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Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte C: Texto 6 – A solidão do corredor de maratona (2/8) , por Riccardo Bellofiore

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

 

Nota de editor: devido à extensão e nível de abstração deste texto, o mesmo será publicado em oito partes. Hoje a segunda.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

16 min de leitura

Parte C: Texto 6 – A solidão do corredor de maratona (2/8)

Sraffa, Marx e a crítica da teoria económica

 Por Riccardo Bellofiore

Capítulo 7 do livro Smith, Ricardo, Marx, Sraffa – Il lavoro nella riflessione economico-politica, p. 253-332, Ed. Rosenberg e Sellier, 2020. (original aqui)

 

(continuação)

 

Sraffa antes e depois da abertura do arquivo

É tempo de nos voltarmos para o arquivo de Sraffa depositado no Trinity College na Wren Library (Cambridge, Reino Unido) para ver que novas perspetivas ele pode abrir [12]. Quando comecei a frequentar o arquivo, na segunda metade da década de 1990, a leitura mais difundida e influente sobre a relação de Sraffa com Marx era ainda a proposta por Ian Steedman [13]: o que Sraffa tinha deixado claro era que a teoria do valor do trabalho era completamente não essencial para uma análise científica do capitalismo. O que era suficiente era um conjunto de dados “objetivos” – físicos e materiais – relativos aos métodos de produção. Na perspetiva clássica marxiana, a isto tinha obviamente de se juntar uma determinação externa do salário real. Os próprios “valores-trabalho” só podiam ser derivados a partir das mesmas variáveis dadas como conhecidas. Como já foi referido, as “quantidades de valor” deviam ser consideradas redundantes em relação ao objetivo de determinar simultaneamente os preços de produção e a taxa de lucro igual. Este resultado, a irrelevância do valor, não implicava, por si só, uma crítica a toda a construção teórica de Marx: pelo contrário, grande parte dela podia ser retomada no âmbito da “abordagem ” Sraffiana do excedente.

É sabido que estas conclusões secas foram objeto de silêncio por parte de Sraffa. Além disso, estão em contradição com os testemunhos de amigos e colegas: basta recordar os nomes de Joan Robinson, Antonio Giolitti ou Paul M. Sweezy, que descrevem Sraffa como um autor que sempre aderiu à teoria do valor trabalho [14]. Seria de esperar, portanto, que o acesso aos documentos de Sraffa levasse os académicos a investigar também a relação de Sraffa com Marx, se é que aí se poderia encontrar algo de inesperado. Salvo raras excepções, de que falarei em seguida, não foi esse o caso, pelo menos numa fase inicial. É certo que se acumularam estudos sobre a relação de Sraffa com Marshall e Keynes, Ricardo e Hayek, e outros. Mas não sobre Marx. Nos primeiros trabalhos sobre o arquivo, a opinião herdada de estudos anteriores era frequentemente apresentada como completamente confirmada pelos trabalhos inéditos.

Pela minha parte, devo confessar que fiquei muito surpreendido com o que li [15]. Uma surpresa tal que me levou a incluir algumas referências precisas ao tema da relação Marx-Sraffa num par de comunicações apresentadas em 1998. A primeira, redigido com Jean-Pierre Potier, sobre as “novidades” trazidas pelo arquivo à biografia intelectual de Sraffa, foi publicado nesse mesmo ano em “Il pensiero economico italiano [16]“, e foi também objeto de uma intervenção na Fundação Einaudi, em Turim, nesse mesmo ano, no âmbito de um debate em que participaram Pierangelo Garegnani e Heinz Kurz. A segunda foi um comentário, aliás bastante extenso, a um artigo de Carlo Panico sobre a análise monetária de Sraffa, no âmbito de uma conferência que se realizou nos mesmos dias também em Turim, organizada por Roberto Marchionatti, e publicada nas atas alguns anos mais tarde [17]. Na Fundação Einaudi, depois de ouvir o meu discurso, uma economista perguntou-me se os materiais de que eu estava a falar se encontravam realmente entre os documentos de Sraffa (devia haver algo do género, tinha-me dito Vianello no passado): à minha resposta positiva, comentou “nunca os poderá publicar”. Felizmente, esta pessoa estava enganada.

Um exemplo mais evidente da atitude inicial dos seguidores de Sraffa sobre o ponto em questão pode ser encontrado num académico sério como Heinz D. Kurz, a quem (depois de Garegnani) foi atribuída a tarefa de editar uma coleção de escritos dos documentos não publicados, que ainda não viu a luz do dia [18]. Kurz apresentou e publicou entre 1998 e 2002, em várias línguas, uma série de artigos que deveriam dar conta das inovações teóricas trazidas pelo arquivo [19].

