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PALCO 220 – ORFEU E EURÍDICE – por Roberto Merino

 

 

O presente artigo está motivado pela estreia na próxima semana, no Teatro das Marionetas do Porto/TMP, do espectáculo nº 59, Orfeu e Eurídice, numa versão muito particular que conjuga os elementos clássicos do mito com elementos de cultura popular.

Confesso que não me lembro quando tomei conhecimento desta figura mitológica, mas tenho a impressão que foi muito cedo, na infância ainda, ou contada pelo meu pai, professor de filosofia, ou pesquisada por mim nos livros sobre mitologia que havia em casa.

Mais tarde seria o filme Orfeu Negro, de 1959, do qual tenho uma recordação muito forte. O enredo, inspirado na mitologia grega, foi adaptado e ambientado em uma favela do Rio de Janeiro, na época do Carnaval. Eurídice vem fugida do sertão nordestino para morar na favela com sua prima Serafina. Ela tem medo de um homem que a persegue e quer matá-la, ela não sabe o motivo, mas julga que é por ela ser indiferente a ele.

Na cidade Eurídice apaixona-se perdidamente por Orfeu, que é noivo da bela e sedutora Mira. Eurídice conhece o carnaval carioca ao lado de Orfeu, mas sempre se apavora e corre quando vê que o tal homem está perto. Em certa forma o frenesim do carnaval feérico se transforma no Hades Grego.

Realizado por Marcel Camus, o argumento foi adaptado por Camus e Jacques Viot a partir da peça teatral Orfeu da Conceição de Vinícius de Moraes. A canção Felicidade de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, iria completar o espirito brasileiro emocionante deste filme.

No ano de 1999 uma nova versão/remake foi realizada com o título de ORFEU. Nesta versão a música é de autoria de Caetano Veloso   e de Gabriel, o Pensador, que apontam:

“Nosso carnaval
É filho dos rituais das bacantes
Do coro das tragédias gregas
Das religiões afro-negras
Das procissões portuguesas católicas…

(” História do Carnaval Carioca” -Caetano Veloso, Gabriel O Pensador)

Mais tarde, para mim, seria o filme de Jean Cocteau que revisita novamente este tema (o filme é de 1950, mas eu o vi mais tarde que o primeiro aqui citado). Orfeu (Jean Marais), famoso poeta em fase entediada, apaixona-se obsessivamente por uma Princesa (Maria Casares), a Morte. Enciumada, arquiteta a morte de Eurídice (Marie Déa), desprezada esposa de Orfeu.

A versão cinematográfica de 1950 não é uma repetição do relato mítico clássico. O espírito da tragédia grega é mantido como uma história de sacrifício, um épico que mescla romance com aventura. Porém, o surrealista Jean Cocteau não quer dar à lenda uma simples adaptação audiovisual: o seu argumento é uma adaptação narrativa também. Quando questiona, no começo, onde e em que época a história se passa, faz com que o espectador perceba tratar-se da França pós-guerra. A tranquilidade do café em que Orfeu se encontra é interrompida por uma confusão geral, quando a polícia entra para pacificar o contexto conflituoso. Trata-se de clara alusão à invasão nazista sofrida pela França, que foi tomada pelas tropas de Hitler. In Filme assistido durante a cobertura da 11ª edição do My French Film Festival.

No nosso espetáculo duas óperas são citadas, a de C.W. Gluck e a de Jacques Offenbach, a sua versão irreverente do mito que coloca as personagens no centro do Can-Can francês, deliciosa versão, que não podia deixar de ser citada.

Tomando como base o mito de Orfeu, que está presente nos versos 1-85 do Livro X das Metamorfoses de Ovídio, construímos um espetáculo de marionetas que segue o percurso do jovem herói filho de Apolo (em algumas versões, em outras Eagro); o seu casamento com Eurídice, a morte desta e o intento do resgate do Orfeu do reino do Hades.

O espetáculo interpreta o mito através da riqueza e das propriedades linguísticas e literárias presentes no texto latino que, sem dúvida, conferem maior expressividade ao poema sobre um dos mitos mais célebres da mitologia grega, de Orfeu e Eurídice. Uma comovente história de amor, recontada pelo grande poeta latino Ovídio.

Depois do Fausto de Marlowe em 2015, encenado por mim, esta versão de Orfeu compõe um díptico de textos clássicos interpretados pelas marionetas do TMP.

Orfeu e Eurídice tem ficha técnica de; Encenação e dramaturgia – Roberto Merino

Assistente de encenação – Mário Moutinho

Texto a partir do poema Metamorfoses de Ovídio

Marionetas – Hugo Flores

Cenografia – Filipe Azevedo, Hugo Flores e João Pedro Trindade

Música original – João Loio

Desenho de luz e sonoplastia – Filipe Azevedo

Figurinos – Inês Mariana Moitas

Personagem da sereia – Joaquim Pires

Interpretação – Mário Moutinho, Micaela Soares, Flora Miranda e Vítor Gomes

Produção – Sofia Carvalho

Construção de marionetas e adereços – João Pedro Trindade e Catarina Falcão

Operação de luz e som – Filipe Azevedo

Espectáculo e 27 de junho a 7 de julho, quinta à Sábado às 19 horas – domingo às 16. No Teatro de Belomonte, Rua de Belomonte 57/Porto. Telef 222089175

Bilheteira: https://marionetasdoporto.admira.b6.pt/pos/event/list

 

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