O caso ‘Isabel dos Santos’ é paradigmático. Revela claramente que nada hoje no jornalismo é feito ao acaso. E que o jornalismo comprometido com o respectivo Código Deontológico é coisa do passado, quando a Corrupção ainda não era Global como hoje é. Cada vez mais. O Poder financeiro global é hoje um polvo com inúmeros tentáculos, conhecidos, uns, desconhecidos, o maior número, todos mortíferos. A fidelidade aos factos reais que é a verdade do jornalismo, em vez de aos interesses das pequenas ou grandes Corporações económico-financeiras, é hoje uma miragem. Só mesmo um olhar romântico e saudosista sobre a profissão-missão do jornalista nos leva a admitir que hoje ainda haja grandes media fiáveis. Não há. De modo que o mais sensato é vivermos em permanente estado de alerta. E nunca embarcar em tudo o que nos é dito e mostrado.
O cada vez mais badalado Consórcio Internacional dos Jornalistas (ICIJ) foi fundado já em 1977 por um jornalista americano. Mas só muito recentemente começou a dar nas vistas. Integra mais de 190 jornalistas no activo. A laborar em empresas que não administram, todas propriedade de grandes grupos económico-financeiros. Os próprios órgãos de Direcção desses grandes media gozam de independência, mas só a que a Administração lhes proporciona. A liberdade de informar é mais miragem do que realidade. O processo para chegarmos a este desgraçado estado de coisas foi rápido. Bastou concentrar nas mãos de poderosos grupos financeiros os títulos existentes em Portugal e no mundo, aos quais foi dada carta branca pelos Governos de cada Estado das nações. Este foi o primeiro passo. Sem qualquer possibilidade de retorno.
No tempo das ditaduras de Estado, as coisas eram más, mas transparentes. Sabíamos que cada título era ‘Visado pela Comissão de Censura’. Os profissionais que persistiam fiéis à realidade dos factos tinham de ser suficientemente argutos para fintar os ‘Censores do Estado’. A missão era arriscada e só para os mais audazes. E toda a Redacção festejava cada notícia que fugia ao ‘lápis azul’ do ‘Censor’. A cooperação profissional desconhecia de todo a actual e vergonhosa competição. Os mais destemidos eram olhados como exemplo e como estímulo.
Sou jornalista de um tempo assim. E posso testemunhar que a missão de alto risco, que é a minha de presítero, adquiriu uma enorme mais valia, quando, liberto de quaisquer ofícios canónicos pelo próprio bispo da Diocese, sou abordado e contratado pelo vespertino República, de Lisboa, cuja delegação no Porto venho logo a assumir, quando, poucos meses depois, me é concedida a Carteira Profissional. Graças à profissão secular, a minha matricial missão presbiteral deixou de estar confinada a um pequeno território, para se alargar a todo o país. E, com a chegada da internet, até a todo o mundo.
Não integro, nunca integrei, nunca integrarei o ICIJ. Nunca aceitaria integrá-lo. Basta-me saber que a sua origem é norte-americana. Não ponho em dúvida as boas intenções do jornalista norte-americano que o fundou. Mas da maior potência finnanceira e armada mundial pode alguma vez sair coisa boa que não seja, de imediato, cercada por todos os lados, supervigiada, ameaçada, perseguida, torturada excluída e assassinada, de modo incruento que seja?! Ora, o que é público e notório é que esta exclusão não só não aconteceu ao fundador do ICIJ, como, pelo contrário, são hoje muitas as fundações norte-americanas que a subvencionam, para lá de uma grande empresa australiana.
Obviamente, não ponho as mãos no fogo pela empresária Isabel dos Santos, de Angola, antiga colónia de Portugal, cujo subsolo é rico em petróleo e diamantes, por isso, cobiçado pelos grandes abutres financeiros do mundo que não olham a meios para obterem seus fins. Mas não tenho dúvidas de que ela foi selectivamente escolhida para ser ‘crucificada’, nesta altura, de modo que outros negócios com montantes muito mais obscenos escapem ao radar do Consórcio Internacional dos Jornalistas, porventura, os mais ingénuos dos profissionais do ramo. Onde se incluem dois títulos da Impresa, do poderoso Pinto Balsemão, o jornal EXPRESSO e a SIC!
P. S.
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