O PODER DO MAIS FRACO
a propósito de Michael Kohlhaas de Heinrich von Kleist e do espectáculo rebelde da Companhia Cegada
excerto da dramaturgia de Marta Dias (enviada em anexo)
Num país destes…
Em Julho de 1997, estreou no Espaço Ginjal um texto de Jorge Silva Melo intitulado Num país onde não querem defender os meus direitos, eu não quero viver. O subtítulo esclarece: a partir de “Michael Kohlhaas” de Heinrich von Kleist. Interpretado por Paulo Claro, com luz de Pedro Domingos, assistência de João Meireles, Isabel Boavida e José Rui Silva e produção de Pedro Caldas, Helena Barros e Ivone Costa, este espectáculo circulou pelo país nos anos seguintes, sendo apresentado no Espaço A Capital em Fevereiro de 2000. Em Maio de 2011, num país endividado e sufocado pela troika, Jorge Silva Melo deu ele próprio voz a este mesmo texto no formato de leitura encenada, evidenciando, à época, a sua lamentável actualidade. Dez anos depois, não é obviamente um acaso que Rui Dionísio decida recuperar Num país onde não querem defender os meus direitos, eu não quero viver e programá-lo no Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, no dealbar da publicação dos polémicos resultados dos Programas de Apoio Sustentado da Direcção-Geral das Artes.
A Companhia de Teatro Cegada estreia a sua versão deste texto, em Março de 2023, com uma verve que talvez nunca antes tenha empenhado na produção de outro espectáculo.
Já está mais do que gasta a conversa do sub-financiamento crónico das artes, em especial das artes performativas. A gestão do Orçamento de Estado, em todas as áreas fundamentais, padece do mesmo mal: ausência de comprometimento político, aliada aos eternamente nomeados e jamais corrigidos “problemas estruturais”. Tragicamente, somos levados a concluir que os nossos direitos não são defendidos por aqueles em quem votámos e delegámos o nosso poder.
Em suma: a injustiça grassa pelo nosso país.
Mas o espectro de Michael Kohlhaas, o rebelde, reúne os descontentes que ainda sabem quais são as causas pelas quais vale a pena lutar.
Num tempo em que parece mais fácil do que nunca esvaziar o balão da indignação e calar as vítimas de injustiça, obliterando quaisquer responsáveis políticos de decisões políticas, num tempo em que o pacifismo parece ter higienizado as possibilidades mais veementes de manifestação e a militância (a não ser em defesa do ambiente) soa a compromisso troglodita, urge encontrar as formas de luta que conseguirão sobreviver ao cinismo e à violência silenciadora estatal, tanto quanto às forças opositoras oportunistas. Urge persistir e encontrar essas formas de luta que se façam ver, ouvir e entender por todos e cumpram a sua razão de ser: a transformação da sociedade em que vivemos.
As artes congregam esse poder de cultivar a consciência, semeando e instigando a mudança. Tem sido esse o percurso da Companhia Cegada Grupo de Teatro, desde 1986 e em particular desde 2004, quando se estabeleceu no TEIV e espraiou as suas raízes um pouco por toda a comunidade de Alverca do Ribatejo. Tornou-se uma força motriz cultural na região e, recusando-se deixar-se vencer pela inépcia governativa, reclama ainda para si esta missão imperiosa.
Num país onde não querem defender os meus direitos, eu não quero viver é, portanto, um título reiterativo: esta que se espera que não seja a última produção da companhia dá corpo e voz a uma revolta profunda. No entanto, é também um acto de resistência. A forma como foi concebido este espectáculo, a paixão que exigiu para produzir e a coragem que convoca no momento da apresentação: todo o trabalho tem sido alimentado por uma esperança de justiça e por uma vontade de fazer a diferença, à semelhança de Michael Kohlhaas.
Que a todos os espectadores sirva de inspiração transgressora, para exigir o respeito pelos nossos direitos enquanto cidadãos livres, lutando pelo país onde queremos viver.
O soberano, cuja função principal consiste em proteger o corpo social das ameaças externas, habita sempre na administração dos conflitos que correm o risco de quebrar os frágeis laços contratuais que separam a ordem civil do regresso ao estado de natureza.[1]
[1]SOROMENHO-MARQUES, Viriato. A era da Cidadania, col. Biblioteca Universitária. Lisboa: Publicações Europa-América, 1995. p.65.

