O MAPA (A SAGA DO ANADEL)-no hospício de São Jorge/28 -por Carlos Loures
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Hospício de São Jorge, madrugada de quarta-feira, 26 de Junho de 1487.
Acordou, algumas horas depois, no Hospício de São Jorge, na rua da Betesga, com dores por todo o corpo, com a cabeça ligada e guardado à vista por um antipático beleguim, se é que em alguma parte ou tempo os há ou houve amáveis. Para compensar esse feio aspecto da paisagem, um frade franciscano, que depois soube chamar-se irmão Camilo, estava sentado à sua cabeceira. E foi ele, ao ver Lourenço despertar do prolongado desmaio, quem lhe disse onde estava e o que lhe acontecera. Entrara, na noite anterior, com uma extensa ferida na cabeça, sangrando abundantemente, no Hospital dos Homens e Banho, na Judiaria Grande, ali perto da Igreja da Conceição Velha. Lisboa contava na época com numerosos hospícios, mais de quarenta, todos eles pequenos e pagos por corporações, destinados exclusivamente aos seus membros, como por exemplo, o Hospital a Cata-que-Farás, provido pelos pescadores, outros pertença dos correeiros, odreiros, pedreiros, corretores, jornaleiros, tecelões, tanoeiros, curtidores e vendedores de peles… Havia-os também para doentes incuráveis, tal como o de Sant’Ana e o de Nossa Senhora das Virtudes. Havia o de Nossa Senhora dos Remédios, reservado a mulheres pobres e outros destinados a meninos órfãos ou enjeitados. Mas não havia nenhum que fosse para o pessoal da alcaidaria. Por isso o levaram, inanimado e em braços, como lhe contou o frade, um dos ébrios com quem questionara, ajudado pelo mestre Jacob, por sua mulher Ana e pela bela Débora, até ao hospital judaico, situado na Judiaria Grande, onde funcionava também um estabelecimento de banhos, o chamado Balneário. Era o mais próximo da locanda. Os outros quatro, ocuparam-se do conde que, segundo parece, estava bastante mal.
Um competente físico hebraico cosera-lhe a ferida, desinfectando-a depois com óleo de cânfora e água de alfazema. Porém, sendo o paciente um gentio, recebidos os primeiros cuidados, teve de ser transferido para o Hospital de São Jorge que também não ficava longe, embora este fosse pertença das corporações de armeiros, caldeireiros e barbeiros. Estava livre de perigo, afiançou o sorridente monge. Das primeiras coisas que avistou ao abrir os olhos, além do rosto bondoso do frade boticário que lhe esfregava a fronte com uma pomada olorosa a sândalo, provocando uma onda de frescura sobre a testa ainda demasiado quente e dorida foi, pois, o enorme e carrancudo beleguim que, quando o viu acordar, rosnou algo incompreensível. Porém, para compensar a visão do beleguim, além do franciscano, colocado sobre um escano, à sua direita, junto do leito, viu um cesto com fruta, grandes laranjas e vermelhas maçãs. Fora, disse-lhe o franciscano, enviado por Samuel Levi, em sinal de gratidão pela luta que travou em defesa de Débora. Havia ali outros mimos enviados por sua mãe e por sua tia Beatriz, doces, bolos, pão fresco de centeio.Estivera também a saber dele um tal Simão Fernandes que, com os judeus, o levara ao hospital judaico. Mas não pudera entrar, pois por ordens superiores, não estavam autorizadas as visitas. O beleguim que escutava o que o frade dizia, cruzou os braços, como se sublinhasse a expressão «por ordens superiores».
Com a ajuda do irmão Camilo, conseguiu soerguer-se no leito, custando-lhe o esforço uma guinada no local onde fora ferido. Não tinha a mínima sensação de fome, mas a beleza dos frutos – que lhe recordava a grande beleza da esmoler – pedia que se lhes tocasse. Estendeu a mão. Sob uma bem polida maçã, descobriu uma cartela escrita pela judia. Era uma mensagem simples onde lhe desejava mui rápidas melhoras e agradecia o risco e o grande incómodo e sofrimento causado por ela. Na última linha, duas palavras mágicas: Débora Levi. As dores de cabeça de Lourenço logo pareceram suavizar-se. Efeito da fresca pomada de sândalo? Ou a recordação da linda judia?