Nesses artigos, Kurz reiterou que algumas crenças sobre a relação de Sraffa com a teoria do valor-trabalho estavam muito difundidas, mas tinham de ser postas em causa por serem insustentáveis. De facto, argumentava Kurz, os arquivos tornavam claro que o ponto de partida de Sraffa não tinha sido Marx, mas sim Marshall. Sraffa contestou a ideia de que o trabalho desempenhava um papel especial na determinação do valor, uma proposição que considerava metafísica. Na realidade, esta ideia não era mais do que uma corrupção da noção mais correta de “custos físicos reais”, defendida primeiro por Petty e depois pelos fisiocratas. A partir daqui, Kurz continuou a referir que Sraffa sabia muito bem que havia casos especiais, circunstâncias incrivelmente especiais – quando não há lucros, ou quando se assume proporções iguais de trabalho direto e meios de produção em todas as indústrias – em que os preços são conformes com os valores-trabalho, e as relações de troca relativas entre as mercadorias são proporcionais ao trabalho contido nas diferentes mercadorias. A questão era, reiterou ele com vigor, é que não havia aí nada de interessante, aos olhos de Sraffa [20].

Se esta era a situação em 1998, e ainda o foi durante alguns anos mais, as coisas mudaram desde então. Começaram a surgir várias histórias “conjeturais” da evolução da forma como Sraffa se relacionou com Marx na longa preparação da Produção de Mercadorias. O início de uma destas histórias conjeturais, como direi, pode também ser encontrado na conferência de Turim de 1998. E não há dúvida de que alguns dos trabalhos mais úteis – com indubitáveis e inevitáveis mudanças de ênfase, mas não de conclusão – são os do próprio Heinz Kurz, sozinho ou com outros coautores em anos posteriores: em particular, com Christian Gehrke ou Neri Salvadori, e aos quais nos referiremos. É comum a estas histórias conjeturais, incluindo a minha, reconhecer e, por vezes, sublinhar as descontinuidades e, por vezes, as fraturas, encontradas nos períodos que marcam a longa maratona percorrida por Sraffa para dar forma ao seu livro.

O percurso de descoberta de Sraffa começou por volta do final de 1927. O primeiro período em que Sraffa trabalhou no seu livro prolongou-se até ao início da década de 1930, nomeadamente até 1931. Kurz tem razão quando refere que nesta fase o economista italiano foi predominantemente crítico da teoria do valor do trabalho [21].

A situação é muito diferente no segundo período em que Sraffa trabalhou mais intensamente no livro, o início da década de 1940, e em particular o subperíodo de 1940 a meados de 1943. Em 1940, Sraffa voltou a reler o primeiro livro de O Capital, o que foi decisivo para a continuação da sua reflexão. O objeto da investigação levada a cabo por Sraffa era tipicamente “ricardiano”: a determinação dos preços relativos em condições de livre concorrência, uma vez assumida a configuração produtiva como dada (isto é, tanto os meios de produção como o produto eram conhecidos) e definida a regra de distribuição do excedente (de acordo com uma taxa de lucro uniforme). O carácter ricardiano desta investigação é evidente se tivermos em conta que a duração do dia de trabalho é considerada constante [22].

Ao contrário do que os leitores dos ensaios de Kurz publicados entre 1998 e 2002 poderiam legitimamente ter opinado, o herói de Sraffa nesta segunda fase preparatória do livro era muito mais Marx do que Ricardo. Os Documentos de Sraffa esclarecem da melhor forma possível que Sraffa estava então convencido de que o seu livro iria defender a correção substantiva da teoria económica marxiana e rejeitou vigorosamente as críticas de Bortkiewicz: assistimos assim a uma defesa total do valor-trabalho marxiano, da sua teoria dos preços e até da queda tendencial da taxa de lucro. Sraffa – é preciso dizer, com alguma relutância – teve de mudar de opinião em todos estes pontos. Seguiu-se, entre 1955 e 1958, uma terceira e última fase de trabalhos preparatórios para a redação final do livro. No entanto, é certo e documentável que, mesmo depois de publicar o seu livro em 1960, o economista italiano manteve uma opinião positiva sobre o processo de transformação marxiano. Ainda mais significativo é o facto de ter utilizado as suas conclusões analíticas para propor uma redefinição da categoria de exploração, traduzindo-a de uma determinação em termos de trabalho contido para uma determinação em termos de trabalho comandado, mas ainda ancorando-a firmemente num horizonte considerado marxiano. É aqui que encontramos alguns pontos de contacto entre Sraffa e a Nova Interpretação, que passaram em grande parte despercebidos aos seguidores de ambos.

 

Os anos vinte. Da “metafísica” do valor às “equações”

A partir do final da década de 1920, Sraffa convenceu-se de que o resultado final da sua investigação seria uma reformulação de Marx, substituindo a metafísica e a terminologia hegelianas por uma metafísica e uma terminologia modernas: “Isto seria simplesmente uma tradução de Marx para inglês, das formas da metafísica hegeliana para as formas da metafísica de Hume [23]“.

Antes do final de 1927, Sraffa debruça-se sobre Marx em algumas notas intituladas Adventures in Theory of Value [24]. A rejeição do Marx de após 1870 deveu-se a uma “confusão”: pensava-se que a abordagem marxiana se baseava no custo de produção do trabalho interpretado como a causa do valor. Por outro lado, a base da igualdade estabelecida entre custo (trabalho) e valor pode manter-se mesmo que o trabalho não seja o único fator determinante do valor. Se a teoria de Marx pode ser mantida com base na teoria do valor de Ricardo, também pode ser mantida com base em Marshall. Um argumento semelhante pode ser encontrado nas Notas do verão de 1927, escritas para servirem de introdução às Palestras sobre a Teoria Avançada do Valor que iria proferir no ano seguinte. Aí, Sraffa observa que o desenvolvimento posterior de Marshall não é de modo algum incompatível com a teoria marxiana do valor [25].

Nesta fase da reflexão do economista italiano, a oposição estabelecida entre as duas perspetivas, a clássica e a neoclássica de tipo marshalliano, parece residir nas respetivas “metafísicas”, mas uma e outra são conciliáveis no que diz respeito à questão técnica da determinação dos preços. As duas visões, em vez de serem vistas como alternativas ou complementares, têm horizontes problemáticos diferentes [26]. Os clássicos partem de um ponto de vista social, e o seu tema principal é a determinação “macro”: a causa e a natureza do valor de todas as mercadorias e, consequentemente, a sua distribuição. Os “modernos”, como Sraffa chama aos neoclássicos, centram-se mais na determinação “micro” dos preços individuais e identificam a distribuição entre fatores com a determinação dos preços [27]. Segundo o nosso autor, os dois pontos de vista deveriam ser designados de forma diferente: o primeiro como “teoria do valor”, o segundo como “teoria dos preços”. Uma e outra são consideradas inteiramente apropriadas para o objeto de análise indicado.

Sraffa toma, de facto, Marshall como ponto de partida, mas apenas porque o vê como – pelo menos em parte – compatível com Marx [28]. A leitura que Sraffa faz dos clássicos e de Marx muda a partir do outono de 1927 e depois do inverno de 1927-1928, altura em que começa efetivamente a preparação da Produção de Mercadorias. Pierangelo Garegnani identifica aqui um ponto de viragem fundamental: o ponto de vista metodológico e historiográfico pode parecer o mesmo, mas é nestes meses que o esforço teórico-reconstrutivo toma como ponto de referência os custos reais físicos, com uma clara referência, em última instância, à subsistência direta e indiretamente necessária para produzir bens. Os custos reais físicos devem ser entendidos em oposição aos custos reais “subjetivos” de Marshall, e Sraffa depara-se com eles na busca de um padrão último de valor [29]. A viragem em questão implica uma rutura com a leitura dos clássicos em termos de “rendimentos constantes à escala” e a redescoberta simultânea da abordagem do excedente segundo a linha Quesnay-Smith-Ricardo: onde o “excedente” é o excesso do produto em relação ao “capital” inicial e, portanto, em relação ao custo [30].

É neste período inicial do processo de construção da Produção de Mercadorias que se encontram os traços de um “fisicalismo” por vezes extremo, como é evidente na nota sobre a “degeneração do conceito de custo e valor”:

Só Petty e os fisiocratas tinham a noção correta de custo como “pedaço de pão”. Depois, alguém começou a medi-lo em trabalho, uma vez que o trabalho de cada dia requer a mesma quantidade de alimentos. Passaram então a considerar o custo como sendo efetivamente uma quantidade de trabalho. Depois, A. Smith interpretou o trabalho como “fadiga e incomodidade “, que é o “custo real” (Ricardo, p. 10, 15n) e a “dificuldade da sua obtenção”. Depois, Ricardo reconduziu-o em termos de trabalho, mas não o suficiente, e Marx foi tão longe quanto Ricardo. Depois, Senior inventou a abstinência. E Cairnes unificou todos os custos (trabalho, abstinência + risco) como sacrifício. Agora Davenport, Cassel, Henderson, deram mais um passo, o último na direção errada [31].

