SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004), “O MINOTAURO” (FRAGMENTO)

(1919 – 2004)
Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente
De um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu
Me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a
Parte que pertence aos deuses
Em Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo
Vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a
Terra
[…]
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei
A vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das
Coisas –
Porque pertenço à raça daqueles que
Percorrem o labirinto
Sem jamais perderem o fio de linho da
Palavra
Outubro de 1970
(de “Dual”, 1972)