Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Nota de editor:
Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
14 min de leitura
Parte A: Texto 20 – Sraffa e a reabilitação da economia clássica (2/2)
Em Junho de 1961 (ver aqui)
Este artigo baseia-se numa conferência proferida no University College of North Wales, Bangor, em 21 de novembro de 1960. Deve muito às críticas de Maurice Dobb e John Eaton, que, no entanto, não devem ser responsabilizados por quaisquer erros que permaneçam – RM
(conclusão)
Sraffa, tal como os seus antecessores clássicos, debruça-se agora sobre a natureza e as causas destas “modificações”. A explicação de Sraffa sobre a razão básica para o aparecimento das “modificações” é substancialmente a mesma que a de Ricardo e Marx. “A chave para o movimento dos preços relativos na sequência de uma alteração do salário”, escreve Sraffa, “reside na desigualdade das proporções em que o trabalho e os meios de produção são empregues nas diferentes indústrias [22]“. É útil, penso eu, começar por explicar este ponto nos termos de Ricardo. Suponhamos que temos uma economia que consiste em três indústrias distintas, A, B e C, em cada uma das quais as proporções em que o trabalho e os meios de produção são combinados são diferentes. Por outras palavras, o rácio entre a massa salarial e o valor dos meios de produção utilizados é diferente em cada indústria. Uma tal economia poderia ser a seguinte:
Os salários, começamos por supor, absorvem a totalidade do produto líquido, sendo os lucros nulos. Nestas circunstâncias, o preço do produto acabado será, em cada caso, 1000, como indicado no quadro.
Suponhamos agora que uma classe de capitalistas chega à cena e participa no produto líquido juntamente com o trabalho. Os salários, suponhamos, baixam para metade e, em consequência, os lucros sobem de zero para um nível que permite uma taxa média de, digamos, 25 por cento sobre o valor dos meios de produção. (Deixamos de lado, de momento, a importante questão de saber até que ponto os lucros irão de facto aumentar em resultado desta redução salarial específica: assumimos simplesmente que irão aumentar de zero para um valor arbitrariamente escolhido de 25 por cento). O preço de cada mercadoria será agora constituído pelo valor dos meios de produção utilizados (que supomos, de momento, permanecer no seu nível original), mais a massa salarial (agora reduzida a metade em cada caso), mais o lucro de 25 por cento sobre o valor dos meios de produção.
A situação será então a seguinte:
É evidente que, nestas circunstâncias, os preços das três mercadorias teriam de mudar em relação aos seus níveis iniciais. Se o preço do produto da indústria A se mantivesse em 1000, essa indústria apresentaria uma espécie de “défice”: não poderia pagar os salários à taxa dada e, ao mesmo tempo, receber lucros à taxa dada sobre os seus meios de produção. Do mesmo modo, se os preços dos produtos dos ramos B e C se mantivessem a 1000, estes ramos apresentariam uma espécie de “excedente”: obteriam receitas mais do que suficientes para pagar os salários à taxa dada e para obter lucros à taxa dada sobre os seus meios de produção. Por conseguinte, os preços teriam claramente de se alterar para os níveis indicados no segundo quadro supra. Os preços relativos das três mercadorias alterar-se-iam neste caso, quando o salário mudasse, simplesmente porque as proporções em que a mão-de-obra e os meios de produção estão combinados nas três indústrias são diferentes. Se essas proporções fossem as mesmas em cada caso, é fácil mostrar que os preços relativos não se alterariam de todo em relação ao seu nível anterior [23].
Ora, com base neste exemplo, parece que podemos estabelecer uma regra geral simples sobre o que acontece aos preços quando os salários baixam. Não poderíamos dizer que o preço do produto de uma indústria com uma proporção relativamente baixa de mão-de-obra em relação aos meios de produção, como a indústria A no nosso exemplo, aumentaria quando os salários baixassem; e que o preço do produto de uma indústria com uma proporção relativamente alta de mão-de-obra em relação aos meios de produção, como as indústrias B e C no nosso exemplo, baixaria quando os salários baixassem? Isto é, de facto, o que Ricardo disse. Mas, de facto, não tem de ser necessariamente assim. No nosso exemplo parece, sem dúvida, que o preço do produto da indústria B, por exemplo, está obrigado a baixar. Mas, até agora, assumimos, como Ricardo fazia habitualmente, que o valor dos meios de produção empregues na indústria B permanece o mesmo que inicialmente – isto é, 600 – apesar da descida dos salários. Mas suponhamos que estes meios de produção empregues na indústria B eram eles próprios produzidos por uma indústria como a A no nosso exemplo, onde a proporção de trabalho em relação aos meios de produção é relativamente baixa. O preço dos meios de produção empregues em B aumentaria então quando os salários baixassem, de modo que o preço do produto da indústria B, em vez de baixar, como no nosso exemplo, poderia efetivamente subir. Assim, os movimentos nos preços relativos de quaisquer dois produtos, consequentes a uma mudança nos salários, passam a depender, como diz Sraffa, “não apenas das “proporções” de trabalho para os meios de produção pelos quais são respetivamente produzidos, mas também das “proporções” pelas quais esses meios foram produzidos, e também das “proporções” pelas quais os meios de produção desses meios de produção foram produzidos, e assim por diante [24]’“.
