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Policrises, Desglobalização, onde estamos, para onde vamos? — Texto 17. Sobre a desglobalização e a policrise.  Por Adam Tooze

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Texto 17. Sobre a desglobalização e a policrise 

 Por Adam Tooze

Publicado por nº 192 em 1 de Fevereiro de 2023 (original aqui)

 

Na sequência de um painel em Davos sobre a desglobalização e de uma enxurrada de comentários sobre a situação de policrise, abordei esses temas na minha coluna mensal para o FT. Graças aos meus adoráveis editores, a peça foi condensada  no jornal na sua edição de  terça-feira. Neste boletim, quero salientar alguns dos pontos enterrados na versão comprimida do artigo de opinião. As passagens entre aspas são do meu rascunho original (antes da edição pela equipa do FT):

No início de 2023, o mundo da análise e do comentário económico é marcado por uma disjunção entre discurso e dados. Por um lado, fala-se febrilmente de desglobalização e dissociação. Por outro lado, as estatísticas mostram uma continuidade inercial nos padrões de comércio e investimento.

Curiosamente, esta disjunção é evidente no próprio comentário do próprio Fórum de Davos sobre o tema e transmitida ao nosso painel.

Por um lado, temos um título que diz “Desglobalização: o que é preciso saber”. Enquanto isso, o corpo do ensaio do Fórum Económico de Davos discute não a desglobalização, mas o abrandamento, ou uma estagnação da globalização.

 

Um relatório recente de Aiyat et al. do FMI aborda a mesma realidade confusa e cunha a nova sigla – fragmentação geoeconómica (GEF).

Como a equipa do FMI deixa claro, o mundo foi transformado pela globalização.

E as tendências comerciais entre a China e o resto do mundo e entre os mercados emergentes dificilmente sugerem uma paragem súbita da globalização. Essa uma dinâmica de integração continua.

Mas há um aumento inegável do discurso antiglobalização e da consideração ativa de alternativas como o near-shoring [deslocalização com recrutamento de empregados de países vizinhos] e o friend-shoring [de países amigos].

Como conciliar então esta tensão? A minha peça do FT continua:

Existem pelo menos três formas de conciliar esta tensão. Opção um: o leitor pode agarrar-se à velha religião de que a economia sempre vence. Nesse caso, deixa de falar em desglobalização que considera um exagero jornalístico.

Poder-se-ia, por exemplo, citar a recente análise do FT, que mostra o quão difícil está a revelar-se para a Apple desembaraçar-se das suas cadeias de abastecimento chinesas.

 

À luz dos dados, essa postura desmascaradora tem ares de empirismo e senso comum. Mas para manter este ponto de vista o leitor tem, de facto, que acreditar em muitas coisas, a principal delas é que o governo Biden não quer dizer o que anda a dizer.

A justaposição que busco é entre o “senso comum, o desmascaramento empirista” e o facto de que essa postura, na verdade, se baseia em crenças bastante fortes – uma teoria subjacente de que a economia e a inércia acabam sempre por vencer. Porque se assim não for, se o leitor levar

… Washington a sério, tem dificuldade em evitar a conclusão de que, independentemente do que as estatísticas nos digam sobre a situação atual, os Estados Unidos estão empenhados em rever o sistema económico mundial. Eles pretendem voltar a dar prioridade à produção nacional e enfrentar o desafio histórico colocado pela ascensão da China. E a administração não está sozinha nisso. Se há uma coisa em que a política dividida dos Estados Unidos pode concordar, é sobre a necessidade de confrontar a China.

Pense no último conjunto de sanções que está a ser direcionada à Huawei.

Se levarmos esta visão a sério, chegaremos à opção dois: em vez de continuarmos como dantes, estamos à beira de uma nova época histórica, de uma nova Guerra Fria. E esta não é a Guerra Fria da era da détente. Em Washington, atualmente, até mesmo a coexistência com a China liderada pelo PCC está em debate.

Portanto, aqui temos tese e antítese – senso comum económico vs. confronto geopolítico e ideológico.

Esta tensão extrema pode ser mantida? Ou será resolvida dialeticamente?

