Há quem considere que desprezar futebol confere a quem adopta essa postura, um atestado de superioridade intelectual. António Simões, o grande jogador de futebol, um dos famosos «magriços» de 1966, bicampeão europeu, dizia há dias numa entrevista televisiva que um dos encantos do futebol está no facto de percorrer transversalmente todo o leque social, segmentos culturais, faixas etárias, ideologias políticas, crenças religiosas…
De facto, o futebol pode colocar em perfeita sintonia ou em antagonismo feroz um adolescente adorador de hip-hop e um melómano amante de Mozart, um militante do PCP e um deputado do CDS, um membro do Opus Dei e um dirigente de uma associação ateísta, um gay e um hétero impenitente. É verdade e o próprio António Simões, sereno, ponderado e culto, contradiz o cliché de que a inteligência dos futebolistas está toda ela concentrada nos pés. Essa, sim, é uma ideia estúpida, um preconceito imbecil. É muito natural que não se goste de futebol ou que se seja indiferente ao mundo conturbado da modalidade. O futebol como ideologia ou como única preocupação mental, isso sim, constitui uma disfunção, um caso patológico a exigir a intervenção de um profissional de saúde mental.
O futebol como ideologia é precisamente o título de um ensaio de Gerhard Vinnai (Estugarda, 1940) psicólogo social alemão que até à sua aposentação em 2005, foi professor na Universidade de Bremen. No prefácio da edição portuguesa – datada de 1976 – Vinnai, incorrendo num lugar-comum, afirmava que Portugal era um país em que «o futebol e Fátima competem ainda no esforço de consolar as massas da miséria da sua vida de todos os dias». De 1976 para cá, a situação alterou-se substancialmente – para melhor numas coisas, para pior noutras – Fátima e o fado (Vinnai esqueceu-se do fado), perderam terreno, mas o futebol que naqueles anos em que a luta política assumiu um papel importante na vida dos cidadãos, perdeu protagonismo, veio depois a recuperar o seu papel cimeiro nas preocupações mais ingentes das multidões de adeptos. Hoje, é um dos mais prósperos negócios do mundo. E dos mais vulneráveis à corrupção, como o atestam os escândalos que, de Zurique a Nova Iorque agitaram o universo futebolístico.
Este editorial serve para explicar por que razão não publicamos posts sobre esse assunto – em vésperas de se iniciar a fase decisiva do campeonato nacional, seria natural que comentássemos; não o fazemos por aquele snobismo que leva qualquer idiota a considerar-se inteligente por não compartilhar a paixão futebolística – Sartre, Sábato, Drummond de Andrade, Vinícius, Lobo Antunes, Cardoso Pires… É muito extensa a lista de intelectuais, adeptos de clubes. O Premio Nobel Camus foi guarda-redes profissional.
Em Portugal o futebol transformou-se na ideologia de muitos milhões de portugueses de Norte a Sul. Além de negócios escuros, coladas ao futebol chegam outras coisas, tais como ancestrais problemas regionalistas. Divide o país em «mouros» e «celtas». Nós temos de tudo – «lampiões», «lagartos», «andrades», «bibaços» e ´«morcões». Somos albuquerques, somos capitães-
Somos argonautas.(a)
a) -Ao Fausto, ao Sérgio Godinho. ao José Mário Branco. a nossa gratidão

