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Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 2 — Texto 1: Um triângulo na tradução francesa da Teoria Geral: Keynes, Sraffa, Jean de Largentaye (1/3), por Ghislain Deleplace

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 2 – De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia

 

Nota de editor: devido à extensão deste texto, o mesmo será publicado em três partes. Hoje a primeira.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Texto 1 – Um triângulo na tradução francesa da Teoria Geral: Keynes, Sraffa, Jean de Largentaye (1/3)

 Por Ghislain Deleplace

Publicado por  em Novembro de 2021, ver original aqui ou aqui

 

Resumo

O documento estuda a correspondência trocada em 1938-1939 entre Keynes e o tradutor francês da Teoria Geral, Jean de Largentaye, e entre Keynes e Sraffa sobre esta tradução. O foco está em algumas dificuldades analíticas levantadas nesta correspondência. Após ter descrito as circunstâncias do envolvimento de Sraffa, o documento evoca um desacordo entre Keynes e Largentaye sobre o tipo de linguagem que deveria ser utilizada num livro como a Teoria Geral. Uma secção trata de esclarecimentos e melhorias trazidos pela correspondência, particularmente sobre o tratamento dos lucros dos empresários e sobre o comportamento dos credores e devedores, mutuantes e mutuários, numa crise financeira. Outra secção estuda uma importante alteração ao Capítulo 17 sobre o conceito de taxa de juro própria. Esta alteração foi sugerida por Largentaye e aceite por Keynes no contexto de várias críticas expressas noutros locais por Pigou, Hicks e Sraffa.

 

1. Introdução

Nunca houve uma segunda edição da Teoria Geral. Numa carta a Ralph Hawtrey de 31 de Agosto de 1936, Keynes escreveu que estava “a pensar em produzir no decurso do próximo ano, mais ou menos, aquilo a que se poderia chamar notas de rodapé do meu livro anterior, lidando com várias críticas e pontos particulares que merecem ser aprofundados”. (Keynes, 1971–1989, XIV, p. 47; ênfase de  JMK) As circunstâncias, porém, não lhe permitiram fazê-lo, particularmente o seu ataque cardíaco no início de 1937 e a Segunda Guerra Mundial que começou na Europa em Setembro de 1939. Durante este período, três artigos publicados (Keynes, 1937a, 1937b, 1937c) e o material contido no Vol. XIV dos seus Collected Writings dão indicações sobre o que poderiam ter sido estas “notas de rodapé” [1]. Material adicional desse período, até agora não publicado, pode ser encontrado na correspondência trocada entre Keynes e o tradutor francês da Teoria Geral, Jean de Largentaye, durante a preparação da tradução [2]. Esta correspondência prolongou-se de 31 de Janeiro de 1938 a 22 de Junho de 1939. A publicação do livro estava agendada para 15 de Setembro de 1939, mas a eclosão da guerra interrompeu o processo e finalmente saiu no Outono de 1942, sob o título traduzido literalmente Théorie Générale de l’Emploi, de l’Intérêt et de la Monnaie (sobre vários aspetos desta publicação, ver Deleplace, 2013, H. de Largentaye, 2019)

Esta correspondência é composta por dezasseis cartas de Largentaye a Keynes (treze esobreviveram; três são mencionadas nas cartas de Keynes mas não sobreviveram) e treze cartas de Keynes a Largentaye (todas presentes) [3]. A questão interessante nestas cartas é que não se referiam apenas a aspetos práticos e terminológicos da tradução, mas também a questões analíticas levantadas pelo próprio livro e apontadas pelo tradutor. Este interesse é tanto mais vívido quanto um terceiro esteve envolvido: Piero Sraffa. Ao receber os rascunhos da tradução, Keynes pediu o seu conselho, conforme testemunhado por duas cartas de Keynes a Sraffa e duas de Sraffa a Keynes. Sraffa encontrou-se mesmo com Largentaye em Paris, em Janeiro de 1939, para discutir o assunto. As observações de Sraffa podem assim ser colocadas na perspetiva da sua avaliação da Teoria Geral contida nas notas que foram encontradas no seu próprio exemplar do livro.