Ora, poderíamos imaginar que existia uma indústria que representasse uma espécie de “fronteira” entre as indústrias “deficitárias” e “excedentárias” que acabámos de distinguir. Numa tal indústria, como diz Sraffa, “o produto da redução salarial forneceria exatamente o necessário para o pagamento dos lucros à taxa geral [25]’.
Suponhamos, por exemplo, que existia uma indústria que empregava mão-de-obra e meios de produção numa proporção tal que, com base nos preços iniciais dos meios de produção, o produto da redução salarial proporcionava exatamente o montante necessário para pagar os lucros à taxa média – em vez de algo menos, como na nossa indústria A, ou algo mais, como nas nossas indústrias B e C. Suponhamos ainda – e este é o ponto vital – que os meios de produção que esta indústria empregava eram eles próprios produzidos por mão-de-obra e meios de produção na mesma proporção, e assim sucessivamente. Não haveria nada nas condições de produção de tal indústria que fizesse o seu produto aumentar ou diminuir de valor relativamente a qualquer outra mercadoria quando os salários aumentassem ou diminuíssem. E o valor de tal mercadoria em relação ao valor dos seus próprios meios de produção não poderia mudar, uma vez que as mesmas “proporções” se aplicariam, por hipótese, no caso desses meios de produção, dos seus meios de produção, e assim por diante, ao longo da cadeia. Assim, uma forma de exprimir a qualidade de “invariância” que o produto desta indústria de fronteira possuiria é dizer que a relação entre o valor do produto líquido da indústria e o valor dos seus meios de produção permaneceria sempre a mesma, independentemente da variação do salário [26]. E é fácil demonstrar que este rácio deve ser igual à taxa média de lucro que prevaleceria no conjunto da economia se os salários fossem zero, a taxa máxima de lucro como lhe chama Sraffa. Sraffa utiliza o termo “R” para se referir tanto ao rácio entre o valor do produto líquido do sector limítrofe (fronteira) e o valor dos seus meios de produção, como à “taxa máxima de lucro”. Assim, temos:
Tendo estabelecido de uma forma geral a condição básica de uma indústria “invariante”, Sraffa pergunta agora se é possível encontrar uma indústria que satisfaça esta condição. É provável que nenhuma indústria atual na economia preencha os requisitos; mas, argumenta Sraffa, uma mistura de indústrias, ou de partes de indústrias, serviria igualmente bem. A sua tarefa seguinte é, portanto, mostrar que é de facto possível extrair, de qualquer economia real, uma espécie de indústria composta em que a relação entre o produto líquido e os meios de produção permanecerá invariável face a qualquer alteração do salário. Vejamos um exemplo simples da operação de destilação que Sraffa efetua para obter uma indústria composta que satisfaça esta condição de base. Tomemos a economia cujas condições de produção, em termos físicos, são as seguintes:
O produto líquido desta economia consiste em 10 toneladas de ferro e 75 quartos de trigo. Agora, suponhamos que separamos dois terços da indústria do trigo e metade da indústria do ferro, e tratamos as duas frações resultantes destas indústrias como constituindo, em conjunto, uma espécie de indústria composta [27].
