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CONTOS & CRÓNICAS -«HAJAS PINHO» . POR Carlos Reni da Silva Melo

 

                     

 Petição do Dr. RONALDO CUNHA LIMA, solicitando liberação de um violão apreendido, em 1985. Esse advogado, anos depois, ocupou vários cargos eletivos, como Prefeito de Campina Grande e Governador da Paraíba. A petição ficou conhecida como “Habeas Pinho” e enfeita muitas paredes de escritórios e bares do Nordeste brasileiro:

 

 

                 “Exmo. Sr. Dr. juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca. 

 O instrumento que se arrola/ Neste processo de contravenção/ Não é faca, revólver ou pistola/ É, simplesmente, um violão/ Um violão, doutor, que, na verdade/ Não feriu nem matou um cidadão./ Feriu, sim, a sensibilidade/ De quem o ouviu vibrar na solidão./ O violão é sempre uma ternura./ Instrumento de amor e de saudade./ Ao crime não se mistura./ Inexiste, entre eles afinidade/ O violão é próprio dos cantores,/ Dos menestréis de alma enternecida/ Que cantam as mágoas e que povoam a vida/ Sufocando suas próprias dores./ Seu viver, como o nosso, é transitório./ Porém, seu destino se perpetua./ Ele nasceu para tocar na rua./ E não para ser arquivo de cartório./ Mande soltá-lo, pelo Amor da noite./ Que se sente vazia em suas horas/ Para que volte a sentir o terno açoite/ De suas cordas leves e sonoras./ Libere o violão, Dr. Juiz,/ Em nome da Justiça e do Direito./ É crime, porventura, o infeliz/ Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?/ Será delito de tão vis horrores/ Perambular na rua um desgraçado/ Derramando, na rua, suas dores?/ É o apelo que aqui lhe dirigimos/ Na certeza de acolhimento./ Juntando esta petição aos autos, nós pedimos/ E pedimos, também, Deferimento.”

 

                     O juiz, Dr. ARTHUR MOURA, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

       

  ” Para que eu não carregue/ Muito remorso no coração/ Determino que seja entregue,/ Ao seu dono, o malfadado violão!”

 

 

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