Neste modo de ver, o salário é dado em termos reais, como um fornecimento de bens, uma visão com traços quase biológicos-naturalistas. A “degenerescência” de que fala Sraffa afasta-se da visão correta – que reduz o custo à alimentação, encarando assim a subsistência como uma entidade com características físico-materiais – substituindo-a por uma visão mais matizada que substitui o custo pelo “trabalho”. A adesão de Sraffa a esta posição, em que o objetivo se torna indistinguível do físico, foi gradual, segundo Kurz, e repentina, segundo Garegnani.

Há, no entanto, que referir a insistência com que Sraffa observa que a noção de trabalho em Ricardo e Marx “estava ainda suficientemente próxima [de Petty e dos fisiocratas] para ser, em muitos casos, equivalente ” [32]. Não existe uma unidade comum para avaliar os valores de uso físicos não homogéneos que entram no “custo”. Podemos, no entanto, reduzi-los ao trabalho: esta noção deve atualmente ser entendida num sentido qualitativo. Por outro lado, o trabalho pode, por sua vez, ser reduzido às mercadorias consumidas pelos trabalhadores, e estas mercadorias à quantidade necessária para sustentar o trabalhador durante o dia. Uma quantidade que, segundo Sraffa, pode ser considerada aproximadamente constante, na medida em que lhe parece inteiramente legítimo tomar uma hora de trabalho normal como padrão quantitativo.

O que claramente não podia deixar de incomodar Sraffa era o facto de a noção smithiana de trabalho como fadiga e incomodidade poder facilmente resvalar para a visão vulgar de que o que estava em causa eram custos psicológicos e não objetivos. O trabalho enquanto “sacrifício” do repouso, da liberdade e da felicidade é aqui o primeiro passo que conduz à desutilidade do trabalho e, portanto, à definição do incentivo apropriado para ultrapassar este entrave à produção. Em virtude, por outro lado, da proximidade e da equivalência substancial acima referidas, Sraffa encontra nas Lectures de 1928-1931 a distinção entre as duas teorias do valor na diferente noção de custo: Petty e os Fisiocratas versus Marshall. Para a primeira linha, trata-se principalmente do “capital” “material” necessário para produzir uma mercadoria, por exemplo, os alimentos a fornecer aos trabalhadores. Para a segunda linha, é a soma dos “esforços” e sacrifícios subjacentes à abstinência e ao trabalho de todos os tipos (direta e indiretamente) necessários para produzir uma mercadoria [33]. No primeiro caso, o custo é algo concreto e tangível, que pode ser observado e medido empiricamente, necessário à produção da mesma forma que as matérias-primas ou os meios de produção. No segundo caso, o custo é algo eminentemente privado, ou seja, subjetivo, mensurável apenas através da moeda que deve ser paga para compensar a desutilidade. Em suma: quantidade de coisas consumidas na produção contra incentivos e satisfações individuais. Por conseguinte, a possível presença ou ausência do “excedente” ou do “produto líquido” em abordagens teóricas concorrentes não pode deixar de se seguir.

Se, neste raciocínio “fisicalista”, o valor não tem nada a ver com mais do que o custo material, o que dizer do “trabalho”? Sraffa observa que a “metafísica” de Marx era inteiramente razoável: infelizmente, tantas décadas depois, já não era compreendida. Dito de outro modo: a dificuldade a enfrentar era um problema de “tradução”. Encontramos entre os trabalhos de Sraffa um ataque explícito à teoria do valor trabalho, na medida em que esta se baseia no “esforço” dos seres humanos:

Não parece haver qualquer diferença objetiva entre o trabalho de um assalariado e o de um escravo; de um escravo e de um cavalo, de um cavalo e de uma máquina, de uma máquina e de um elemento da natureza [..]. Trata-se de uma conceção puramente mística [34] que atribui ao trabalho humano um dom especial de determinação do valor. Será que o empresário capitalista, que é o verdadeiro “sujeito” da avaliação e da troca, faz grande diferença se emprega homens ou animais? Será que o proprietário de escravos fará alguma diferença [35]?

No ano de 1927 a crítica era ainda mais radical:

O erro fatal de Smith, Ricardo e Marx foi o de considerar o “trabalho” como uma quantidade, a medir em horas ou em quilowatts de energia humana, e assim comensurável em termos de valor [36]. [..] Todos os problemas parecem ter sido causados por pequenos erros iniciais, que se acumularam em deduções (por exemplo, alimentação do trabalhador = quantidade de trabalho, é quase verdade) [37].