As condições de produção desta indústria mista seriam as seguintes:
Identifiquemos agora o rácio crucial entre o produto líquido e os meios de produção nesta indústria composta. O produto líquido consiste em 4 toneladas de ferro mais 100 quartas de trigo; e os meios de produção consistem em 16 toneladas de ferro mais 400 quartos de trigo. Assim, o rácio é,
O numerador e o denominador deste rácio, como se verá, são constituídos por quantidades das mesmas mercadorias combinadas nas mesmas proporções, o que significa que podemos falar de um rácio entre os dois conjuntos de mercadorias sem necessidade de os reduzir à medida comum do preço. O rácio é, naturalmente, de um quarto. E é evidente que este rácio permaneceria o mesmo, quaisquer que fossem os preços das duas mercadorias. O rácio entre os dois conjuntos de mercadorias em termos de preços seria sempre o mesmo que em termos físicos – um quarto. Por outras palavras, mesmo que os salários se alterassem e os preços se modificassem subsequentemente, o rácio entre o valor do produto líquido desta indústria composta ou “padrão” e o valor dos seus meios de produção manter-se-ia necessariamente inalterada. Assim, esta indústria preencheria a condição básica de invariância que já estabelecemos.
Por que magia subtil foi obtido este resultado surpreendente? Este resultado é obtido porque as frações que selecionámos como multiplicadores foram astutamente escolhidas de modo que, no sistema de escala reduzida, as proporções em que as duas mercadorias são produzidas (20: 500) sejam as mesmas que aquelas em que entram nos meios de produção agregados (16: 400). É apenas porque as frações multiplicadoras que escolhemos eram de molde a produzir um sistema de escala reduzida que possui esta propriedade particular que o numerador e o denominador do rácio entre o produto líquido e os meios de produção passaram a consistir em quantidades das mesmas mercadorias combinadas nas mesmas proporções, de modo que o rácio permanece necessariamente invariável às variações de preço. Sraffa mostra agora, de forma muito elegante, que existe sempre um conjunto de multiplicadores, e nunca mais do que um conjunto, que, quando aplicado aos sectores de qualquer economia real, os reorganiza nas proporções “corretas”.
Vejamos agora o que acontece à taxa de lucro no sector composto ou “padrão” quando o salário varia. Se escrevermos R (como anteriormente) para o rácio entre o produto líquido e os meios de produção, r para a taxa de lucro e w para a proporção do produto líquido destinada aos salários, a relação entre salários e lucros na indústria “padrão” pode ser expressa sob a forma da seguinte relação simples
r= R (1-W)
Tomemos como exemplo a indústria “padrão” que acabámos de considerar, em que R=1/4. Suponhamos que três quartos do produto líquido (ou seja, 3 t. de ferro + 75 qr. de trigo) foram para os salários, de modo que o quarto restante (ou seja, 1 t. de ferro + 25 qr. de trigo) foi para os lucros. A taxa de lucro seria então de:
E esta taxa de lucro de 1 / 16, ou 6,25 por cento, é claramente dada pela expressão r=R(l-w), onde R=1/4 e w=3/4. O que esta expressão diz, essencialmente, é que a taxa de lucro no setor “padrão” aumenta em proporção direta à dedução total feita ao salário, dependendo a extensão do aumento do valor de R.
Agora chegamos à fase final deste argumento altamente engenhoso e persuasivo. Sraffa defende que esta relação entre salários e lucros não se limita ao nosso sistema “padrão” imaginário, mas pode também ser alargada ao sistema económico real do qual o sistema “padrão” foi derivado. O sistema real, argumenta Sraffa, consiste nas mesmas equações básicas que o sistema “padrão”, apenas em proporções diferentes, de modo que “uma vez dado o salário, a taxa de lucros é determinada para ambos os sistemas, independentemente das proporções das equações em qualquer um deles [28]“. Assim, conclui Sraffa, a taxa de lucro para o conjunto da economia é determinada logo que se conhece R (a relação entre o produto líquido e os meios de produção na indústria “padrão”, que é igual à “taxa máxima de lucro”) e w (a proporção do produto líquido da indústria “padrão” que vai para os salários). Ou, dito de outra forma, quando é dada a proporção do produto líquido do “sistema padrão ” que vai para os salários, a taxa média de lucro no conjunto da economia depende do nível de R.
No resto do seu livro, Sraffa utiliza amplamente esta relação simples entre salários e lucros para elucidar uma série de problemas teóricos difíceis. Num capítulo, por exemplo, Sraffa analisa o caso em que as mercadorias são produzidas com meios de produção que foram produzidos em períodos diferentes no passado (e assim sucessivamente), de modo que o elemento de lucro nos preços desses meios de produção é diferente, e pergunta como é que os valores relativos das mercadorias variam com as alterações na taxa de lucro [29]. Na segunda parte do seu livro, aborda também os novos problemas que surgem quando se tem em conta o facto de existirem elementos de capital fixo que permanecem em atividade mais do que um período de produção e se desvalorizam gradualmente ao longo da sua vida. Que generalizações podem ser feitas, pergunta ele, com base nos fundamentos teóricos construídos na primeira parte do livro, sobre o caminho seguido por essa depreciação?
