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Hoje faço 82 anos – Sobre as minhas circunstâncias e a juventude atual. Por Júlio Marques Mota

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Hoje faço 82 anos – Sobre as minhas circunstâncias e as relações sociais na juventude atual

Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 7 de Março de 2023

 

Este é o último dos meus textos sobre as minhas circunstâncias, as que fizeram de mim o que eu fui e o que eu sou. Foram  escritas para o meu 82ª aniversário e sempre na primeira pessoa. Foram escritos como um testemunho pessoal dos tempos passados e de agora também, como sendo uma análise da sociedade portuguesa em cada um dos momentos em que essas circunstâncias ocorreram.

Este último texto é um texto profundamente intimista no quadro das minhas relações homem-mulher. Tiro-te o chapéu pela coragem em pores em cima da mesa as questões que colocas, disse-me um amigo. Respondi que era um engano, que as questões postas na mesa já lá estavam quando nasci, quando cresci, quando envelheci. São questões que nascem com o homem, e que no fundo o acompanham em toda a sua vida. Limitei-me apenas a olhar para cima da mesa e dizer resumidamente o que vi nela.

Nunca senti com tanta verdade o que uma vez li num dos melhores manuais do Economia Internacional escritos por Peter Kenen, conselheiro de JFK em que dizia ao aconselhar um livro muito antigo: o mundo mudou muito, isso é verdade, mas os problemas são os mesmos (cito de memória). No caso do presente texto o que está em jogo é saber como se faz de uma criança um adolescente, como se faz do adolescente  um jovem, de um jovem, um jovem, adulto, de um jovem adulto um adulto inteiro no seu corpo e na sua alma. E  penso que ao longo de séculos ainda não sabemos como é!

Como a minha trajetória de vida foi toda ela muito particular que sirva de tema de reflexão para quem quiser, uma vez que cresci praticamente sozinho com as minhas circunstâncias procurando, bem ou mal, perceber a trajetória das fases que acabo de enunciar.

Fixando-me no tempo presente, no aqui e agora, olhemos para a nossa juventude e para qualquer das suas fases: o que temos é crianças na primária e no primeiro ciclo que não sabem sequer brincar umas com as outras, onde os casos de bulling se sucedem. Note-se que cada vez mais, desde a entrada na escola, a educação dos nossos filhos depende cada vez menos da família, mas mais da escola, da sociedade em geral.

Não sabem sequer brincar em conjunto, toda a gente sabe isso mas o que se faz contra isso? Nesta fase escolar os recreios são fundamentais, mas são fundamentais se visionados presencialmente, sublinhe-se e por profissionais competentes. Não se trata apenas de guardar crianças, de as vigiar como polícias, trata-se a ajudar as crianças a formarem-se, a socializarem-se. Em vez disso reduz-se o pessoal a pessoal não especializado, mais barato, e ainda para agravar a situação, diminui-se na sua quantidade.

Para mim isto é ainda mais estranho quando tem crescido fortemente a utilização de creches. onde se começa a fazer este tipo de aprendizagem. Depois teremos uma estrutura de ensino na primária aberrante e que se mantém no ciclo. Chega-se ao nono ano e as crianças não só não sabem brincar entre elas como não sabem falar umas com as outras. Como queremos cidadãos, depois?

A partir desta fase, emergem as questões da sexualidade e do corpo. Em muitos dos casos haver um gabinete por escola com psicóloga especializada em adolescentes poderia ser muito útil.  A aprendizagem a esse nível faz-se quase como na antiguidade, isto é, por conta própria, o que não deixa de ser trágico. E não nos alonguemos, chega-se à Universidade e é o desastre que temos. As histórias contadas e recontadas das praxes académicas rondam o horror. Em tempos dei-me com o comandante-geral da Polícia em Coimbra e não queiram ouvir as histórias que me eram por ele contadas.

Quanto à capacidade de relacionamento, de entendimento entre uns e outros dou apenas um exemplo: uma estudante universitária fazia parte da comissão de fitas do seu curso e do seu ano. Tinha de angariar receitas para o carro da queima. Uma noite, por volta das 11 horas da noite, recebe a informação de que deveria estar no bar Y para coordenar a recolha de fundos, a partir da meia-noite. A  estudante em questão não viu a mensagem nessa noite, viu no dia seguinte, mas, na sequência dessa mensagem recebe uma outra a dizer que foi multada em X euros e se não pagasse era expulsa da comissão organizadora. Pediram-me opinião e eu aconselhei: paga e não voltes lá. A sequência, deixaram de a reconhecer como colega e como amiga e no dia do cortejo chorou que nem uma Madalena. É este tipo de juventude  que estamos a produzir. Isto não é uma questão genética, é uma questão de ordem social.

Quando nem sequer aprendemos a relacionarmo-nos uns com os outros,  o que é que se pode esperar a seguir? Exatamente o que temos, uma juventude universitária digitalmente cretinizada, intelectualmente vazia, socialmente inadaptada, sexualmente não sei, mas imagino que seja bem pior que nos meus tempos da década de 1960 e os efeitos colaterais são uma juventude mentalmente doente, a encherem os consultórios dos psiquiatras, realidade esta que o ministro já reconheceu.

É preciso mudar muitas das coisas que estão na raiz deste enorme problema, e não é com paninhos quentes a esconder os sintomas que saímos desta grave situação. O senhor Ministro Fernando Alexandre, ou quem lhe suceda, que entenda isso.

Com o meu texto, intimista, sobre a relação homem-mulher na minha adolescência e no meu período de jovem adulto pretende-se que este seja um alerta paras questões da juventude de hoje. Gostava de ver uma Comissão de Trabalho, de qualidade, nomeada não com o espírito de tacho, mas sim de missão, composta por pedagogos, psiquiatras, psicólogos, sociólogos, antropólogos, biólogos, para abordar as questões da juventude de hoje.

No fundo estamos a falar dos nossos filhos e dos nossos  netos e do futuro que estaremos a dar. Aqui, por ironia, por contraposição deixem-me citar Joan Robinson, uma mulher nunca premiada com o Nobel porque era de esquerda, na sua análise sobre o maior economista mundial da primeira metade do século XX, John Maynard Keynes.

Diz-nos   Robinson:

“Mas qual era a tendência política da Teoria Geral? O próprio Keynes descreveu-a como “moderadamente conservadora”, mas isto era um paradoxo, pois todo o livro é uma polémica contra ideias estabelecidas. O seu próprio estado de espírito oscilava frequentemente entre a esquerda e a direita. O capitalismo era-lhe, de certa forma, repugnante, mas o estalinismo era muito pior. Nos seus últimos anos, certamente, a direita predominou. Quando o provoquei com a ideia de aceitar um título de nobreza, respondeu-me que, depois dos sessenta anos, era preciso tornar-se respeitável. Mas a sua visão básica da vida era mais estética do que política. Odiava o desemprego porque era estúpido e a pobreza porque era feia. Desgostava-se do comercialismo da vida moderna. (É verdade que gostava de ganhar dinheiro para o seu Colégio e para si próprio, mas só se isso não lhe ocupasse muito tempo). Deixou-se levar por uma visão agradável de um mundo onde a economia deixou de ser importante e os nossos netos podem começar a levar uma vida civilizada”. (O sublinhado é meu)

Keynes enganou-se e fomos nós que o levámos ao engano com as práticas políticas neoliberais, frisemo-lo.

 

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