Se tomada à letra, este é um cenário de confronto de alto risco que ofusca todas as outras prioridades, alianças, eficiência económica ou liberdades civis. Nas últimas semanas, houve esforços como a desescalada; primeiro a reunião do G20 entre Xi e Biden, depois a aparição conciliadora da China em Davos. Mas estas medidas não pressagiam um regresso ao status quo. Nomeadamente no que diz respeito às “guerras dos chips”, Washington está a endurecer a sua posição.

Então, se um retorno “à situação como dantes” não está nos planos, que tipo de “resolução” é, de facto, oferecida?

Em vez de reconciliação e reconvergência, a equipa de Biden defende algo muito mais estranho. Eles não querem parar o desenvolvimento económico da China, insistem, apenas em colocar um teto em todas as áreas da tecnologia que possam desafiar a proeminência americana. Como isso deve funcionar é uma incógnita. Imagine se a China oferecesse aos EUA um acordo semelhante.

Refiro-me a esta pergunta retórica com seriedade. Imagine se a China estivesse a atacar a rede de fabrico da Apple, já que os Estados Unidos estão a atacar não apenas a Huawei, mas todo o setor de microeletrónica de alta tecnologia na China. E imaginem então que Pequim declara sem rodeios que isto não deve ser encarado como um ataque ao desenvolvimento económico da América em geral; apenas naquilo que lhe interessa para fins estratégicos. Imagine como Washington e o sistema político americano reagiriam. Debruçar-me sobre esse cenário faz-me lembrar aquele excelente artigo de opinião de Larry Summers de dezembro de 2018 em que ele revela a dificuldade fundamental do sistema político americano em aceitar uma mudança no equilíbrio da influência económica mundial.

Quer faça sentido ou não, as pessoas em Washington estão a cozinhar algo estranho. E …

… na sua pura sobrenaturalidade, aponta para a opção interpretativa número três. Estamos a assistir não a uma inversão da globalização, ou a uma dissociação em grande escala, mas a uma continuação de alguns aspetos do padrão familiar, apenas com base em premissas fundamentalmente diferentes. Fundamentalmente, já não estamos num mundo de convergência pacífica ou de condições equitativas.

Comecei a ficar intrigado sobre isso a sério em 2021, num artigo sobre a grande estratégia americana desencadeada pela retirada do Afeganistão. O quebra-cabeça do que a grande estratégia da América do futuro antevê, só mais acentuadamente entrou em foco desde então.

Na peça do FT ofereço a imagem de uma manta de retalhos:

Uma futura economia mundial pode ser composta por uma manta de retalhos de coligações antagónicas divididas por cortinas de dados mais ou menos visíveis. Os Estados que tiverem os recursos lançarão políticas nacionais como a Lei de Redução da Inflação (IRA), que mistura industrialização verde e “compre americano”, com uma postura anti-China e um impulso para cadeias de abastecimento amigáveis. O facto de a lei IRA ter causado um tumulto com a Europa e a Coreia do Sul não é um erro. É uma característica.

Desde o confinamento fiquei assombrado pela qualidade emblemática da história da vacina.

Talvez um prenúncio do futuro seja a colcha louca das vacinas COVID: os Estados Unidos dirigindo a Operação Warp Speed; os europeus a tentar mediar um negócio complexo que inclui exportações para o resto do mundo; a Índia como centro de produção; a China procura uma solução nacional inadequada; e um terço da população mundial a ficar totalmente excluída.

Aqui está o mapa global de vacinas COVID da semana passada:

 

Como sabemos, a desigualdade na produção e distribuição de vacinas foi impulsionada pela política dos grandes blocos económicos. Mas dependia das cadeias de abastecimento globais e resultou numa entrega altamente desigual de proteção contra a COVID.

Você pode encolher os ombros e perguntar se essa mistura de geopolítica, nacionalismo económico e pandemia ocasional é realmente nova. Isto não é apenas a “história” como sempre a conhecemos – imprevisível e de dentes cerrados e de garras afiadas?

Este foi o comentário de Ferguson no painel do Fórum Económico Mundial. É superficialmente persuasivo e foi retomado por Dan Drezner na sua coluna Vox sobre policrise. Mas é, naturalmente, profundamente questionável.

