CARTA DE BRAGA – “entre o oito e o oitenta” por António Oliveira
clara castilho
«A vida de um ‘eu’ é difícil sem um ‘tu’» disse-me muitas vezes um amigo velho, bem velho, mãos e pele tisnadas e marcadas pelas agruras da vida, os últimos anos já sem ter ao lado a companheira de toda uma vida, ‘conhecemo-nos na escola, ainda de tamancos!’
Sabia estórias da história, contava-a à sua maneira, ainda conseguia fazer jeropiga como poucos, não perdia um magusto, mas quando a maioria dos seus amigos abalou, passou a esperar, com não pouca ansiedade, o aparecimento do ‘homem das castanhas’.
Antes de começar a contar as suas estórias, sacava um ‘ponta e mola’ da algibeira de trás das calças e tratava de afagar um pedaço qualquer de madeira que tivesse à mão, nem que tivesse andado um ror de tempo à procura dele.
‘Não é capaz de ficar um bocado sem mexer nessa coisa?’ perguntei-lhe algumas vezes.
‘Um homem precisa de ter uma qualquer ferramenta à mão, para não vir a ser mandado por elas, que vai ser o caminho de tudo disto!’
‘Como é que sabe?’
‘As maquinetas sempre mudaram a vida do homem e agora já só se fala em … como é?
‘Computadores!’
‘Isso que, pelo que já ouvi dizer, que essas coisas eu não discuto, lhe podem vir a tirar o lugar!’
‘Não será bem assim, eles não conseguem pensar nem decidir sozinhos!’
‘Mas hás de ver, pois já cá não estarei, que vamos perder muita da nossa liberdade, nem que seja só de pensar! Alguém vai querer pensar por nós para as fazer e adeus convivência e outras coisas mais, talvez para muito pior!’
Fiquei calado, admirado pelo discurso, mas ele estava ‘destravado’ e não parou, atirou mais umas cavacas para a fogueira, falando de uma coisa aberta aos olhos de todos.
‘Tu acreditas que, se tirassem o telemóvel a toda a gente que não é capaz de dar dois passos sem ele, para perguntar aos amigos se está a ir bem, não haveria uma revolução logo a seguir?’
‘Bem…’
‘Nem tu és capaz de responder e sabes porquê?’
…/…
‘Porque toda esta tecnologia só criou solidão e as pessoas tentam arranjar amigos onde quer que seja, mesmo sem nunca os verem, por estarem tão sozinhos como eles! E é por isso que abro sempre o meu afiador de madeira!’
‘O que tem essa coisa a ver coma a outra?’
‘Quando ajeito um bocado de madeira, uso o meu espírito, a minha vontade e ainda a minha imaginação, o canivete só me oferece a sua utilidade! O telemóvel nega-me todas esta possibilidades. A indústria, as indústrias, é que determinam o que tenho de fazer, isto pelo que tenho ouvido dizer!’
Calei-me! Continuei sem saber o que lhe poderia responder!
Rematou depois, toda esta conversa, que tentei transpor para aqui com a fidelidade possível e que recordo amiúde, até por já ter abalado também, se calhar à procura da companheira de toda a vida.
‘Um canivete, um martelo, um buril, até uma serra ou uma vassoura, pode juntar pessoas por não haver nenhuma indústria atrás deles, a comandar e a determinar as normas do uso. Qualquer um deles pode ser a base de um convívio animado e imaginativo. Estamos a perder tudo isto, por tê-los abandonado pelos mecanismos novos. E não te esqueças que juntar pessoas em volta de um aparelho, depende apenas de qualquer o poder usar, para o fim que quiser, com regras abertas a todos, mais as do bom senso e da imaginação, livre e única’.
E esta frase fez-me evocar Giorgio Agamben, o prestigiado filósofo italiano, por ter deixado escrito ‘A espécie de cada coisa é a sua visibilidade, a sua pura inteligibilidade. Mas especial é o ser que coincide o seu tornar-se visível, com a sua revelação’.
Que distância entre um telemóvel nas mãos de um solitário e a utilidade e de um canivete nas mãos de um homem despojado e simples!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor