As sílabas marginais/QUOTIDIANO)/Nelson Ferraz



QUOTIDIANO
um cão ladra solidão enquanto escuta as luzes
que desparecem devagar nos muros da casa.
lá dentro há um jogo de desculpas sem vencedor.
um pátio pode ser o mundo inteiro
quando o mundo inteiro é um habitual pedaço de ausência.
o frio é uma folha cheia dos acasos que a vida escreve.
entre o deserto do abandono e a cascata das estrelas
um dia o céu será uma magnólia a galopar limites.
um homem passa acorrentado às sombras da cabeça.
as ruas descalçam-se com a lentidão enevoada das horas.
da neblina pendurada nos candeeiros caem memórias
com o estrondo da jornada repetida.
as palavras anoitecem nas janelas.
o silêncio decifra todos os erros.
tudo o que existe cresce em lugares marcados
pelo paralelismo dos desencontros.
só a compaixão faz com que esses lugares se cruzem.
um cão encosta o focinho ao chão
e vê um homem que passa acorrentado às sombras da cabeça.
pela frincha do portão os seus olhares cruzam-se por um instante
e por um instante
por um pequeníssimo instante
abraçam-se demoradamente por um pequeno instante.
o pátio fica uma rua.
a rua fica um pátio.
entre o deserto do abandono e a cascata das estrelas
um dia o céu será uma magnólia a galopar limites.