O MAPA (a saga do anadel) – Capítulo I – O Hortelão de palavras
carlosloures
Antelóquio de Frei Vicente de Enxobregas
Olho, como se de um perigoso inimigo se tratasse, o maço de laudas brancas pousado na minha frente antes de começar a desdobrar perante vós os retalhos desta manta que, no seu conjunto, procurará formar uma história – coisas que venho narrar, em estilo de confidência, sem prosápias de literato. Antes de iniciar a tarefa, manda a cortesia que me apresente a vossas mercês, visto que se tiverdes a benevolência de me ler, não tardará muito até que sejamos íntimos. Chamava-me Jacinto de Mateus. Este era o nome que usava na vida secular, que decorreu de forma monótona até ter completado a idade de vinte e oito anos. Nessa altura decidi-me, feitas as contas a um amor puro e ardente, mas com um desenlace funesto, como geralmente acontece com os grandes amores, cuja história, por irrelevante, não quero desvelar nesta crónica, decidi-me, dizia, a abandonar a respeitável, mas, nem por isso mais interessante, profissão de escrivão público e judicial que exerci durante anos e recolhi-me no convento de São Francisco de Enxobregas, onde recebi o nome de irmão Vicente. Frei Vicente de Enxobregas, é como sou conhecido entre os amigos laicos. Troquei o cinzento da vida de escrivão, pelo burel castanho do hábito.
Escolhi este nome em honra do mártir padroeiro de Lisboa e cujo branco casario se desenrola para lá da janela onde colho a dádiva da luz necessária para escrever estas linhas. As minhas primeiras palavras são, pois, votadas a Lisboa. É uma homenagem à minha terra, e uma arteirice de mau cronista, pois enquanto discorro sobre pormenores, vou acumulando ânimo para enfrentar as laudas virgens cuja vista me aterroriza e para me lançar à faina de cronicar mais de cem anos da vida da família. Prometi a mim mesmo refrear a veia palratória e não vos servir já no começo uma dose de minudências, lendas, rumores e coisas sem interesse narrativo, fazendo-vos adormecer antes de lerdes o que tem afinal alguma importância. Vamos à crónica. Mas antes de começar, quero falar um pouco mais sobre Lisboa, cidade que é berço desta história e um dos seus cenários.
Nós, os que cá nascemos, sabemos que a alma da cidade sobrevive na sua luz, no brilho quase tangível que incide sobre as casas e as transforma num amálgama de palpitante carne. O que nada tem a ver com a melancolia que escorre das endechas dolentes que por aí gemem em tavernas e salões, por vezes acompanhando as mesuras e reverências com que se bailam baixas e tordiões. Talvez seja o contrário e essas endechas mais não sejam do que o reflexo, ou a simples sombra da incandescente e prateada luz que banha a cidade. Digamos, para tudo tentar conciliar, que as endechas são a sombra taciturna de uma luminosa deusa jubilatória. Porém, deixemos os devaneios do meu já senescente cérebro e voltemos ao que interessa, à nave chamada Lisboa. No brasão de armas mais antigo que se conhece da cidade, figura um navio com dois corvos, um postado à ré e outro à proa. El-rei D. Manuel ordenou que o brasão passasse a ser um escudo partido, arvorando de um lado as armas reais e, do outro, em cima, um navio. Em baixo, a esfera armilar, simbolizando o guia que tem orientado as nossas navegações. Mais tarde, voltou a ser apenas de um galeão com as vergas em funeral e ladeado por dois corvos, pois um douto arcebispo de Lisboa disse avisadamente: «Temos de tornar Lisboa ao Santo Mártir por padroeiro seu, e por armas a nau, em que o santo lhe foi trazido, com os dois corvos, que vieram seguindo, em memória dos quais perseveraram sempre nesta sé outros semelhantes». Teve nestas palavras razão o arcebispo: e assim voltaram os dois simpáticos corvos a pousar no brasão de armas da nossa cidade.
