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As sílabas marginais/A IMPORTÂNCIA DAS LÂMPADAS/Nelson Ferraz

 

 

A IMPORTÂNCIA DAS LÂMPADAS

 

 

As nuvens ficaram lâmpadas

E eu prometi subir o degrau para poder

Ver a cor e a forma das magnólias.

 

Era de noite, muito de noite

E tu chegavas no medo

Que tinha pássaros que eram sombra.

 

Vi-te. Tinhas o rosto pintado de sol

E asas que eram telhados e chãos

Onde nasciam lugares frescos.

 

As nuvens ficaram lâmpadas

E eu prometi subir o degrau para poder

Ver a cor e a forma das magnólias.

 

Mas isso foi só depois.

Isso foi só depois.

Depois das armas sangrarem cravos.

 

Aprendi então a amar o musgo

E a infância onde começara a claridade

Das palavras que procuram o pólen.

 

Longe muito longe apodreceram

As vértebras de cinza que calavam

A interrogação das nascentes de todos os rios.

 

Foi há muito tempo que chegou

Esta sede permanente de proclamar o teu nome

Tão grito tão abraço tão horizonte.

 

Liberdade. Liberdade. Liberdade.

 

Já nem damos por ela

De tão real e nossa.

De parecer tão de sempre.

 

Mas estes tempos vacilam palavras e gestos.

É urgente olhar as nuvens

E zelar pela resistência das lâmpadas.

 

Porque

Só há liberdade se houver luz.

E há caranguejos em terra.

 

 

 

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