
Tila e Kiko correram o bosque verde acima, feitos loucos. Tanto que, quando Tila tocou à campainha da casa do Afonso, os bofes quase lhe saíam pela boca fora. Kiko também não estava melhor e a sua carita avermelhou como um pimento. Foi Ana, a mãe do Afonso, quem abriu a porta. Quando os viu assim, temeu o pior: “O que é que vos aconteceu, miúdos?”, perguntou do alto do seu metro e setenta e cinco. Tila, com o despacho que lhe era conhecido, gritou: “Ana, aconteceu uma coisa maravilhosa: encontrámos quatro gatinhos no bosque”. “Quatro gatinhos? Sozinhos?!”, retorquiu Ana. Matilde, pois esse era o verdadeiro nome de Tila, levou as mãos à cabeça, coçou-a, e foi Martim, o Kiko, como todos o tratavam, que deu resposta à mãe de Afonso: “Bom, Ana, um deles era mais crescidinho…” Ana, fixou os dois lá do alto, e logo decidiu: “Deixem-me desligar o ferro e vamos ao bosque ao encontro dos gatinhos”. Afonso, que entretanto se aproximara, soube a boa notícia através da Tila: “Olha, íamos a caminho do riacho quando fomos surpreendidos pela presença dos gatitos”. “E o que é que eles fizeram? perguntou Afonso, para logo o Kiko responder: “Mal nos viram escaparam-se e nunca mais os vimos”.
Antes de se voltar a juntar aos miúdos, a mãe do Afonso preparou um kit de sobrevivência para levar aos novos vizinhos do bosque verde. Um kit constituído por uma garrafa com água, um pacote de leite, dois pequenos recipientes de plástico e uma mão-cheia de comida própria para gatos, que retirou de um enorme saco de papel sob o olhar atento de Félix – o gatuxo de casa. Era uma tarde de Abril, soalheira e quente. Uma verdadeira tarde de Primavera, pelo que Tila, Kiko e Afonso aproveitavam todos os tempos livres para se esgueirar para o bosque contíguo à praceta onde se erguiam as suas casas e duas torres de apartamentos. O bosque tinha escapado à construção de mais habitações. Era um verdadeiro pulmão para as famílias que ali viviam, e um palco de liberdade para as meninas e os meninos da praceta. Sobretudo agora que o bosque verde estava recheado de flores silvestres: margaridas, papoilas, pampilos, flor-de-alcachofra e dentes-de-leão. Até alcançarem o local onde tinham sido avistados os gatitos, Ana, Afonso, Tila e Kiko tiveram de percorrer umas largas dezenas de metros. Mas ali chegados, e por mais que procurassem, ninguém logrou pôr-lhes a vista em cima. “ Ó meu Deus, se calhar já alguém os levou”, gritou Tila. Ana tranquilizou-a: “Calma, os gatos são muito senhores do seu nariz e não se deixam apanhar facilmente.” Os quatro quedaram-se por ali bastantes minutos, percorreram as margens do riacho com toda a atenção, mas dos gatos nem sombra. Ana decidiu, então, que os recipientes com a água, o leite e a comida ficariam ali. E assim fizeram. Depois voltaram a subir o bosque verde em passo lento. Ana regressou a casa e Tila, Afonso e Kiko ficaram a aguardar a chegada dos outros miúdos da praceta para lhes dar a notícia. Às sete da tarde, como sempre acontecia, chegaram o Lucas e a irmã Mariana e logo a seguir o Ruben e o Francisco. Os sete eram os habitantes mais jovens da praceta, pois por aquelas paragens também se notava que a população estava envelhecida. Tal e qual ouviam dizer na televisão.
Naquela noite nenhum dos sete dormiu o sono dos inocentes. A nova vizinhança não lhes saía da cabeça. Principalmente da cabeça da Tila e do Kiko – os seus descobridores. Não admira, pois, que logo pela manhãzinha se tenham dirigido para casa do Afonso, pois sua mãe estava desempregada e era ela que levava e trazia Tila e Kiko da escola e deles cuidava até ao final do dia. Tomado o pequeno-almoço, Afonso, Tila e Kiko correram para o bosque verde. Mas logo decidiram parar. E começaram a descer o bosque com mil cuidados. Estavam convencidos de que assim teriam mais possibilidades de apanhar os gatitos em flagrante. E assim aconteceu. Não muito longe do riacho, lá estavam os “quatro” deitados no chão, fazendo festinhas uns aos outros, rebolando-se. E tão distraídos estavam, que só no último instante é que o mais espigadote deu o alarme. Levantou-se, fitou os intrusos, abriu a boca e os seus bigodes ficaram tão tensos que Afonso, Tila e Kiko sentiram um friozinho subir-lhes por eles acima e ficaram sem qualquer reacção. A cena durou escassos segundos, mas para uns e outros pareceu ter durado uma eternidade. Quando Afonso, Tila e Kiko se recompuseram do choque e arregalaram os seus olhitos já não conseguiram vislumbrar o “bando dos quatro”. Tinham desaparecido por entre a vegetação do bosque… Regressaram a casa do Afonso tristes, mas Ana logo aconselhou: “Meninos, vão com calma. Ganhem a confiança deles, levem-lhes a comida que eu estou a preparar, e vão ver que quando eles perceberem que vocês só querem ser seus amigos, tudo será mais fácil para todos…” Ana tinha razão, mas só muitos dias mais tarde é que o “bando dos quatro” começou a aceitar a intromissão dos “sete” na sua vida. Afinal, eram aqueles miúdos que lhes levavam a comida, a água e o leite. Tila e os amigos foram ganhando a confiança dos gatitos e finalmente confirmaram que os três mais pequenotes eram os filhos daquela que os tinha fitado de bigodes tensos. Era uma gata pequenota, mas bonita. Com um pelo às manchas pretas e brancas e uns olhos cor de avelã, sempre de sentinela. “Vamos chamar-lhe Pintinhas” – alvitrou o Francisco, que logo recebeu a concordância geral.