O presente documento é sobretudo dedicado ao estudo de algumas dificuldades analíticas levantadas na correspondência entre Keynes e Largentaye. A secção 2 descreve rapidamente esta correspondência e as circunstâncias do envolvimento de Sraffa; também evoca um desacordo entre Keynes e o seu tradutor francês sobre o tipo de linguagem que deve ser utilizada num livro como a Teoria Geral. A secção 3 trata dos esclarecimentos e melhorias trazidos pela correspondência, particularmente sobre o tratamento dos lucros dos empresários e sobre o comportamento dos mutuantes e mutuários numa crise financeira. A secção 4 trata de uma importante alteração ao Capítulo 17, sugerida por Largentaye e aceite por Keynes no contexto de várias críticas expressas noutros locais por Pigou, Hicks, e Sraffa. A secção 5 é a conclusão .

No que se segue, as abreviaturas são: JMK para John Maynard Keynes, JdL para Jean de Largentaye (o tradutor), GT para The General Theory of Employment, Interest, and Money.

 

2. O famoso economista, o académico e o funcionário público

2.1. O aval de Keynes à avaliação da tradução por parte da Sraffa

Em 10 de Maio de 1938, Keynes escreveu a Sraffa, pedindo o seu conselho sobre dois rascunhos de tradução que tinha recebido de Largentaye: Capítulo 11 (“A Eficiência Marginal do Capital”) e um quadro de equivalência entre as duas línguas para vinte e nove termos utilizados em GT. Este pedido foi aparentemente motivado pela primeira reação negativa de Keynes:

Ele [Largentaye] envia-me agora uma versão de um capítulo e, por sugestão minha, uma tabela de equivalentes para certos termos técnicos. À primeira vista, parece-me que vários dos seus termos estão realmente perigosamente errados. Alguns deles porque não parecem ser o equivalente técnico correto; mas outros, o que é mais alarmante, porque ele de forma irremediavelmente errada não entendeu o que eu quis dizer. Fico-lhe muito agradecido de me dar a sua opinião geral”. (JMK para Sraffa, 10/05/38; 79)

Sraffa respondeu dois dias mais tarde. O seu julgamento foi devastador:

Li isto cuidadosamente, comparando-o com o original, e a minha conclusão é que se trata de um tradutor pobre. É bastante claro que ele não conhece o assunto, e joga pela segurança ao ser literal; o resultado é uma lamentável prosa francesa. Por outro lado, ele conhece bem o inglês, e eu não notei nenhum mal-entendido importante na construção ou na linguagem comum […]: este é um ponto realmente importante a seu favor. Mas o que é alarmante é, como diz, o seu completo desconhecimento dos termos técnicos: ele está obviamente a tentar traduzi-los com a ajuda de um dicionário ou pela utilização da linguagem de negócios. Ele deve tê-los aprendido lendo os Princípios de Marshall em francês, o artigo de Lerner na Revisão I.L.O., e a Revisão de Étienne Mantoux da G.T. na Rev. d’Ec. Pol. (Nov.-Dez. 1937)”. (Sraffa a JMK, 12/05/38; 80) [4]

Sraffa anexou um glossário (“que pode ser útil ao seu tradutor”), feito depois do de Mantoux que “muito sensatamente, afrancesou [sic] os seus termos técnicos – e soa bastante bem”. Também fez ‘algumas comparações entre os dois glossários’ e apontou ‘outros erros’ na tradução do Capítulo 11. Concluiu então:

De um modo geral, penso que não pode permitir que ele continue a fazer assim. Ele deveria a) familiarizar-se com os termos técnicos, e b) estar sob a supervisão de um economista competente. Mantoux, que em vários pontos do seu artigo demonstra estar interessado no problema de colocar os seus termos técnicos em francês, pareceria uma ideia muito adequada”. (ibidem).

