CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – SACANAGEM
joaompmachado
Soube há dias que a importante Escola Secundária de Carcavelos é capaz de não reabrir em Janeiro próximo, porque o denominado “Parque Escolar” deixou abandalhar as suas estruturas até ao limite do impossível – chuva, calor, frio, falta de luz, perigo de derrocadas, etc., não permitem eficácia (nem dignidade já agora – expressão em queda acentuada e cada vez mais em desuso neste pobre país) e portanto nem alunos nem professores estão para aturar mais aquilo.
O Parque Escolar é uma “pessoa colectiva de natureza empresarial“, algo que pressupõe o bom estado e a exequibilidade de um instituto escolar.
Eu adoro, como sabem, estas definições, estes eufemismos. Pessoa colectiva! Natureza empresarial!
São mesmo queridos. Ou seja, pressupõem também a mesma identidade, o mesmo à vontade, o mesmo raciocínio e abandalhamento das empresas, de todas as empresas que se cagam na (já tão) falhada e visceral exigência branda e tão própria dos nossos usos e costumes empresariais.
A Escola paga, portanto, a uma empresa (adoro empresas que tratam destas coisas!) alguns 500.000 euros por ano por uma sua manutenção e o resultado é isto, este estado de coisas – ainda por cima com os fsdp das direitas a embandeirarem em arco, eles que destruiram ou tentaram destruir a escola pública por inteiro, grandes sarnosos – e pelos visto nada lhe acontece.
Não há luz, não há janelas, não tem nada senão perigos e misérias impossíveis de imaginar numa importante escola pública e “o caso vai ser estudado” e “apurar-se-ão responsabilidades”, etc., aquelas coisas do costume, para com estes fraudulentos do costume, que já são também uma instituição. Do costume.
Se acaso fossem condenados a uns trinta anos de cadeia (eu sou contra a pena de morte, infelizmente) o que nem é muito, diga-se de passagem, era capaz de ser uma coisa razoavelmente justa. Ele há empresários (e eu adoro empresários) que devem aos trabalhadores milhões de euros de ordenados, de subsídios, de pagamentos vários – e ainda por cima devem ao fisco e nada lhes acontece de maior. A sua única preocupação, coitados, é se os trabalhadores chegarem um dia ao ordenado mínimo de 600 euros, aqui del-rei, uma fortuna (e mal empregada) como se sabe. Alguns quarenta anos de pildra (eu sou contra a pena de morte, infelizmente) um julgamento sumário, fácil, prático e eficaz era capaz de fazer hesitar os fsdp em perspectiva ou em fila, mas tal não me parece vir a acontecer para breve, nem pouco mais ou menos.
Não há rapazes maus? – são aquelas frases sem sentido nem consequência, sempre eivadas de boa vontade e pureza cristã – então está bem, também não haverá empresários maus, uns mais melhorzecos, outros menos, outros mais fsdp e assim.
Mas… e regras? E leis a cumprir – independentemente das “maldades” de alguns ou das boas intenções de outros, não haverá?
Poizé. Ele as há, mas são brandas, com julgamentos susceptíveis de adiamentos, com penas prestes a serem suspensas, prontas a caducar e a ajudar ao esquecimento deste povo de fraca memória e cultura política.
Puta, portanto, que os pariu (aos poderes) que nada têm nunca a ver connosco, pessoas, povo, professores, alunos – trabalhadores no dizer da canhota ortodoxia usual – e cujas discutíveis e indefinidas leis são por eles próprios engendradas em gabinetes advogáveis, esconsos e perdidos por avenidas e transversais da city ou das avenidas novas ou por entre discretos almoços e conivências várias entre as partes.