As sílabas marginais/LENTILHAS/Nelson Ferraz



LENTILHAS
Ouvem-se palavras diferentes na superfície
Da tristeza que se multiplica pelas cinzas dos anjos
Que são nomes sem abrigo possível.
O quotidiano é uma escrita com janelas desfeitas a explodir loucuras.
Não existem lugares onde o chão possa sossegar a geografia.
Enquanto isso os senhorios sentam-se no veludo sujo das salas
E mostram com senil orgulho a sua poderosa indiferença.
Há um rio de pólvora a desaguar nos joelhos frios das crianças
Que envelhecem como precipícios.
As gravatas esganiçam notícias relatos
E possibilidades longínquas de calar os tiros.
Enquanto as casas caem e a vergonha é um gambozino doido
As pedras procuram por Deus e rezam às árvores.
Mas a guerra é um negócio de bestas.
E a paz vende-se. A paz compra-se. A paz troca-se.
Muitas vezes, por um prato de lentilhas.