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As sílabas marginais/PARDAIS/Nelson Ferraz

 

PARDAIS

 

nos primeiros degraus da manhã os pardais

são harpas infantis num chão de asas.

a luz do silêncio fica a romper-se devagar

e constrói uma alegria com janelas.

o chão cresce até à casa das nuvens.

o tempo é uma estátua a querer sorrir.

o cheiro a sol o cheiro a chuva o cheiro a vento.

a perfeição inteira das coisas quietas e simples.

nem tudo está ainda perdido.

os pardais podem curar a realidade.

enxugar os olhos incapazes de palavras.

 

 

 

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