 

Kurz e Garegnani têm, em suma, razão quando salientam que o Sraffa do final da década de 1920 estava longe da ideia de que os preços relativos deviam ser expressos em trabalho humano [38]. O que estes dois intérpretes parecem ignorar demasiado depressa é que isto não levou Sraffa a uma rejeição completa da teoria do valor-trabalho, uma vez que esta se desvinculou de uma teoria demasiado grosseira dos preços relativos. O nosso autor, naqueles anos, distinguiu dois significados de “trabalho humano”: primeiro, como causa do valor, que dá origem a todos os produtos e aos valores; segundo, como um dos fatores de produção. É apenas neste segundo sentido que faz sentido falar de horas de trabalho ou de quantidade de trabalho:

Foi ao confundir os dois sentidos que eles [Ricardo e Marx] confundiram a quantidade de trabalho (no segundo sentido) quando deveriam ter dito que ela se deve ao trabalho humano (no primeiro sentido: uma quantidade não mensurável, ou melhor, não é de todo uma quantidade [39].

Sraffa critica, portanto, apenas o ponto de vista segundo o qual o valor da mercadoria individual pode ser atribuído exclusivamente à quantidade de trabalho do fator de produção, e não a outra perspetiva que, numa análise mais aprofundada, não está longe da visão macrossocial que está no centro das mais recentes abordagens macro-monetárias de Marx. Exceto por um problema, absolutamente crucial, que mina este segundo ponto de vista: Sraffa sugere, de facto, que este segundo significado do “trabalho” como base do valor não pode ser observado e, portanto, não pode ser medido. Permanecemos exclusivamente no domínio do qualitativo.

Kurz afirma, com razão, que neste período inicial (1927-1931) Sraffa não estava preocupado em resolver o chamado problema da transformação [40]. As razões para isso, no entanto, são intrigantes. Numa carta datada de 15 de julho de 1928, Sraffa argumenta que a distância irreconciliável entre a teoria e a realidade tem como razão uma contradição interna à própria realidade [41]. Sraffa, no entanto, estava então a construir lentamente uma forma alternativa de construir preços, segundo a linha clássica marxiana dos preços “naturais”, ou preços de produção. Nesta pré-história da produção de mercadorias, Sraffa toma como ponto de partida as suas “primeira” e “segunda” equações. As primeiras são equações sem excedente. A segunda, com excedente, vê o trabalho reduzido aos meios de subsistência que o reproduzem.

Nesta conjuntura, houve uma grande divergência entre os seguidores de Sraffa. Kurz e Garegnani estão convencidos de que o processo de Sraffa de identificar as suas equações é independente de uma referência a Marx. A escrita das equações deve ser colocada no contexto da problemática que Sraffa havia aberto nos dois artigos de 1925 e 1926, a sua crítica a Marshall, as dificuldades que ele tinha encontrado ao longo do caminho, a perspetiva de uma saída dada pelo encontro com Ricardo, e antes disso pela redescoberta de Petty e dos Fisiocratas. Marx não desfrutaria neste caminho de nenhum status privilegiado na construção analítica do núcleo do esquema teórico de enraizamento, embora possa ter tido um papel na preparação do caminho, ou em outras questões. Giancarlo De Vivo e Giorgio Gilberto têm uma opinião muito diferente e propõem uma hipótese diferente [42]. Do final dos anos 20 não Marshall, nem Ricardo nem Petty e os Fisiocratas, mas Marx teria sido a inspiração. Mas não, como se poderia esperar, o Marx do primeiro livro do Capital, o do valor-trabalho, ou o Marx do terceiro livro de O Capital, o dos preços de produção. Quando muito, o Marx do segundo livro de O Capital: o dos esquemas de reprodução.

De acordo com De Vivo e Gilibert, Sraffa já conhecia o primeiro livro de O Capital antes da guerra. Para preparar as suas conferências sobre a teoria avançada do valor em Cambridge, o economista italiano também leu as Teorias sobre a mais-valia, totalmente traduzidas recentemente em francês. Em 1927 também leu, pela primeira vez, o segundo livro, também em tradução francesa. O facto de Marx ter sido o ponto de partida de Sraffa, em contraste com a opinião de Kurz e Garegnani, não significa – neste ponto Gilibert é explícito, menos De Vivo – que o economista italiano tenha adotado um ponto de vista marxista, de toda a maneira com referência à teoria do valor-trabalho, como abordagem «sucessivista» para a determinação dos preços de produção a partir de valores de troca.

