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FRATERNIZAR – Que natal festejar, ano após ano? O do Cristo-poder, a raiz de todo o Mal, ou o do Sol? Com Jesus Nazaré não há natal a festejar. Há o seu ser-viver histórico que urge prosseguir, de forma actualizada, cada dia – por Mário de Oliveira

 

 

Todas as igrejas cristãs, com destaque para a católica romana, a do papa Francisco e da sua hierarquia eclesiástica, mai-los respectivos párocos, festejam, ano após ano, o natal do mítico Cristo, o filho de David, condenado pelo seu anacrónico calendário litúrgico a ter de nascer  todos os anos numa manjedoura e a morrer crucificado, o que perfaz uma abominável e intolerável prática de sadismo religioso eclesiástico. Melhor fora que tais igrejas e seus dirigentes de proa nunca tivessem nascido, porque estão aí, como ladrões e salteadores das populações só para roubar, matar, destruir as mentes-consciências dos seres humanos e povos que ainda os seguem. E tudo, sob a capa da bondadezinha-caridadezinha-virtude, de partir o coração, até aos mais insensíveis. As pessoas e os povos não se têm dado conta, porque tudo lhes é apresentado de cima para baixo, como proveniente directamente de Deus, o dos clérigos, desde o ignoto responsável pela paróquia mais insignificante, ao monarca absoluto todo-poderoso, no vértice da pirâmide, o papa de Roma. Sempre foi assim, desde que a Cristandade se impôs, urbi et orbi, impunemente em todo o Ocidente e, por meio dele, em muitas outras nações do mundo. Sem qualquer direito ao contraditório, de imediato reprimido, excomungado, queimado nas fogueiras da Santa Inquisição, na pessoa de quantas, quantos lhe derem voz e vez.

Só com a Revolução Francesa, ocorrida no coração da Europa, as coisas começaram a mudar. Lentamente, mas sem retorno. Hoje, são já incomparavelmente menos as pessoas que ainda embarcam nesta lenga-lenga clerical católica e protestante. Contudo, ainda o bastante para nos pôr os cabelos em pé. Bastaria uma só pessoa, possessa desta ideologia eclesiástica, para nos afligirmos. Mas são ainda multidões, mantidas na ignorância, no medo, na treva. A ideologia-teologia cristã é, porventura, o pior dos demónios, porque se faz passar por luz do mundo, quando é holofote apontado aos olhos das mentes-consciências das populações. Onde entrar e alojar-se, dificilmente sairá. Nem Jesus conseguiu expulsá-lo das mentes-consciências do principal grupo dos seus seguidores de origem judaica, o chamado grupo dos Doze. Todos à uma, Tomé incluído, liderados por Simão, a quem Jesus, logo no momento em que ele lhe é apresentado pelo irmão, chama “Pedro”, tão fanático o vê. Após a morte crucificada, procurada e consumada pelos sumos-sacerdotes do judaísmo e demais cúpulas do poder judaico de então, ei-lo pronto a restaurar o destroçado grupo dos Doze e, com ele, fundar-liderar uma nova corrente político-religiosa, chamada judeocristianismo (= judaísmo com messias-cristo poder invicto), que tem durado até aos nossos dias, graças à posterior adesão de Saulo/Paulo e, mais tarde, à do imperador Constantino e os seus sucessores, todos os papas de Roma, incluído o actual Francisco.

