PALCO 237 – QUAL É A COR DO CAVALO BRANCO DE NAPOLEÃO? – por Roberto Merino
joaompmachado
Napoleão em Brienne
Desta brincadeira de infância talvez muitos ainda se lembrem…não era uma adivinha, era uma espécie de ratoeira, quase uma tautologia, como aquela mais antiga, o que veio primeiro o ovo ou a galinha…(?)
A passagem pelos cinemas do novo filme de Ridley Scott, Napoleão, deu muito que falar, colocando-se sempre a mesma pergunta: se um filme baseado numa figura histórica deve ser histórico, ou respeitar a história e não tomar certas liberdades.
Vi o filme, e confesso que me desiludiu, não alcançou o tom épico que pretendia, independentemente dos meios de produção, das cenas de luta e de guerra, e da interpretação de um actor que já tem o seu lugar na historia do cinema, Joaquin Phoenix.
Mais do que um filme épico, pareceu-me um filme romântico, baseado tudo ele na relação, quase obsessiva, de Napoleão pela sua amada Josefina.
No cinema, muitos actores já encarnaram esta personagem histórica, entre outros, Charles Boyer, Marlon Brando, Herbert Lom, e Rod Steiger.
Não esquecendo aquele que foi o primeiro Napoleão no cinema, o actor Albert Dieudonné, no filme épico de Abel Gance, filme visionário que introduziu a técnica que mais tarde daria origem ao cinerama. Neste filme uma celebridade teatral, Antonin Artaud, interpretou o papel do revolucionário Jean Paul Marat, deste filme eu e muitos espectadores temos apenas imagens fragmentadas, pois o filme ainda estava a ser restaurado na totalidade em 2023.
Lembramos que desde 1897 a personagem de Napoleão apareceu em mais de mil produções cinematográficas e televisivas, sendo provavelmente a primeira a realizada por Louis Lumière (1864-1948) com o título Entrevue de Napoléon et du pape Pio VII.
No filme de Scott, no entanto, aparecem alguns momentos históricos, como a sua ida ao Egipto e o seu diálogo visual e contacto com uma múmia egípcia em 1801- há gravuras desse momento – o exilio, primeiro em Elba (1814) e finalmente em Santa Helena (1815)
Há muitas histórias sobre Napoleão, incluso aquelas que incluem a saga dos falsos napoleões que surgiram por Europa e no mundo!
Independentemente das guerras, triunfos e derrotas, a figura de Napoleão, é sem dúvida uma das personagens mais importante e apaixonantes da história da França e o seu legado é imenso, desde o Código Napoleónico, as reformas educacionais que lançaram as bases de um moderno sistema educacional na França e em grande parte da Europa, o Sistema métrico, introduzido oficialmente em setembro de 1799.
Napoleão instituiu várias reformas, como o ensino superior, o código tributário, sistemas rodoviários e de esgoto, além de ter criado o Banco da França, o primeiro banco central da história do país. Ele negociou a Concordata de 1801 com a Igreja Católica, que procurava reconciliar a população maioritariamente católica com seu regime.
Assim, considerando o seu legado histórico no campo político, os historiadores debatem se Napoleão era “um déspota iluminado que lançou as bases da Europa moderna” ou “um megalomaníaco que causou mais miséria do que qualquer homem antes da chegada de Hitler (?)
Voltando ao ponto de partida. Jacques-Louis David (1748-1825), que foi o pintor oficial de Napoleão, pintou cinco quadros no qual aparece a nossa personagem atravessando os Alpes (*).
Num deles surge Napoleão num cavalo branco com capa amarela, noutro em igual pose com um cavalo de tons grises e capa vermelha, noutra pintura o cavalo é de cor castanha e capa vermelha.
Entre os meus livros tenho uma biografia de Napoleão do autor francês G. Lenôtre (**) aí, nos primeiros capítulos, se fala da infância de Napoleão na cidade de Brienne, no colégio militar (1779 – 1784), no qual, a nossa personagem com 10 anos apenas, teria realizado as suas primeiras escaramuças “bélicas” – Napoléon. coll. «La Petite Histoire» n° 1, Paris, Grasset.
Longe deste filme está um belíssimo retrato da época napoleónica num dos primeiros filmes realizados por R. Scott, Os Duelistas, filme de 1977. Durante as guerras napoleónicas, um oficial insulta um companheiro do exército francês e os dois tornam-se inimigos por toda a vida. Nos próximos quinze anos, os caminhos de Gabriel Feraud (Harvey Keitel) e Armand d’Hubert (Keith Carradine) cruzam-se diversas vezes, fazendo com que eles retomem a disputa em nome da honra e da soberania. Após a derrota de Napoleão, os oficiais se encontram para o último, e definitivo, duelo.
Entre as muitas histórias sobre Napoleão esta final é verídica, e está relacionada com uma das nove sinfonias de Beethoven: quando Napoleão se proclamou Imperador da França em maio de 1804, Beethoven revoltou-se e foi à mesa onde tinha a obra já pronta. Ele pegou na página-título e riscou o nome Bonaparte tão violentamente com uma faca que criou um buraco no papel. Mais tarde ele mudou o nome da obra para Sinfonia Heroica, inicialmente “composta para celebrar a memória de um grande homem”. Quem narra este episódio é Ferdinand Ries (***) que foi o seu assistente em sua biografia de Beethoven.
Notas:
(*) Napoleão cruzando os Alpes, também conhecido como Napoleão no passo de São Bernardo, ou Bonaparte cruzando os Alpes, é o título de cinco versões de um retrato pintado a óleo de Napoleão Bonaparte pelo artista francês Jacques-Louis David entre 1801 e 1805.
(**) Louis Léon Théodore Gosselin (1855 – 1935) escritor e dramaturgo francês que escreveu sob o pseudónimo de G. Lenôtre.
(***) Ferdinand Ries era filho de Franz Anton Ries (1755-1846), que foi professor de violino de Beethoven nos anos 1785-86.