Península reorganizado de acordo com culturas, idiomas e com a evolução histórica de cada uma das nações. Nunca escondemos que Espanha é, para nós, um estado odioso.

Temos, porém, plena consciência de que existe um profundo fosso entre a realidade e aquilo que desejamos –o redesenho da Península em que se respeitem as nacionalidades que a agressividade de uma Castela economicamente deprimida amalgamou num estado único, ligando as diferentes nacionalidades com um folclore andaluz ridículo como símbolo do País Basco ou da Galiza- O mesmo que se fazia na Mocidade Portuguesa com miúdos   timorenses vestidos de campinos e dançando o fandango.

Na realidade, as questões nacionais não assumem por todo o estado espanhol a visibilidade que atingem na Catalunha – nem no interior da esquerda existe a consciência desse desprezo castelhano pelas tradições de cada Nação. Até mesmo a palhaçada monárquica, que Franco manteve congelada e depois encenou usando como títere um rapazinho submisso, sem sentido de honra (da honra de que os monárquicos tanta questão fazem de demonstrar), traindo o pai, vendendo-se a um regime gerido por um punhado de militares da estirpe de um Queipo de Llano que aos microfones da Rádio Sevilha e usando os retransmissores do Rádio Clube Português, vomitava no seu espanhol entorpecido pela embriaguez o seu ódio insano à República e à Democracia, ou de um Milán d’Astray com o seu “¡Viva la muerte! arremessado a Miguel de Unamuno. Um rapazinho que foi um mandarete de uma das mais odiosas figuras do século XX e um moço tão respeitável que mereceu o cognome de «el putero». O filho que no seu discurso de posse se referiu ao estado espanhol como «nación de naciones».num vislumbre de realismo, está amarrado a uma corja de «nacionalistas» e reina sobre um estado «democrático» onde se celebra Franco de braço erguido e cantando «Cara al sol».

Nós, portugueses como os que escrevem este blogue, desejávamos ter por vizinhos a República da Catalunha, a República Basca, a República Galega ou mesmo um estado galego-português; o remanescente destes estados livres, chamar-se-ia então República Espanhola, pois toda a repulsa que nos merece um estado onde se esmaga a dignidade de nações que merecem, tanto como Castela, ser autónomas e que são representadas por ícones como as touradas, as pandeiretas e castanholas, pelo cante e pelos olés, não nos faz esquecer o esplendor da Espanha de Goya e Picasso, de Granados e de Albéniz, de Cervantes e de Unamuno…

Amamos Espanha e é um privilégio coabitar com a sua luminosa cultura a nossa comum península. Odiamos a miserável monarquia borbónica que oprime desde Madrid, irmãos peninsulares, que têm tanto direito como os castelhanos a uma bandeira, a um hino e sobretudo a uma cultura diferenciada.

Mas temos consciência de que a esquerda espanhola não atribui a mesma importância a esta questão central e de que Podemos e Ciudadanos, tal como PSOE, desprezam um factor nuclear da realidade do estado – aceitar o castelhano como «língua oficial», a marcha de carroussel (como lhe chamou Malraux) como hino nacional, um rei e uma rainha que mais não são do que personagens da Hola!, é trair a sua cultura nacional. É perpetuar o franquismo e manter o velho ogre, no solene túmulo do Valle de los Caídos, rebolando as ossadas e repetindo: « Lo dejé todo atado y bien atado y ya veo que lo habéis mantenido. Así me gusta»!

 

 

 


 

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