É este sistema ideológico-teológico, chamado cristianismo católico e protestante que, habilmente, se apropriou dos quatro Evangelhos, integrou-os na Bíblia cristã,sob a designação da “Nova Aliança” ou “Novo Testamento”, interpretados à luz da Bíblia judaica, a da Antiga Aliança, ou “Antigo Testamento”. Vinte séculos depois desta alta traição a Jesus e ao seu Movimento político maiêutico, o cristianismo consolidou-se e marcou o Ocidente e, por ele, grande parte dos povos do mundo. O natal cristão não tem nada a ver com Jesus e o seu nascimento, 4 a 6 anos antes do ano 1, e crucificado em Abril do ano 30, precisamente por se ter recusado a ser o Cristo, o filho de David, o filho do Poder monárquico absoluto. Entretanto, continua a ser o único natal que as populações do Ocidente ainda hoje conhecem e celebram, cada vez menos na sua expressão religiosa eclesiástica, cada vez mais na sua expressão consumista, promovida a todo o instante pela poderosíssima máquina chamada Publicidade, a Mentira que faz do branco, preto, da treva, luz, do inumano, humano, do assassínio, vida, do crime mais horrendo, virtude heróica.

Os 4 Evangelhos escritos na clandestinidade, para testemunharem Jesus e a boa notícia que é o seu ser-viver histórico entre nós e connosco  e, ao mesmo tempo, denunciarem o cristianismo nascente que, para mal da humanidade, veio a sobreviver à destruição de Jerusalém no ano 70 pelos exércitos do império romano, acabaram totalmente sequestrados e interpretados-manipulados pelos sucessivos dirigentes do cristianismo e respectivas igrejas, as protestantes, incluídas, qual delas a mais perversa, porque todas inimigas da liberdade-autonomia das pessoas, dos povos e do planeta. Os fascismos de toda a espécie e os imperialismos que a história conhece e sofre ao longo destes dois milénios de Cristandade, têm todos como pai o cristianismo, nas suas duas vertentes, a religiosa-eclesiástica e a laica-ateia, as duas faces da mesma perversão institucional.

O natal que começou por festejar o Sol, visto-tido pelos povos politeístas do império romano como o Deus fonte da vida que morria por ocasião do Solstício de inverno e, três dias depois, ressuscitava e começava a crescer até ao solstício de verão, acabou substituído, com e a partir de Constantino, pelo mítico Cristo ou Messias invicto, o filho de David, do cristianismo, convertido em religião oficial e única do império romano. Com a chegada do poder financeiro, no final do século XX, e o seu fulminante domínio absoluto na esmagadora maioria das mentes-consciências das pessoas e dos povos das nações, a perversão institucional acaba de dar mais um passo para a autodestruição da vida humana e de toda a espécie de vida no planeta. Enquanto o Sol, que já havia sido substituído pelo Cristo invicto do cristianismo eclesiástico, vê-se, hoje, totalmente ultrapassado pelo Cristo-Poder financeiro, o deus Dinheiro, o único valor absoluto para as pessoas e os povos da terra. À beira dele e das suas narrativas ideológicas e propagandísticas, as narrativas do natal eclesiástico, extraídas dos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus e do Evangelho de Lucas, posteriormente acrescentadas aos textos originais, são estórias que já nem às crianças dos infantários conseguem encantar. Por mais que as igrejas se danem, são coisa do passado, sem lugar, inclusive, nos museus mais frequentados pelas pessoas.

Ou regressamos a Jesus, o filho de Maria, à sua Ruah/Espírito maiêutico terceiro milénio, e mudamos de concepção de ser humano e de Deus, ou simplesmente perecemos, comidos pelo Consumismo religioso-ateu do Mercado e pelo seu único deus, o Dinheiro. Não esperemos, porém, mudanças multitudinárias, muito menos da banda das cúpulas das igrejas cristãs, intrinsecamente pervertidas, desumanizadas, agentes históricos de descriação das populações que ainda as frequentem. Festejemos, sim, o natal do Sol e, com ele, festejemos – sobretudo, cuidemos – (d)o planeta terra, nossa casa comum. Ao mesmo tempo, prossigamos Jesus terceiro milénio e a sua Ruah/Espírito maiêutico, num ser-viver histórico marcado pela simplicidade, estilo, aves do céu, lírios do campo, a única via que nos faz crescer em humano de dentro para fora, até sermos plena e integralmente humanos uns com os outros, uns para os outros. E com o planeta Terra, e todos os demais seres vivos que o habitam connosco e nos precederam no decurso da Evolução.

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