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CARTA DE BRAGA – “do iluminismo ao espectáculo” por António Oliveira

O editorial de um grande jornal europeu, publicado já nos últimos dias de Junho, referindo o avanço da extrema direita na Europa, explica que vemos há já algumas décadas, estarem a ser negados os princípios do Iluminismo ‘Todos os homens nascem livres, iguais e racionais’, a ser substituída por ‘Um conceito de homens agressivos (combatividade), hierárquicos (desigualdade) e territorializados (identidade)’.

Escreve ainda o editorialista, serem estas as ideias-força que servem de abono a todos aqueles partidos, onde as causas vão do individualismo (pessoas desordenadas que se sentem livres, convencidos de que a Sua realidade material é consequência directa das próprias acções), afinal o fim da ideia de comunidade, transformação e perda social de valores, híper materialismo, consumismo acrítico, hostilidade política, a economia controlada pelas elites da globalização, até à estupidificação da sociedade do espectáculo, seguindo aliás, uma das máximas de Thatcher, ‘A sociedade não existe. Existem homens, existem mulheres e existem famílias’.

Alguém afirmou um dia, escritor seria por só eles saberem quando as palavras ficam doentes e, a pensar bem no editorial, não me importo de citar George Orwell, por ter escrito qualquer coisa como isto (sem saber se serão exactamente estas as palavras) devemos reconhecer que o caos político actual, está relacionado com a decadência da linguagem e, citando-o agora ‘A decadência da nossa língua é provavelmente curável. Quem o negar argumentará, que a língua se limita a reflectir as condições sociais existentes, e que não podemos influenciar o seu desenvolvimento através de qualquer conserto directo de palavras e construções. No que respeita ao tom geral ou espírito de uma língua, isto pode ser verdade, mas não é verdade no pormenor’.

Tudo isto porque, continuando a citar Orwell, ‘No nosso tempo, não entrar na política é coisa que não existe. Todas as questões são políticas, e a própria política é uma massa de mentiras, fugas, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral é má, a linguagem tem de sofrer; tem de sofrer, uma vez que ‘O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade. Quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objectivos e os objectivos declarados, voltamo-nos, como que instintivamente, para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta’.

Umas dezenas de anos depois, o filósofo canadiano e especialista em comunicação Marshall McLuhan, referindo este problema numa sociedade cada vez mais dividida e compartimentada, pelas distintas e diversas teorias e crenças ideológicas, fortalezas virtuais frequentadas por indivíduos que recusam partilhar conceitos e pensamentos com os concidadãos, salientou bem ‘Os homens criam as ferramentas, e as ferramentas recriam os homens’.

Obviamente que, para isso, colaborou e continua a contribuir, o extraordinário poder dos meios audiovisuais, agora a serem potenciados por uma IA que ninguém sabe exactamente o que poderá ser, mas que todos querem, mesmo sem se actualizarem com updates mentais, sem verem que, mesmo sem ela, nos põem o mundo em cima da mesa a qualquer instante; de acordo com a ´doutrina do shock’ de Naomi Klein, ‘Políticos espertos ou inteligentes, aproveitam situações caóticas, como guerras ou desastres naturais, para tomar medidas que, em tempos serenos, a população jamais aceitaria’.

Como escreveu também e, a propósito, poeta e ensaísta Luis Garcia Montero, ‘Nostalgia do Iluminismo. Que estamos a fazer mal? Passem um bocado com os filhos a ver filmes no TikTok e, mesmo sem falar de política, e talvez intuam a resposta. Somos um mau espectáculo!

 António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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