Coelhos de Chocolate na Páscoa: Mas porquê, senhores? Porquê? – por Carlos Pereira Martins
António Gomes Marques
Coelhos de Chocolate na Páscoa: Mas porquê, senhores? Porquê?
por Carlos Pereira Martins
Todos os anos, por altura da Páscoa, somos invadidos por uma autêntica praga de… coelhos. Não dos verdadeiros, que saltam pelos campos a roer couves e a olhar para nós com aquele ar de “estou a pensar fazer 12 filhos até ao fim da tarde”, mas dos outros: os de chocolate. Uns em pé, outros sentados, alguns com laçarotes, outros com ar de quem já sabe que vai ser devorado por uma criança glutona ou por um adulto em dieta “flexível”.
Mas a pergunta impõe-se: porque é que, na Páscoa, se oferece coelhos de chocolate e não outros animais? Quem foi o génio que achou boa ideia juntar um roedor hiperactivo com cacau derretido?
Bom, isto começou há uns bons séculos, quando as pessoas ainda tinham tempo para olhar para os campos e pensar em metáforas. A primavera chegava, a natureza acordava, os passarinhos piavam, e os coelhos… multiplicavam-se como coelhos, vá…!
Então alguém pensou: “Eh pá, isto é que é vida nova! Fertilidade, renovação, essas coisas bonitas!” Vai daí, o coelho virou símbolo da estação. Claro que ninguém na altura pensou em chocolate, porque isso só apareceu na Europa muitos séculos depois — e ainda por cima era amargo, o que arruinaria qualquer Páscoa moderna.
Mais tarde, já com o chocolate em alta e as crianças a exigirem algo mais excitante do que missas e peixe cozido, alguém num laboratório suíço ou numa pastelaria alemã teve uma epifania: “E se juntássemos um símbolo antigo com uma guloseima moderna?” E pronto. O coelho virou doce. Um upgrade espiritual para algo que já era fofinho por natureza.
Agora, convenhamos: se fosse outro animal, não funcionava. Um jacaré de chocolate seria inquietante. Um bicho-da-conta de cacau não faria sucesso. E um peru de chocolate, além de ser confuso em termos festivos, ia ser associado à ceia errada. O coelho tem aquele equilíbrio certo entre ternura, rapidez e… digestibilidade simbólica.
Além disso, há a vantagem prática: é fácil moldar chocolate em forma de coelho. Ninguém terá ousado fazer um polvo de chocolate ! Não dá. Tentáculos a mais. Muito complicado.
Por isso, da próxima vez que estiverem a trincar uma orelha de coelho pascal, lembrem-se: estarão a saborear séculos de tradições, marketing europeu do século XIX e uma desculpa muito bem embrulhada em pratas apelativas para comer chocolate sem culpa. Afinal, é um símbolo. Bem adoptado.
E assim se explica, com açúcar, cacau e um toque de absurdo, por que razão a Páscoa não é invadida por hipopótamos de chocolate. E ainda bem.