Pode valer a pena seguir o argumento de Gilibert com mais detalhes. Em julho de 1928, Sraffa escreveu, numa nota em italiano:

Marx, Cap. vol. 2, cap. I-III de Pte 1a.

Considere sempre, primeiro a reprodução. simples, onde o capitalista consome toda a mais-valia; depois reproduz o sistema com a acumulação. de toda a mais-valia. Terei de considerar:

1) reprodução. simples sem mais-valia

2) reprodução simples com valor agregado todo consumido

2b) igual a 2 na forma de 1 (sem r)

3) reprodução. com acumulação. total (exigência de juros sobre o limite fixo. se não, não é possível acumular. proporcional em todas as indústrias. Quem emprestaria a uma indústria que não gera o suficiente para se reproduzir? Mas as máquinas usadas valem menos do que as novas: mas se se verificou sempre a acumulação no passado, a média das máquinas é mais recente do que o normal e, portanto, recebe mais amortização do que aquilo que se gasta: isso é exatamente igual ao exigido? )

4) reprodução com acumulação acelerada. (a percentagem acumulada aumenta ano após ano devido às invenções [43].

A reprodução com acumulação proporcional total em todas as indústrias teve uma clara influência fisiocrática: e, por outro lado, os esquemas de reprodução de Marx já haviam explicitamente trabalhado sobre o Tableau économique de Quesnay como um modelo explícito. Ainda mais perto estava o ar familiar, se não mesmo a trigo-trigo do qual Sraffa cuja existência considerou por hipótese existir na mente do primeiro Ricardo em sua Introdução às Obras e Correspondência de Ricardo. De toda a maneira, Sraffa logo abandonou a versão da equação com uma taxa de crescimento comum em favor do que prometia ser uma versão mais geral, em termos de uma taxa de lucro comum [44].

 

(continua)

 


Notas

[12] Citamos de acordo com a convenção adoptada na Biblioteca Wren. A primeira letra em maiúsculas indica as macro-secções, dez ao todo de A a J. Entre as mais relevantes contam-se: D, Notas, Palestras e Publicações; C, Correspondência; E, Diários; I, Itens retirados de livros. A secção D contém a obra científica de Sraffa e exige uma convenção arquivística mais detalhada: D1 contém 92 colecções de documentos catalogados como Notas, D2 contém 8 colecções de documentos catalogados como Palestras, D3 contém 14 colecções de documentos catalogados como Publicações. Em D3, a subsecção 12, arquivada como D3/12/, é dedicada à Produção de mercadorias por meio de mercadorias e contém 115 pastas, designadas D3/12/1 a D3/12/115. A referência às páginas, por vezes múltiplas, segue-se, separada por dois pontos. Os Sraffa Papers estão acessíveis em formato digital na sequência de um projeto conduzido por Giancarlo De Vivo e Murray Milgate com a colaboração das pessoas da Biblioteca Wren. Ver:https://janus.lib.cam.ac.uk/db/node.xsp?id=ead%2Fgbr%2F0016%2Fsraffa. Veja-se ainda Digital Sraffa, um sítio dedicado à presença on-line de Sraffa sob a orientação de Scott Carter, onde também é possível acompanhar o desenvolvimento do projeto Trinity 2.0 que propõe uma ponte entre três convenções arquivísticas possíveis sobre o arquivo. Para mais detalhes ver: http://sraffaarchive.org.

[13] Cfr. I. Steedman, Marx after Sraffa, London, NLR Books, 1977

[14] Vejam-se J. Robinson, The Labor Theory of Value, “Monthly Review”, XXIX, 7, 1977, p. 56; A. Giolitti, Lettere a Marta. Ricordi e riflessioni, Bologna, il Mulino, 1992; S. Savran, E.A. Tonak, Interview with Paul M. Sweezy, “Monthly Review”, XXXVIII, 11, 1987, pp. 1-28.

[15] Sobre o sentido de “surpresa” na investigação arquivística, ver a cuidada intervenção de J. Smith, Surprise in the Archive: Reactions to Sraffa’s Papers, em R. Bellofiore, S. Carter (eds.), Towards a New Understanding of Sraffa. Bellofiore, S. Carter (eds.), Towards a New Understanding of Sraffa. Insights from Archival Research, Londres, Palgrave Macmillan, 2014, a partir de uma conferência realizada em Bergamo em 2010, cinquenta anos após a publicação de Mercadorias através de mercadorias.