Por fim, continuando com o método das aproximações sucessivas da mesma forma que os seus antecessores clássicos, ele traz a terra para o quadro de análise e constrói um sistema mais complexo de equações no qual, se os salários forem dados, os preços de todas as mercadorias, a taxa de lucros e as rendas a pagar pelas diferentes qualidades de terra, são todos determinados. Para o historiador do pensamento económico, uma das características mais interessantes destas extensões da análise de base é o número de velhos amigos que nelas são encontrados. Por exemplo, no capítulo sobre o capital fixo, Sraffa faz um uso interessante do velho dispositivo clássico, utilizado pela primeira vez por Torrens, de tratar o que resta do capital fixo no final do ano como uma espécie de produto conjunto da indústria em que é utilizado. De especial importância nestas últimas partes do livro é a distinção que cedo se estabelece entre produtos “básicos” e “não básicos” [30], e a análise geral dos produtos comuns.
Resta comentar uma característica muito importante da análise de Sraffa – a sua reabilitação implícita da teoria clássica do valor do trabalho em algo muito parecido com a forma que assumiu nas mãos de Marx. A teoria marxiana do valor-trabalho não diz, como se supõe vulgarmente, que os preços de equilíbrio das mercadorias são sempre proporcionais às quantidades de trabalho necessárias para as produzir, mas diz-nos, sem dúvida, que esta afirmação é verdadeira numa economia em que “todo o produto do trabalho pertence ao trabalhador”; mas concorda – e até sublinha – que os preços de equilíbrio não seguem normalmente esta regra simples numa economia capitalista em que uma parte do produto líquido vai para os lucros. Numa economia capitalista, demonstra-se que os preços relativos normalmente se desviam das quantidades relativas de trabalho incorporado, por razões que foram descritas anteriormente no presente artigo. No entanto, mesmo numa economia capitalista, argumenta-se que os preços de equilíbrio das mercadorias podem ainda ser “indiretamente” e “em última análise” determinados por certos rácios cruciais de quantidades de trabalho incorporado aplicáveis à economia como um todo. Assim, os desvios dos rácios de preços em relação aos rácios de trabalho incorporado, dadas as proporções em que o trabalho e os meios de produção estão combinados em cada indústria, dependem do nível da taxa média de lucros; e o nível da taxa média de lucros, afirma-se, depende, por sua vez, dos rácios cruciais de quantidades de trabalho incorporado a que acabei de me referir. Deste modo, se se pode de facto demonstrar que a taxa média de lucros é determinada por estes rácios de trabalho incorporado, podemos razoavelmente concluir que os próprios desvios dos rácios de preços de equilíbrio em relação aos rácios de trabalho incorporado são eles próprios determinados pelas “quantidades de trabalho incorporado”.
O método de Marx para mostrar a dependência da taxa de lucro das “quantidades de trabalho incorporado” neste sentido pode ser ilustrado com a ajuda do seguinte modelo simples:
Consideremos que a economia é constituída por três ramos de atividade distintos, A, B e C. As quantidades das três rubricas “Meios de produção”, “Salários” e “Mais-valia” são contabilizadas em termos de horas de trabalho. Tomemos o sector A como exemplo. No ramo A, supõe-se que os meios de produção utilizados durante um dado período de produção “contêm” ou “incorporam” um total de 40 horas de trabalho passado. A quantidade total de mão-de-obra atual ou direta despendida no ramo de atividade durante o período é considerada como sendo de 240 horas – a soma dos números 160 e 80 nas respetivas rubricas “salários” e “mais-valia”. Assume-se que em dois terços deste tempo total de trabalho – isto é, 160 horas – os trabalhadores diretos são capazes de contribuir apenas com valor suficiente para o produto para cobrir os seus próprios salários. Nas 80 horas restantes, eles contribuem com o que Marx chamou de “mais-valia”, que ele supôs ser a única fonte de lucro capitalista. A mesma interpretação é dada aos números para as indústrias B e C, onde, como se verá, as proporções em que o trabalho e os meios de produção estão combinados são diferentes das da indústria A. O rácio entre a mais-valia e os salários é assumido como sendo o mesmo (neste caso, 1 : 2) em cada indústria.