O assunto foi provavelmente discutido oralmente por Keynes e Sraffa-que na altura pertenciam ambos ao King’s College – desde que, como mencionado no topo da carta, Sraffa “reviu” a sua carta a 1 de Junho. Os aspetos mais desagradáveis foram riscados e substituídos (pela mão de Sraffa a lápis) por uma nova formulação mais apta a ser comunicada ao tradutor. O resto da carta permaneceu inalterado, com a exceção da conclusão que foi simplesmente eliminada. Na sua própria carta a Largentaye – à qual se juntou a datilografia das observações de Sraffa – Keynes, contudo, subscreveu esta conclusão, testemunhando a confiança que depositou no juízo do seu amigo e também as suas próprias reservas sobre a tradução:

Depois de receber a sua carta, fiquei muito descontente com a sua seleção de termos técnicos, que me parecem insatisfatórios ou mesmo errados num bom número de casos. Submeti-a, portanto, a um amigo economista que conhece muito melhor o francês do que eu. Como verão pela cópia da sua carta que anexo, ele confirma o meu sentimento e faz algumas sugestões.

Estas, naturalmente, apenas cobrem os pontos que surgem na lista que me enviou e no pedaço de tradução. Com vista a uma maior precaução no futuro, tenho duas sugestões a fazer: Em primeiro lugar, penso que faria muito melhor, onde eu utilizo um termo que me é próprio, se fizesse uma tradução bastante literal, mesmo que isso não seja um bom francês. […] Em segundo lugar, creio que seria muito útil se pudesse convencer M. Mantoux (que era meu amigo nos velhos tempos) a analisar os seus termos técnicos, uma vez que a sua recensão do meu livro mostrou que ele tinha uma compreensão muito satisfatória do seu significado. Em todo o caso, estou certo de que este assunto necessita de uma atenção muito cuidadosa, uma vez que tenho a certeza de que muitos dos termos que utilizou tornariam muitas passagens ininteligíveis ou pelo menos enganadoras para os leitores franceses”. (JMK, 02/06/38; 88) [5]

Para superar estas reservas iniciais seriam necessárias outras trocas de cartas entre o autor e o tradutor.

A 12 de Dezembro de 1938, Sraffa reenviou a Keynes o projeto do Capítulo 17 (“As Propriedades Essenciais de Juro e Dinheiro”) e a “nova lista de termos técnicos” que tinha recebido para aconselhamento. Na sua carta de apresentação o seu julgamento foi mais positivo do que sete meses antes, exceto no que diz respeito à linguagem francesa:

De um modo geral, é notável como ele compreende bem o inglês e a economia: não há gritos de raiva – com exclusão do queijo verde […]. É também perfeitamente analfabeto: o seu francês é vergonhoso – está ao mesmo nível que o “français de cuisine” [francês de cozinha], de que os menus do rei são um exemplo. É inútil para si ou para mim tentar melhorá-lo com críticas detalhadas: não podemos ensiná-lo, e de qualquer forma ele não pode aprender. Além disso, é melhor não o desencorajar nesta fase, e até que ele tenha terminado o seu trabalho – que é o de fazer sair o seu livro do inglês. Depois, caberá ao editor, ou a ele próprio, encontrar um francês que conheça a sua própria língua e possa pôr o seu esperanto em francês. Contudo, isso é relativamente fácil: há muito mais pessoas em França que sabem escrever bem do que há de pessoas que entendem um argumento económico. Não tenho dúvidas de que mesmo sem a sua intervenção numa fase posterior, a editora não permitiria que este tipo de coisas possa chegar a público”. (Sraffa a JMK, 12/12/38; 101) [6]

O entendimento “notável” de Largentaye sobre “a Economia”, na opinião de Sraffa, é ilustrado pelo facto de que, no apêndice de duas páginas e meia escrito à mão sobre a tradução do Capítulo 17 anexado por Sraffa à sua carta, todas as observações eram de carácter terminológico, e nenhuma analítica. Isto é tanto mais notório quanto, como Keynes tinha escrito anteriormente ao seu tradutor, “certamente escolheu como teste o capítulo mais difícil de todos para apresentar”. (JMK, 12/11/38; 97) Mais ainda, Sraffa estava numa boa posição para avaliar a compreensão de Largentaye do Capítulo 17, porque estava na origem do conceito de “taxa de juro específica ou própria” desenvolvido por Keynes nesse capítulo (ver secção 4 abaixo).