Quando o leitor diz que toda essa conversa sobre policrise é “apenas história”, o que quer exatamente o leitor dizer com “história”? A perplexidade só é aumentada pelo descartável “apenas”. Mais uma vez, um pouco aparentemente óbvio de senso comum arrasta por trás uma confusão de bagagem intelectual.

O ponto foi compreendido muito claramente por Larry Summers ao defender o conceito de policrise.

 

Aquilo a que a policrise se refere, é a coincidência anormal de choques díspares. É claro que, para ser capaz de caracterizar choques como anormalmente díspares, é preciso ter alguma conceção de desenvolvimento que não se satisfaça renunciando sinceramente ao “é apenas história”. Têm que se fazer algumas hipóteses sobre que tipos de choques devem ser esperados e quais os que não são de esperar.

Um conceito de policrise que não seja meramente redundante deve assentar numa filosofia da história mais ou menos explícita.

Como Bo Harvey observou numa intervenção verdadeiramente interessante na discussão, o marxismo fornece um quadro óbvio dentro do qual situar o debate da policrise. E como Harvey observa, isso levanta a questão de exatamente que trabalho conceptual será feito pelo conceito de capitalismo. Isto exigirá muito mais elaboração.

Enquanto isso, Drezner e Noah Smith não se intimidaram em basear a sua crítica da ideia de policrise nas suas próprias teorias históricas preferidas. Essas teorias são da variedade homeostática e auto-equilibrante. Quando veem um choque, procuram um ciclo de feedback negativo.

O que eles contestam é precisamente o que Harvey tão bem descreve.

“Policrise” em sentido estrito significaria não simplesmente somar diferentes crises e tratá-las como uma só (a definição de “há muitas coisas a acontecer “), mas sim um sistema que é “emergente” da sua interação e inter-relação – uma crise maior do que cada crise específica somada. Um mundo subsumido pela policrise torna-se uma espécie de “sistema emergente” pesadelo, cujas raízes são irredutíveis a uma única causa, daí a necessidade daqueles mapas e gráficos melhor capturados por Krisenbilder (“imagens de crise”).

Drezner e Smith, ao contrário, insistem na força de uma variedade de forças contraditórias e auto-equilibrantes. Claramente, uma interpretação policrise deve ter como premissa algo mais aberto e menos complacente. Algo mais keynesiano, por exemplo – pense em múltiplos equilíbrios maus com desemprego involuntário – e uma trajetória de crescimento guiada por repetidas crises de gestão.

A esta altura, o leitor pode estar a questionar-se sobre o que é que este longo desvio tem a ver com o tema em questão: a questão da globalização. A conexão é a teoria subjacente da história implícita ao falar de globalização.

A globalização é mais do que um mero conjunto de processos económicos mudos. Foi um processo ligado, dinamizado e enquadrado por instituições moldadas por uma narrativa, uma narrativa teleológica de crescimento, de interconexão e convergência. E isso significa que o leitor não pode tê-lo nos dois sentidos. Não se pode simultaneamente insistir que a policrise não é mais do que a história na sua forma “normal” perturbada e violenta e que a globalização está a decorrer como é normal. Não acho que 1914 seja um bom ponto de comparação para o nosso momento atual, mas se o leitor assim pensar, como Drezner faz, o leitor pelo menos tem que fazer algum trabalho para sugerir como a globalização pode ser modificada por tal confronto, como Ted Fertik e eu fizemos em 2014. Caso contrário, se alegremente considerar a policrise como “apenas a história a acontecer”, o leitor está então, de facto,

… a abandonar o jogo. A promessa da globalização, tal como foi entendida a partir da década de 1990, era precisamente a de inaugurar uma nova era. Ela (globalização) foi a dinâmica subjacente à tese do fim da história.

O discurso da globalização, por outras palavras, oferece uma filosofia própria da história, forte e teleológica.

Assim, admitir não só que um choque disperso de choques inesperados e diversos está a perturbar a economia mundial, mas que estes se multiplicam e se tornam mais intensos, é, de facto, admitir uma deceção fundamental quanto às expectativas.

O conceito de policrise – tal como apreendido por Summers – regista esse choque e, portanto, oferece uma espécie de “resolução” dialética – reconhecidamente de tipo fraco.