A taxa média de lucro nesta economia, argumentava Marx, pode ser encontrada tomando a mais-valia agregada produzida no conjunto da economia (165) e redividindo-a pelas três indústrias, proporcionalmente aos meios de produção utilizados em cada uma delas. Ou, para colocar a questão de uma forma que talvez seja mais fácil de compreender, a taxa média de lucro será determinada pelo rácio entre a mais-valia agregada e os meios de produção agregados [(160/220) = (3/4)]. Neste caso, será de três quartos, ou 75 por cento [31]. Este rácio de quantidades agregadas de trabalho incorporado determina, portanto, a taxa média de lucros e, consequentemente, os desvios dos rácios de preços de equilíbrio em relação aos rácios de trabalho incorporado.
À primeira vista, esta análise pode parecer ter pouco em comum com a de Sraffa. Mas suponhamos que continuamos a postular, como o próprio Marx fez, uma indústria em que o rácio entre os meios de produção utilizados e os salários é igual ao rácio destas quantidades quando são agregadas na economia como um todo. A indústria B, na nossa ilustração, é claramente uma indústria que possui esta característica – é uma indústria na qual, para usar a terminologia de Marx, a “composição orgânica do capital [32]” é igual à “média social”. Numa tal indústria, como se pode ver na ilustração, o rácio entre a mais-valia e os meios de produção (45:60) é igual ao rácio destas quantidades no conjunto da economia (165 : 220). Podemos assim dizer, como Marx diz [33], que a taxa média de lucro no conjunto da economia é determinada pela relação entre a mais-valia e os meios de produção nesta indústria B, cujas condições de produção representam uma espécie de “média social”. Ou, dito de outra forma, a taxa média de lucro no conjunto da economia é dada pela seguinte expressão [34]
Ora, a semelhança entre esta relação marxiana e a expressa em r=R(l–w) de Sraffa é certamente muito notável. Pois, em primeiro lugar, notemos que o R de Sraffa, embora normalmente expresso como o rácio entre o valor do produto líquido da indústria “padrão” e o valor dos seus meios de produção, é de facto igual à razão entre o trabalho incorporado no produto líquido da indústria “padrão” e o trabalho incorporado nos seus meios de produção [35].
Sraffa postula precisamente a mesma relação entre a taxa média de lucro e as condições de produção no seu sistema “padrão” que Marx postulava entre a taxa média de lucro e as condições de produção no seu setor de “composição orgânica média do capital“. O que ambos os economistas tentam mostrar, com efeito, é que (quando os salários são dados) a taxa média de lucros e, por conseguinte, os desvios das relações de preços em relação às relações de trabalho incorporado, são regidos pela relação entre trabalho direto e indireto na indústria cujas condições de produção representam uma espécie de “média” das que prevalecem no conjunto da economia. Marx chegou a este resultado postulando como a sua indústria “média” aquela cuja “composição orgânica do capital” era igual à “média social”. Mas o seu resultado só podia ser provisório e aproximado, uma vez que, ao chegar a ele, tinha abstraído do efeito que uma alteração do salário teria sobre os preços dos meios de produção empregues na “média” [36]. Sraffa mostra que se pode chegar ao mesmo resultado, sem abstrair de todo este efeito, se utilizarmos a sua indústria “padrão” em vez da indústria de “composição orgânica média do capital” de Marx. A indústria “padrão” de Sraffa, vista deste ponto de vista, é essencialmente uma tentativa de definir “condições médias de produção” de modo a obter o resultado idêntico que Marx procurava.
Notas
[22] Sraffa, p. 12.
[23]Tomemos, por exemplo, uma situação em que a indústria A utiliza 400 unidades como meios de produção e paga 800 em salários; a indústria B utiliza 300 meios de produção e paga 600 em salários; e a indústria C utiliza 200 meios de produção e paga 400 em salários. Os preços dos três produtos na situação inicial serão 1200, 900 e 600, ou seja, estarão relacionados entre si na proporção de 4 : 3 : 2. Se os salários diminuírem para metade e os lucros aumentarem de zero para 25 por cento, os preços dos produtos serão 900, 675 e 450, respetivamente, ou seja, continuarão a estar relacionados entre si na proporção 4: 3: 2.
[24] Sraffa, p. 15.
[25] Sraffa, p. 13.