Tal como tinha feito para a avaliação anterior, Keynes apoiou as sugestões de Sraffa, mesmo que contra a sua própria opinião:

“[No apêndice] estão os comentários do meu amigo sobre o seu texto e sobre as minhas dúvidas. Em alguns casos, ele passou-lhe as minhas questões sem comentários; por vezes confirmou-as; e por vezes rejeitou-as. Ele também levantou vários pontos novos”. (JMK, 22/12/38; 107)

A opinião geral de Keynes sobre a compreensão económica e a expressão estilística de Largentaye também foi igualmente a que Sraffa lhe apresentou, e Keynes parafraseou-a no plural, transformando apenas o ‘français de cuisine’ em ‘dog French’ e tornando a crítica mais aceitável:

De um modo geral, a nossa impressão é que neste capítulo difícil tem tido um êxito notável na compreensão do significado do inglês e da teoria económica. Como verá pelos nossos comentários, não existem praticamente erros definidos, para além de um mal entendido da curiosa comparação inglesa entre a lua e o queijo verde. […] Por outro lado, num assunto em que não podemos falar com igual autoridade, não fomos tão claros de modo que as emendas podem não se revelar aconselháveis. Pareceu-nos que, no esforço de obter o significado exato do original, tinha corrido o risco de produzir uma versão francesa que não era suficientemente idiomática, e assim um pouco na natureza do que as pessoas da escola inglesa chamam “dog French” da analogia do “dog Latin”, se tiver um equivalente francês para isso. Uma vez que esteja satisfeito que o significado em inglês tenha sido fielmente transformado numa espécie de francês, poderá ser útil reconsiderar o texto do ponto de vista mais literário ou estilístico, conseguindo que algum amigo francês, que não esteja tão familiarizado com a versão inglesa como você, lhe dê a sua opinião a partir desse ponto de vista. (ibid.) [7]

Podemos ficar surpreendidos com a dureza com que um nativo italiano e um inglês julgaram o francês escrito por um nativo francês, mais ainda um alto funcionário público acostumado a escrever relatórios oficiais. Mas a análise do projeto de tradução do Capítulo 17, devolvido por Keynes ao seu autor e hoje guardado pela família Largentaye, mostra que Largentaye levou a sério os seus conselhos críticos. A datilografia de trinta páginas parece ter sido fortemente riscada na letra azul de Largentaye: não há uma única página sem uma modificação, a maioria das páginas exibindo alterações de palavras por dezenas e frases inteiras sendo reescritas mesmo na ausência de qualquer observação por Keynes ou Sraffa. Além disso, das vinte e três sugestões estilísticas feitas por Sraffa na sua nota [8], todas exceto uma foram aceites por Largentaye, que, por exemplo, adotou a tradução de Sraffa de “taxa de juro própria” para “taxa de juro específica” e a redação de uma frase conclusiva crucial sobre o papel da taxa de juro monetária (Keynes 1942, p. 251).

As reservas de Keynes e Sraffa sobre os testes de Largentaye não foram no entanto apenas “literárias ou estilísticas”; resultaram de uma divergência sobre o que deveria ser uma tradução exata. Esta divergência apareceu em plena luz na escolha dos termos franceses.

 

2.2. A escolha dos termos franceses: ‘equivalentes adequados’ ou ‘palavras do dia-a-dia’?

A preferência de Keynes por uma tradução tão próxima quanto possível do original deve ser vista na sua relutância em aceitar a forma como Largentaye abordou o problema da ‘lista de termos técnicos’. Tal lista foi uma sugestão de Keynes, inspirada pelo que tinha sido feito na edição alemã:

“A tarefa mais importante, penso eu, é obter equivalentes adequados para o meu conjunto de termos técnicos. O meu tradutor alemão deu-se a um trabalho especial e, de facto, forneceu, no final do volume, uma tabela dos equivalentes entre o inglês e o alemão dos termos que tinha adotado. Penso que poderia ser útil se me deixasse ter uma lista das suas sugestões a este respeito”. (JMK, 09/04/38; 60)

