Petição do Dr. RONALDO CUNHA LIMA, solicitando liberação de um violão apreendido, em 1985. Esse advogado, anos depois, ocupou vários cargos eletivos, como Prefeito de Campina Grande e Governador da Paraíba. A petição ficou conhecida como “Habeas Pinho” e enfeita muitas paredes de escritórios e bares do Nordeste brasileiro:
“Exmo. Sr. Dr. juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca.
O instrumento que se arrola/ Neste processo de contravenção/ Não é faca, revólver ou pistola/ É, simplesmente, um violão/ Um violão, doutor, que, na verdade/ Não feriu nem matou um cidadão./ Feriu, sim, a sensibilidade/ De quem o ouviu vibrar na solidão./ O violão é sempre uma ternura./ Instrumento de amor e de saudade./ Ao crime não se mistura./ Inexiste, entre eles afinidade/ O violão é próprio dos cantores,/ Dos menestréis de alma enternecida/ Que cantam as mágoas e que povoam a vida/ Sufocando suas próprias dores./ Seu viver, como o nosso, é transitório./ Porém, seu destino se perpetua./ Ele nasceu para tocar na rua./ E não para ser arquivo de cartório./ Mande soltá-lo, pelo Amor da noite./ Que se sente vazia em suas horas/ Para que volte a sentir o terno açoite/ De suas cordas leves e sonoras./ Libere o violão, Dr. Juiz,/ Em nome da Justiça e do Direito./ É crime, porventura, o infeliz/ Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?/ Será delito de tão vis horrores/ Perambular na rua um desgraçado/ Derramando, na rua, suas dores?/ É o apelo que aqui lhe dirigimos/ Na certeza de acolhimento./ Juntando esta petição aos autos, nós pedimos/ E pedimos, também, Deferimento.”
O juiz, Dr. ARTHUR MOURA, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:
” Para que eu não carregue/ Muito remorso no coração/ Determino que seja entregue,/ Ao seu dono, o malfadado violão!”
