A grande poeta americana Emily Dickinson, nascida em 1830, dizia: “O Cérebro é mais amplo do que o Céu”. Tratar-se-ia de um verso para um belo poema, ou de uma qualquer lucidez visionária? Ao dizê-lo, Emily nem sonhava que o nosso cérebro teria tantas células ou neurónios como de estrelas tem a Via Láctea.
As duas forças a que me referi no texto anterior, a força da natureza antropocêntrica que prende o ser humano à sua condição mais palpavelmente biológica, e a força que tende a projectá-lo na sua dimensão universal, são divergentes apenas na aparência. Elas constituem duas naturezas numa só, dado que o ser humano é uno, indissociável e indivisível. Pena é que o Homem, senhor do maravilhoso fenómeno que se encontra encerrado dentro da sua cabeça e se considera a estrutura mais complexa e menos conhecida do planeta, tenda a subvalorizá-lo e a substitui-lo por fórmulas não racionais ou por necessidades básicas, hedonistas e antropocêntricas. Mais de sete mil milhões de cérebros humanos vagueiam pelo planeta, cada um transportando a sua própria realidade, sem forma de se separarem do contexto em que estão inseridos, em constante interacção com o mundo, mas desconhecendo, desaproveitando e desperdiçando, por razões várias, as suas incomensuráveis capacidades de reconfiguração e neuroplasticidade.
A nossa Mente, esse maravilhoso fruto desta frondosa árvore neuronal, em permanente maturação através do Pensamento e da sua inseparável companheira, a Razão, constitui a nossa mais ampla janela para o infinito. Quem diz a mente diz todo o desenvolvimento mental, quem diz o desenvolvimento mental diz o desenvolvimento cultural e científico, e quem diz o desenvolvimento cultural e científico diz o desenvolvimento das mais nobres e sublimes expressões do Pensamento, a verdadeira “Biologia do Espírito”, como dizia Jean-Pierre Changeux. Toda a natureza humana muda e altera em cada momento as relações do seu microcosmos com o mundo, podendo fazê-lo de forma negativa ou positiva, isto é, cortando ou abrindo as asas da mente. Nenhum de nós é exactamente o mesmo que era ontem, mas só as alterações e mudanças que levam ao saldo positivo da mente permitirão o salto positivo da mente, a travessia dessa ponte, para além da qual se dá a verdadeira evolução do ser humano. A única Ponte que permite a este insignificante e sonâmbulo bichinho olhar para o firmamento e pôr um pé na sua dimensão universal.