Um ‘Projeto de tabela de correspondência entre o texto original e a versão francesa da obra de M. Keynes’ aparece  com a carta de Largentaye de 8 de Maio de 1938. Incluía vinte e nove palavras e expressões; a doze delas, Sraffa opôs-se a 12 de Maio. Depois de Keynes lhe ter enviado as críticas e sugestões de Sraffa com a sua carta de 2 de Junho de 1938, Largentaye defendeu a sua posição:

Pelas observações que fez, percebo que não concebi esta obra no espírito que deseja. A minha principal preocupação, de facto, era tornar a tradução tão fácil de compreender quanto possível para os leitores que não são estudantes de economia política. É por isso que fiz uso, tanto quanto possível, de palavras pertencentes ao quotidiano, ou à linguagem empresarial. Até submeti vários destes termos a um amigo meu que é banqueiro e alterei-os até que a tradução lhe pareceu fácil de compreender. À luz das suas observações, vejo que este método tem sido prejudicial à exatidão das ideias expressas e à lógica do raciocínio. Por conseguinte, abandoná-lo-ei e farei uma tradução mais literal, como recomenda, em particular quando utiliza termos próprios”. (JdL, 11/06/38; 90)

A abordagem “diária” de Largentaye à tradução foi claramente contraditória com o objetivo da TG, como Keynes a expôs no prefácio da edição inglesa:

“Este livro é dirigido principalmente aos meus colegas economistas. Espero que seja inteligível para os outros. Mas o seu principal objetivo é lidar com questões difíceis de teoria, e apenas em segundo lugar com as aplicações desta teoria à prática. […] Os assuntos em questão são de importância que não podem ser exagerados. Mas, se as minhas explicações estiverem certas, são os meus colegas economistas, e não o público em geral, que tenho de convencer primeiro. Nesta fase da discussão, o público em geral, embora bem-vindo ao debate, é apenas “espião”. (Keynes, 1936, p. xxi) [9]

Na sua resposta manuscrita à carta de Largentaye, Keynes insistiu:

A dificuldade é que muitos dos meus conceitos não correspondem exatamente a quaisquer termos na utilização atual; e há um grande risco de sugerir as nuances erradas se estes últimos forem utilizados. É importante explicar os novos termos de forma muito clara. Mas não creio que isso ajude a uma compreensão clara a utilização de termos que são suscetíveis de apresentar ao leitor uma associação antiga de significados, não exatamente a mesma que a minha”. (JMK, 17/06/38, sublinhado por JMK; arquivos de JdL)

Uma nova lista de termos técnicos” foi enviada por Largentaye a 26 de Outubro de 1938. Foi introduzida da seguinte forma:

‘Elaborei esta lista aproximando-me tanto quanto possível do sentido das noções que utiliza’. Segundo o seu conselho, solicitei o conselho do Sr. Mantoux, que após um exame minucioso, me disse que estes termos lhe pareciam os mais apropriados para expressar os seus conceitos em francês (JdL, 26/10/38; 92)

Três expressões foram alteradas a 7 de Novembro, após “várias conversas com amigos”. Keynes reagiu de forma mais positiva: “À primeira vista, gosto muito mais da sua nova lista de termos técnicos” (JMK, 12/11/38; 97); queria no entanto consultar novamente Sraffa. Entretanto, Largentaye tinha enviado uma nova lista em 14 de Novembro, e enviaria outra em 23 de Novembro. Esta lista foi comunicada por Keynes a Sraffa com o projeto da tradução do Capítulo 17. Sraffa devolveu “os documentos franceses” a Keynes a 12 de Dezembro, com a avaliação de apreciação acima citada. Finalmente, ‘a sua tabela de termos equivalentes’ foi enviada por Keynes a Largentaye, com a explicação: ‘os comentários a lápis na margem são os meus. Afixados na mesa estão os comentários do meu  amigo [Sraffa]”. (JMK, 22/12/38; 107) Foi muito provavelmente discutido por Largentaye e Sraffa quando se encontraram em Paris em janeiro de 1939 [10]. Infelizmente, esta lista anotada não se encontra atualmente disponível.