[26]Se o salário baixasse para zero, o rácio entre o valor do produto líquido do sector de fronteira em relação ao valor dos seus meios de produção tornar-se-ia equivalente à taxa de lucro média do sector limítrofe e, por hipótese este rácio não pode alterar-se. Assim, se os salários forem zero, os preços no resto da economia devem alterar-se de modo a que a taxa média de lucro se iguale ao rácio entre o valor do produto líquido do sector fronteira e o valor dos seus meios de produção.
[27] Deixamos de lado, de momento, a questão de como se chega às frações multiplicadoras adequadas.
[28] Sraffa, p. 23
[29] Neste capítulo, Sraffa trata do problema da redução do “capital constante ” (para utilizar a terminologia de Marx) a quantidades de trabalho. Ele salienta, que a operação de redução pode, de facto, ser efetuada, desde que que o trabalho seja trabalho datado, uma vez que a datação afetará a taxa de lucro e, por conseguinte, os preços das mercadorias em causa.
[30] Um produto “básico”, grosso modo, é aquele que entra (direta ou indiretamente) na produção de todas as mercadorias, e um produto “não básico” é aquele que não tem esta propriedade. Um produto “de luxo”, por exemplo, que não é utilizado (quer como instrumento de produção, quer como artigo de subsistência) na produção de outros produtos, é um produto não-básico. (Ver Sraffa, pp. 7-8.) A caraterística importante dos produtos “não-básicos” é o facto de não participarem na determinação do sistema, sendo o seu papel “puramente passivo”. Por outras palavras, o preço de um produto não-básico depende dos preços dos seus meios de produção, mas estes não dependem dele, ao passo que “no caso de um produto básico, os preços dos seus meios de produção dependem do seu próprio preço, tal como este depende daqueles” (p. 9). Os especialistas em teoria marxista notarão a relevância desta parte da análise de Sraffa para uma questão importante que surgiu no decurso do debate sobre o chamado “problema da transformação” – a questão (levantada em particular por Bortkiewicz) de saber se as condições de produção de bens de luxo entram na determinação da taxa de lucro.
[31] Marx, em comum com os seus antecessores clássicos, geralmente assumia que os salários eram ‘adiantados’ fora do capital. Isso significava que, ao calcular a taxa de lucros, ele normalmente relacionava a mais-valia com os meios de produção mais os salários. Seguindo o precedente de Sraffa (p. 10), assumo aqui que o salário não é, de facto, adiantado, mas ’pago a posteriori como uma parte do produto anual’, o que significa que a taxa de lucros é obtida relacionando a mais-valia apenas com os meios de produção. Abandonar este pressuposto particular de Marx não afecta a essência da sua análise e facilita grandemente a comparação com Sraffa que se faz a seguir.
[32] Ver Capital, Vol. I11 (Kerr edn.), p. 193. No exemplo, a composição orgânica do capital, no ramo B (60: 90) é claramente igual à composição orgânica do capital da economia como um todo e (220: 330).
[33] Capital, Vol. 111, p. 204
[34] Nesta expressão, considera-se que o “produto líquido” é constituído pelos salários mais a mais-valia (como, de facto, acontece com Sraffa). Assim, a expressão é apenas outra forma de formular o rácio entre a mais-valia e os meios de produção, cada uma destas quantidades é estimada em termos de trabalho incorporado.
[35] Cf. Sraffa, pp. 16-17. A razão para a equivalência entre o rácio do valor e o rácio do trabalho incorporado é a seguinte: quando os lucros são nulos, os preços de todas as mercadorias são proporcionais às quantidades de trabalho necessárias para as produzir (como foi demonstrado acima, pp. 125-6). E quando os lucros sobem acima de zero, a razão R por hipótese não muda. Assim, qualquer que seja o nível de lucros, a relação de valor permanece igual à relação de trabalho incorporada.
[36] Marx fez esta abstracção deliberadamente, e estava plenamente consciente de que o seu resultado era, portanto, provisório e aproximado. Ver Capital, Vol. 111, pp. 241-3.
O autor: Ronald Meek [1917-1978] foi um economista neozelandês, economista e cientista social marxista conhecido especialmente pelos seus estudos académicos da economia política clássica e da teoria do valor-trabalho. Durante as décadas de 1960 e 1970, os seus escritos tiveram uma forte influência na discussão académica ocidental sobre a teoria económica de Marx. (para mais informação, ver aqui)