Outra curiosa lenda sobre Lisboa, se de lenda se trata, é a que nos conta Damião de Góis – sábio e honrado varão que tenho o privilégio e a honra de conhecer em pessoa e de muito estimar e admirar – na sua Descrição da Cidade de Lisboa (Urbis Olisiponis Descriptio), fala-nos sobre tritões e sereias, dizendo que, segundo Plínio em Naturalis Historiæ, tinha sido visto e ouvido em determinada gruta um tritão a cantar com uma concha, apresentando-se com o aspecto tradicionalmente atribuído aos tritões. Diga-se que o aspecto que lhes era conhecido seria o de possuírem escamas espalhadas por quase todo o corpo. Segundo Góis, ainda «nos nossos dias» existem homens-marinhos, habitantes da área litoral, que apresentam esses vestígios da sua antiga raça. As sereias eram também frequentemente avistadas. Refere ainda que nos Antigos Arquivos do Reino, de cuja chefia estava nessa altura o douto Damião encarregado, existia ainda um manuscrito de um contrato celebrado entre el-rei D. Afonso, o terceiro de tal nome, e Paio Peres, mestre da Ordem dos Cavaleiros de São Tiago, segundo o qual se determina o imposto a pagar pela referida Ordem pelas sereias e outras espécies animais pescadas nas suas praias. Daqui, acrescenta Damião, «se deduz obviamente que as sereias eram então frequentes nas nossas águas, visto que sobre elas se promulgou uma lei». De tágides, ninfas do Tejo, nos falaram André de Resende e outros jovens poetas, como esse talentoso Luís Vaz, vate de que tanto agora e mui justamente se fala. Lisboa, era terra de muitos e variados prodígios.
Quanto aos corvos, aves geralmente consideradas de mau agouro, talvez por serem negras, mas que os lisboetas carinhosamente adoptaram e passaram a tratar por «vicentes», podemos vê-los às portas de algumas das muitas tavernas da cidade, crocitando as suas filosofices ou dizendo uma ou outra palavra, inconveniente ou mesmo inocentemente obscena. Quando decorre a nossa história, antes da subida ao trono do venturoso primo e cunhado do príncipe perfeito, as armas da cidade eram ainda, portanto, a nave e os dois corvos. Era, aliás, por ser tempo de navegações, época muito dada à simbologia de barcas, galeões e naus. Não esqueçamos que, por estes anos, em finais da era de Quatrocentos, o erudito Sebastian Brant, natural de Estrasburgo, escrevia o longo poema satírico A Nave dos Loucos (Das Narrenschiff, que, na edição em latim, aparecida anos depois, se chamava Stultifera Navis). Havemos de voltar a este tema.
É na barca chamada Lisboa que começa a nossa narrativa. Prometo, para já, não regressar aos santos, a loucos, corvos, sereias, tágides e tritões, pois sobre essas matérias estamos, de momento, conversados. A nossa história fala de interesses, paixões e impulsos bem pouco pertencentes ao território da magia e da santidade e bem mais ligados aos áridos desertos da maldade, da intriga e, porque não dizê-lo, por vezes também às mansas planícies do amor e dos impulsos generosos, paisagens que, embora escassas, caracterizam igualmente a espécie humana. Uma boa parte daquilo que ides ler, se para tal vos chegar a paciência, baseia-se em textos deixados por meu bisavô Simão, copista do Real Arquivo do Tombo, pelo meu avô Lopo, que começou a profissão de copista e calígrafo, tendo depois optado pela de emérito desenhador de portulanos e cartas de marear, e pelas histórias que meu pai, Lourenço, anadel do alcaide-mor de Lisboa, me contou em saborosos serões da nossa velha casa de Alfama. Menos dado à escrita do que os seus antecessores, muitas vezes me narrou, com colorida emoção, as suas aventuras, sobretudo as que viveu em Veneza durante o tribulado assunto do mapa secreto. Deixou-me, no entanto, alguns documentos que foram úteis no encadear dos acontecimentos (como cópias das cartas e relatórios do legado e espião veneziano, Francesco Dandolo, bem como informes do espia castelhano). Regista ainda a memória do meu trisavô Bartolomeu, conhecido na família por «o almogárave» e que, não sabendo ler nem escrever, nunca se coibia de repetir memórias dos tormentosos tempos das guerras com Castela. Eis como uma família sem empáfias de nobreza, logra manter historiado, sem interrupções de monta, o fio da sua vida ao longo de quase cento e cinquenta anos, desde o reinado do mestre de Avis, até agora, ao alvor daquilo a que chamam a Idade Nova.