 

(continua)

 


Notas

[1] Em 1997, G. C. Harcourt e P. A. Riach publicaram uma ‘segunda edição’ da Teoria Geral em dois volumes (Harcourt e Riach, 1997) que continha ensaios de uma ampla gama de estudiosos sobre o que Keynes poderia ter escrito nessas ‘notas de rodapé’.

[2] A correspondência entre Keynes e Largentaye é mantida nos documentos Keynes do King’s College, Cambridge (Reino Unido), sob a referência King’s/PP/JMK/GTE 3. Este ficheiro contém as cópias em carbono das cartas enviadas por Keynes e os originais das cartas por ele recebidas. Os originais das cartas de Keynes foram depositados pela família Largentaye em King’s e são conservados no ficheiro GTE 3A. No presente documento, salvo indicação em contrário, qualquer referência a esta correspondência cruzada será dada da seguinte forma: autor da carta (JdL ou JMK), data, numeração no ficheiro GTE 3 (mencionei apenas o primeiro número do documento; se contiver mais de uma página, cada uma será numerada sucessivamente na classificação dos arquivos do Rei). Quando uma carta de Keynes não é dirigida a Largentaye, o destinatário é mencionado após JMK.

[3] Mais dez cartas foram trocadas entre Keynes e Largentaye (cinco de autoria de cada uma delas) após a conclusão da tradução em junho de 1939. Estendem-se de 12 de Maio de 1940 a 3 de Março de 1943 e dizem respeito aos acontecimentos (alguns deles de natureza política) que atrasaram a publicação (ver Deleplace, 2013). Na sua última carta, datada de 4 de dezembro de 1942, Largentaye anunciou a publicação e disse a Keynes que a edição das edições de 2000 parece já estar esgotada. É extremamente difícil encontrar qualquer exemplar nos livreiros. Por favor, procure um neste documento. (JdL, 04/12/42; 151) Keynes reconheceu a recepção do volume três meses depois — o que dá uma ideia da duração das comunicações na altura, mesmo através de canais diplomáticos (neste caso, Hugh Ellis-Rees, representante Britânico em Madrid). Na sua resposta, Keynes fez uma observação tristemente irónica sobre a França ocupada:’é realmente notável que a edição tenha sido tão prontamente esgotada—embora eu suponho que há muitas pessoas em França hoje que não têm nada melhor a fazer do que pensar no futuro e não no presente’. (JMK, 03/03/43; 155)

[4] A 4a edição dos princípios de Economia De Marshall foi publicada em francês em 1906 (Marshall, 1906). A revisão de Lerner do GT foi publicada em inglês e em francês na revisão da Organização Internacional do trabalho (Lerner, 1936). A resenha de Mantoux foi publicada na Revue d’ Économie politique (Mantoux, 1937). Etienne Mantoux (1913-1945) foi educado na Inglaterra e seguiu o ensino de Hayek na London School of Economics. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele estudaria em Princeton, onde escreveu a Paz cartaginesa ou as Consequências económicas do Sr. Keynes, uma forte crítica ao Livro de Keynes de 1919 contra o Tratado de Versalhes. Ele morreu em combate nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial e seu livro foi publicado postumamente em 1946.

[5] Keynes estava errado sobre a sua amizade com Mantoux: o que ele tinha conhecido durante a Conferência de paz em 1919 foi Paul Mantoux (1877-1956), o historiador económico e o pai do revisor do GT, Étienne. Largentaye sugeriu esta filiação na sua carta de 11 de junho de 1938, uma sugestão aprovada por Keynes na sua resposta de 17 de junho.

[6] No King’s College, como em outras faculdades de Cambridge, os menus da mesa alta — o reservado aos académicos — foram (e ainda são hoje) escritos em francês.