Assim, aos poucos e poucos, a “Pintinhas” e os seus três filhotes passaram a ser o “ai Jesus” de todos os habitantes da praceta. Dos “sete” e dos mais velhos que os enchiam de mimos e lhe proporcionavam abundantes refeições. A “Pintinhas” e os seus rebentos acabaram mesmo por montar arraial junto às casas da praceta e todos se deliciavam a vê-la fazer gato-sapato dos filhotes, graças a intermináveis brincadeiras que só findavam quando a dona noite mandava o senhor sol descansar. Ao certo ninguém sabia como a família da “Pintinhas” tinha ido ali parar. Mas Tila e Kiko, os seus descobridores, tinham uma teoria: “Pintinhas” e os filhos tinham chegado ali vindos dos céus e trazidos pelo cavalo das sete cores. A Primavera, que às vezes era recheada de gotinhas de água, tinha-se instalado definitivamente. Os dias eram longos e tranquilos. Tão tranquilos que todos se aperceberam da chegada de Zéquita e da sua trupe – uns pardalitos mariachi (1), que logo alvoraçaram a praceta e as suas redondezas e que ali se instalavam, como habitualmente, até ao regresso do velho e enrugado senhor Inverno. Zéquita e a sua trupe não importunaram a “Pintinhas” e os seus filhotes, que cresciam a olhos vistos. Bem pelo contrário: entre uns e outros criou-se mesmo uma evidente cumplicidade. Zéquita e a trupe não paravam de cantar e de fazer grandes bailados que faziam as delícias da “Pintinhas” e dos filhotes. Estava, pois, tudo no melhor dos mundos. As miúdas e os miúdos continuavam a cuidar do bem-estar da bichana e nem a chegada de dois cães, já entradotes, perturbou a vida da mais conhecida habitante da praceta. É certo que a gata pintinhas começou por os olhar de soslaio, mas logo percebeu que vinham em paz e que eles, tal como ela, não tinham família nem casa. As suas fatiotas, ruivas, estavam aparadas e à volta dos pescoços ainda eram visíveis os adereços que justificavam as suas boas maneiras. “Os nossos donos ficaram sem trabalho e nós acabamos por ser postos na rua. Já sabes: são sempre os mais fracos que pagam as favas” revelaram dias depois à “Pintinhas”. Gatos e cães tornaram-se, pois, amigos inseparáveis, faziam grandes passeios pelo bosque verde e partilhavam a água, o leite e a comida. Lá do alto, Zéquita e os seus apreciavam tão cordata relação social.
Um dia, um carro grande surgiu na praceta e do seu interior saltaram quatro homens com ar ameaçador e umas “gaiolas” nas mãos. Gatos e cães correram para o bosque verde e durante vários dias ninguém mais lhes pôs a vista em acima. Afonso, Tila, Kiko, Mariana, Lucas, Ruben e Francisco temeram o pior. Os “sete” bateram o bosque verde de ponta a ponta, mas da “Pintinhas” e dos outros nem rasto. Soube-se, depois, que tinham feito uma longa RGF – Reunião Geral de Família – e feito uma jura: cães e gatos continuariam juntos, livres e cuidariam uns dos outros. – Agora, somos uma família. Não permitiremos que nos separem. A proposta foi do “Charlot” (2), que assim tinha sido baptizado por ser o mais pequeno e franzino e ter junto ao lábio superior um pedacito de pêlo preto que mais parecia um bigode, e recebeu o apoio unânime de todos. De cães e gatos, como é bom de ver. Alguns dias depois, a gata “Pintinhas”, os filhotes e os seus novos parentes voltaram à praceta, mais unidos do que nunca. Os mais velhos aplaudiram o seu regresso e os mais novos ficaram tão felizes, que logo, logo, fizeram transbordar os recipientes de água, leite e comida. Sentado no muro da casa de Ana, Félix, o gatuxo de Afonso, olhava-os com a alegria de quem reencontra os amigos. Zéquita e sus muchachos, continuaram a entoar as suas belas melodias e quando, por via do regresso do Inverno, abalaram para outras paragens, deixaram uma advertência a toda a família da “Pintinhas”: – Amigos, não se esqueçam: juntos são mais fortes.