O gosto pela leitura e pela escrita, salvou os varões da minha modesta família de perder a sua história. Do meu trisavô, o almogárave, até mim, tabelião com banca junto do largo do Pelourinho, acotovelando-me com colegas e corretores de mercadorias, vem um caudal de pequenos episódios, de errâncias e de imobilidades, de glórias e lazeiras, que são também um pouco da história do nosso Reino. Quando, perante os montes de papéis deixados por meu bisavô e por meu avô e as notas e apontamentos que fui tomando nas conversas com meu pai, me aventurei a escrever esta narração, para que a verdade não fique para todo o sempre sepultada na minha cabeça, em cujos muitos e nebulosos corredores tantas ideias se perdem e transviam, mudando, por vezes, subitamente de rumo ou caindo em traiçoeiros alçapões que, sob os trôpegos pés do meu pensamento, sem aviso se abrem, quando meti mãos a esta tarefa, vi logo que me estava a meter num grande sarilho. Porque entre os apontamentos do calígrafo, as notas do debuxante de mapas – onde, nuns e noutras, de quando em vez, irrompia a figura incandescente do almogárave – relendo o registo sobre as conversas com o anadel do alcaide-mor de Lisboa, os relatórios dos espias, o frade se viu perante um molho de retalhos que era preciso transformar, como já vos disse, numa manta sob a qual se abrigasse do frio da mentira, se não toda, pelo menos alguma verdade. Entre cada um dos textos que meu bisavô e meu avô me legaram, escritos nas suas bem desenhadas letras, e cada uma das seroais narrativas de meu pai por mim anotadas, havia lapsos, um ou outro hiato, que tive de colmatar com leituras, com a consulta de mestres que foram tornando públicas as suas descobertas.
Em alguns casos – porque não confessá-lo – recorri mesmo às douradas linhas da imaginação para cerzir estes pedaços da história que me propus contar. Farei, por certo, muitas vezes a figura de profeta do dia seguinte, pois incluo aqui em eras de alguma escuridão – e, de certo modo, todas o são! – Luzes que chegaram depois, trocando assim a ordem aos tempos. Mas vamos, então, à história.
Ah! Só mais uma nota – quando peço a palavra nas reuniões em que debatemos alguma questão, logo se agitam, qual seara batida pelo vento, as tonsuradas cabeças dos irmãos e um vendaval de murmúrios se levanta. Mais jovens do que eu, quase todos, dizem, para me tentar comprar, que possuo um elevado poder de oratória e, como poucos, o condão de, logo na primeira frase, sintetizar tudo o que em seguida exponho e desenvolvo, quanto a eles, com demasiadas e demoradas minúcias. O que eles querem, bem eu sei: que me fique pela primeira frase e os dispense da arenga que com que sempre os fustigo em seguida. Por isso me gabam a primeira frase, com a esperança de que ela dita, logo me cale. Nunca lhes faço a vontade – cansado de semanas de silêncio, falo, falo, até a voz me falecer e ver que a maioria dos irmãos já adormeceu. Mas não vos vou molestar mais com este prólogo, para mais a vós que não sois frades da minha ordem. Se quiserdes, passai este antelóquio adiante. Não me ofenderei. Porém, vou já terminá-lo, pois não vá, como já tantas vezes me aconteceu noutras edificações oratórias, ficar maior o pórtico do que a catedral.