[16] R. Bellofiore, J.-P. Potier, Piero Sraffa: nuovi elementi sulla biografia e sulla ricezione di «Produzione di merci» in Italia, “Il pensiero economico italiano”, numero monografico: N. Salvadori sob a direção (sob a direção), Omaggio a Piero Sraffa (1898-1983). Storia Teoria Documenti, VI, 1, 1998, pp. 55-103 Uma versão reduzida e atualizada apareceu em inglês como New Perspectives from Sraffa’s Papers, em R. Ciccone, C. Gehrke, G. Mongiovi (editado por), Sraffa and Modern Economics, Volume II, New York, Routledge, 2011, pp. 338-353.

[17] R. Bellofiore, Monetary Analyses in Sraffa’s Writings: a Comment on Panico, in T. Cozzi, R. Marchionatti (sob a direção), Piero Sraffa’s Political Economy. A Centenary Estimate, London, Routledge, 2001, pp. 362-376.

[18] Lembremos o leitor é lembrado que Sraffa morreu em 1983, e o Arquivo foi aberto para consulta cerca de uma década depois. Já se passaram 40 anos. Heinz Kurz anunciou a publicação em 2010 de cinco volumes: «uma seleção criteriosa dos documentos e correspondência de Sraffa em nome da Cambridge University Press». Cfr. Preparing the edition of Piero Sraffa’s unpublished papers and correspondence, “Cahiers d’économie politique”, 2, 2009, pp. 261-278. Si ricorda al lettore che Sraffa è deceduto nel 1983, e l’Archivio è Stato Aperto alla consultazione circa un decennio dopo. Sono passati Poco Meno di Quarant’anni. Heinz Kurz annunciava la pubblicazione nel Corso del 2010 di Cinque volumi: «uma seleção criteriosa dos papéis e correspondência de Sraffa em nome da Cambridge University Press». Cfr. Preparando a edição dos artigos e correspondências não publicados de Piero Sraffa, “Cahiers d’économie politique”, 2, 2009, pp. 261-278. Escreve Kurz no início do artigo : Em conversa privada, Piero Sraffa teria chamado ao seu trabalho publicado de a “ponta de iceberg”, sendo o iceberg os seus manuscritos e as notas, material ainda não publicado Quando na conversa esta metáfora é usada, a ideia de um navio colidir com um iceberg e depois afundar está próxima. O destino do Titanic vem facilmente à mente. Tendo sido nomeado pelo executor literário de Sraffa, o professor Pierangelo Garegnani, para a redação geral do “iceberg” de Sraffa, estou plenamente ciente de que a metáfora não é sem significado mais profundo, na verdade uma pluralidade de significados. Isso ficará claro na sequência. No entanto, estou otimista de que a enorme tarefa acabará por ser realizada». Neste entretempo alguns dos onze editores morreram (Garegnani, Gilibert, De Cecco).

[19] Para confirmar o texto veja: A contribuição de Sraffa para a ciência económica. Notas sobre seus escritos inéditos, “Il Pensiero Economico Italiano”, VI, 1, 1998, pp. 11-38. Artigos semelhantes apareceram na “Revue d’Économie politique” (1998), na “Revista Europeia de História do Pensamento Económico” (1998) e em vários volumes.

[20].Levantei esta questão no debate de uma conferência em Cambridge sobre Produção de Mercadorias, em 2010, que foi encerrada por uma longa intervenção de Heinz Kurz. Na sua resposta às minhas observações, que pode ser encontrada no ensaio final da já referida edição especial New Perspectives on the Work of Piero Sraffa (Don’t Treat too Ill my Piero! Interpreting Sraffa’s Papers, “Cambridge Journal of Economics”, XXXVI, 6, 2012, pp. 1535-1569), Kurz queixou-se de uma “falta de provas” nas minhas observações. A questão, como volto a referir no texto, é que a “prova” não reside no que está nos seus artigos, mas no que está “em falta”: em suma, reside nos próprios escritos de Kurz desde 2005. E está na comparação com as poucas vozes que anteriormente questionaram a vulgata, precisamente a partir dos arquivos: a intervenção de Giancarlo De Vivo na conferência de 1998 na Universidade de Turim foi oportuna. Ver, nas atas do congresso, G. De Vivo, Some Notes on the Sraffa Papers, in T. Cozzi, R. Marchionatti (eds.), Piero Sraffa’s Political Economy. A Centenary Estimate, Londres, Routledge, 2001, pp. 157-164, mas também Production of Commodities by means of Commodities: Notes on Sraffa’s Intellectual Path, em M. Pivetti (ed.), Piero Sraffa. Contributi per una biografia intellettuale, Roma, Carocci, 2000, pp. 265-295. Dedicarei muita atenção à leitura de De Vivo no que se segue. Na sua resposta, Kurz define-me como um marxista fundamentalista: uma caraterização bastante fantasiosa que tenho razões para acreditar ter sido um lapso.