[7] O equivalente francês da famosa metáfora do ‘ queijo verde ‘foi o único ‘erro’mencionado por Sraffa na sua carta a Keynes, e a sua solução foi jogar literalmente: ‘a propósito, não sei se existe um equivalente francês, mas se existe, estou certo de que ele [Largentaye] não o encontrará: o caminho mais seguro é que você [Keynes] sugira uma versão pedestre que ele possa traduzir literalmente (“quando as pessoas querem uma coisa impossível…”)’. (Sraffa à JMK, 12/12/38; 101) sobre este assunto, Keynes foi pedagógico: ‘dizem às crianças inglesas que a Lua é feita de queijo verde, e a partir disso podem ser feitas várias imagens! Se existe algum equivalente francês para isso, não faço ideia. Estava a combinar esta noção com outro ditado inglês, pelo qual pedir a lua significa pedir uma coisa impossível. Estava a combinar as ideias de que a Lua é uma coisa impossível, que é feita de queijo verde e que o queijo verde, como o papel-moeda, pode ser fabricado. Melhor, talvez, desistir da tentativa de um equivalente francês e abandonar toda a metáfora elaborada!(JMK, 22/12/38; 107) aproveitando-se de uma expressão semelhante em francês para ‘pedir a lua’ (‘demander la lune’), Largentaye usou-a no texto francês (‘Cela revient extraterren dire que le chosevmage se d@veloppe parce qu’on demande la lune’; Keynes, 1942, pág. 252) e traduziu ‘queijo verde’ para ‘fromage’, fornecendo na nota de rodapé de um tradutor a explicação de Keynes sobre a ligação com a Lua para a qual não havia equivalente em francês (‘En Angleterre on raconte aux enfants que la lune est un fromage’; ibid.).

[8] Em cinco outros casos, Sraffa confirmou simplesmente a escolha de Largentaye contra a sugestão de Keynes.

[9] O prefácio da edição francesa, enviado por Keynes a Largentaye em 21 de fevereiro de 1939, reitera este propósito, embora com alguma qualificação: ‘e este estado de espírito da minha parte é a explicação de certas falhas no livro, em particular a sua nota controversa em algumas passagens, e o seu ar de ser dirigido demais aos detentores de um ponto de vista particular e muito pouco ad urbem et orbem. Queria convencer o meu próprio ambiente e não me dirigi com suficiente franqueza a opiniões externas. Agora, três anos depois, tendo-me habituado à minha nova pele e quase esquecido o cheiro da minha antiga, devo, se estivesse a escrever de novo, esforçar-me por me libertar desta falha e declarar a minha própria posição de uma forma mais clara. (Original em inglês da JMK, reproduzido em Keynes, 1971-1989, VII, p. xxxi) é evidente que Keynes não estava disposto a permitir que o seu tradutor francês adoptasse uma forma mais clara.

[10] Mais de vinte e cinco anos depois, Sraffa e Largentaye voltariam a encontrar-se em Paris. Entretanto, Largentaye tinha-se tornado director executivo Francês permanente do FMI e tinha dedicado um grande interesse às iniciativas que promoviam um padrão de mercadorias como substituto do padrão do ouro ou do dólar. Depois de ler a Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias de 1960 de Sraffa, escreveu-lhe, elogiando a sua “contribuição inestimável para a definição correcta do “padrão das mercadorias” em qualquer sistema económico”. (JdL para Sraffa, 03/11/64), e sugeriu que se demorasse algumas horas a discutir a questão. Sraffa respondeu: ‘Tenho uma recordação viva do nosso encontro em Paris em 1939 e gostaria que pudesse ser renovado. [ … ] Fiquei muito satisfeito por saber do seu interesse no meu livrinho. Gostaria muito de discutir convosco o problema de uma norma de mercadorias (Sraffa to JdL, 09/11/64). Finalmente, encontraram—se em Paris em setembro de 1965, mas infelizmente nada sobrevive dessa reunião, excepto o filho mais velho de Largentaye, recordando que o seu pai – apenas cinco anos mais novo que o seu interlocutor – esteve com Sraffa como um aluno com o mestre.

 


Ghislain Deleplace é Professor Emérito de Economia na Universidade Paris 8 em Saint-Denis, França

 

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