Enquanto os defensores do “situação como habitual” declaram que ainda é “a economia, estúpido” e os Guerreiros da Nova Guerra Fria se reúnem em torno da bandeira da “democracia versus autocracia”, a terceira posição enfrenta a realidade da confusão, o tipo de confusão registada por um termo como policrise.

O conceito de policrise serve como o terceiro momento da dialética (tese-antítese-síntese), não porque ofereça um conceito forte de um novo mundo, ou de uma rutura clara com o passado motivada pelo que é retrospetivamente reconstruído como uma tensão dominante única (autocracia v. democracia). Pelo contrário, o conceito de policrise oferece uma forma de resolução dialética (fraca) precisamente porque se recusa em aplanar o retrocesso de trinta anos do otimismo e da desilusão com o rolo compressor do “é apenas história”. Em vez disso, mantém e explicita o sentido de que o nosso momento presente é ofuscado pela deceção e pela confusão.

Polycrisis, para mim, significa o mesmo que Aufhebung (cancelamento e conservação). Na verdade, se pesquisar no Google o termo Aufhebung, o Google produz uma imagem que, embora excessivamente delicada e complexa, captura uma outra característica importante, para mim, do conceito de policrise.

Vou recuperá-la

 

A policrise não apenas descreve uma situação confusa e regista a nossa surpresa e consternação com o grau da confusão. Trata-se de um conceito que se encontrava entre os destroços – nas reflexões de Jean Claude Juncker sobre a situação da UE em 2015/6. É um “conceito encontrado”, uma ideia “apanhada” da calçada intelectual e depositada no nosso saco de transporte conceptual.

O que é que significa este conceito agora encontrado?

O termo policrise tem os seus críticos e, em Davos 2023, arriscava-se a tornar-se uma espécie de cliché. Mas, como palavra de ordem, serve três propósitos. Regista a diversidade inabitual dos choques que assolam o que antes parecia uma trajetória estabelecida de desenvolvimento global. Insiste que esta coincidência de choques não é acidental, mas cumulativa e endógena. E, pela sua moeda, marca o momento em que a autoconfiança em alta sobre a nossa capacidade de decifrar o futuro ou a história recente começou a parecer ao mesmo tempo fácil e ultrapassada

Só se deixarmos de reduzir a situação radical e sem precedentes que enfrentamos, seja com polaridades ideológicas reaquecidas – autocracia vs. democracia – ou com o embuste intelectual do “é apenas história”, é que temos alguma esperança de dar sentido às nossas circunstâncias e de pensar realmente aquilo que realmente é [medias res].

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Alguns dos comentários

Michael Power (1/02/2023

Não posso deixar de ver que grande parte deste debate é uma discussão sobre “o fim da globalização, mas especificamente a partir de uma perspetiva ocidental”. Fora das principais nações ocidentais, pouco se fala e não há evidências de desglobalização. O que o mundo não-ocidental está a sentir é antes “reorientação” (trocadilho intencional). Talvez o que está a acontecer à medida que centro de gravidade económica global se move inexoravelmente de volta a de onde veio.

https://www.economist.com/graphic-detail/2012/06/28/the-worlds-shifting-centre-of-gravity

As rotas comerciais globais estão-se a “reorientar” de volta para a Ásia (q.v. os padrões do século 16) e o Ocidente está a sentir os sintomas de abstinência que vêm de deixar de ser o centro dos padrões de comércio global. BTW, um brinde neste debate no Ocidente é o uso liberal do pronome “nós”. O mundo do “Nós” está a ser suplantado por um mundo que abrange muito mais do que apenas o Ocidente.

david roberts 1/02/2023

Um aspecto fundamental da situação atual é a posição dos EUA de que a China representa uma ameaça militar significativa o suficiente para que os EUA se envolvam numa guerra económica contra a China. Essa posição, se continuar inabalável, é auto-realizável. E, de facto, será um contribuinte principal, se não primário, para uma “policrise”.

 

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O autor: Adam Tooze [1967-] é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Statistics and the German State, 1900–1945: The Making of Modern Economic Knowledge (2001), The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy (2006), The Deluge: The Great War, America and the Remaking of the Global Order, 1916–1931 (2014), Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World (2018), Shutdown: How Covid Shook the World’s Economy (2021).

 

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