[21] C 185

[22] Este ponto já era claro para R. Rowthorn, Neo-Classicism, Neo-Ricardianism and Marxism, “New Left Review”, 86, 1974, pp. 63-87. Rowthorn faz disto a base de uma crítica aos “neo-ricardianos” e não ao próprio Sraffa. Um argumento convergente é o de D. Preti em On the Neoricardian Criticism of Irrelevance, no volume que editei com S. Carter, Towards a New Understanding of Sraffa cit.

[23] D3/12/4: 15. Trata-se de uma pasta na qual está escrito “fim de novembro de 1927” e “preparação para as conferências de 28-31?

[24] D1/3: 3-4.

[25] D3/12/3: 10-11.

[26]  Cfr. D3/12/3: 16.

[27]  Cfr. D3/12/3: 4-5.

[28] P. Garegnani, On a Turning Point in Sraffa’s Theoretical and Interpretative Position in the Late 1920s, “European Journal of the History of Economic Thought”, XII, 3, 2005, pp. 453-492, desenvolve uma crítica à ideia de que Marx estava, em certa medida, por detrás da investigação de Sraffa antes de 1927 (pp. 485 e 490). Este autor também discorda da ideia de que a teoria da distribuição pode ser separada da (e vir antes da) teoria dos preços, e coloca-a em contraste com a separação posterior entre uma determinação conjunta dos preços e da distribuição, e uma determinação do nível do produto (p. 473).).

[29] Ivi, p. 474.

[30] vi, p. 475.

[31] D3/12/4: 4

[32] D3/12/4: 5.

[33]  D2/4: 18.

[34] Os leitores dos dois capítulos anteriores já sabem que uma tal proposição, longe de ser lida como contraditória com a teoria marxiana do valor, está inteiramente em conformidade com ela. Em O Capital, a mercadoria é precisamente definida como algo “místico”: é, escreve Marx no início do quarto parágrafo do primeiro capítulo do primeiro livro, uma coisa complicada, cheia de subtileza metafísica e ofuscação teológica. O carácter esotérico da mercadoria não deriva do seu valor de uso ou do seu conteúdo, mas da sua forma: precisamente o que Ricardo não tinha sido capaz de analisar. Da Coleção Sraffa, a coleção de volumes que pertenceu a Sraffa, sabemos o quanto o economista italiano era um leitor atento destas páginas

[35] D3/12/9: 89.

[36] Mais uma vez, o meu leitor sabe que, na literatura marxiana mais recente, esta consideração não é contestada e é mesmo atribuída ao próprio Marx: o trabalho “conta” na dimensão do valor apenas em virtude da sua abstração real e, portanto, da sua expressão em dinheiro, nunca diretamente em termos de horas de trabalho.

[37]  D3/12/11: 36.

[38] Veja-se ainda D3/12/9: 89 e D3/12/11: 36.

[39] D3/12/11: 64.

[40] H. Kurz, Sraffa’s Contribution to Economics. Some Notes on his Unpublished Papers, in S. Nisticò, D. Tosato (sob a direção de ), Competing Economic Theories. Essays in Memory of Giovanni Caravale, London, Routledge, 2002, pp. 177-196,em especial p. 185

[41] D3/12/7: 103.

[42]Veja-se G. De Vivo, Sraffa’s Path to Production of «Commodities by Means of Commodities». An Interpretation, “Contributions to Political Economy”, XXII, 2003, pp. 1-25; G. Gilibert, The Equations Unveiled: Sraffa’s Price Equations in the Making, “Contributions to Political Economy”, XXII, 2003, pp. 27-40.

[43] D3/12/9: 11

[44] G. Gilibert, The Equations Unveiled cit., p. 36

 


Riccardo Bellofiore [1953 – ], é professor de Economia na Universidade de Bergamo. Os seus interesses estão na teoria marxista do valor, a abordagem macromonetária em termos de circuitos e minskianos, a filosofia económica e o desenvolvimento e a crise do capitalismo. É conhecido internacional mente como o fundador da Teoria do Circuito Monetário. Integra a comissão científica para a edição completa das obras de Marx e Engels e do Simpósio Internacional sobre a Teoria Marxista. Publicou recentemente Le avventure della socializzazione (Mimesis, 2018) e editou, com Giovanna Vertova, The Great Recession and the Contradictions of Contemporary Capitalism (Edward Elgar, 2014) e Ai confine della docenza. Per la crítica dell’università (Accademia Universit Press Press, 2018). Em 2019 publicou Euro al capolinea? La vera natura della crisi europea.

 

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