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EM MEMÓRIA DE CLAUDIA CARDINALE COM UM TEXTO DE JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Claudia Cardinale em Cannes, 2010
in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Claudia_Cardinale

EM MEMÓRIA DE CLAUDIA CARDINALE

com um texto de José do Carmo Francisco

Nasceu em La Goulette, município próximo de Túnis, a capital da Tunísia, na altura um protectorado francês, a 15 de Abril de 1938, recebendo o nome de Claude Josephine Rose Cardinale, e faleceu ontem, em Nemours, região francesa da Île de France, departamento Sena e Marne, onde residia. Os seus pais Francesco Cardinale e Iolanda Greco, eram ambos nascidos na Tunísia de famílias sicilianas com origem na província de Trápani, o que explica a sua nacionalidade ítalo-francesa.

Ao ouvir o nome de Claudia Cardinale logo se recorda o que julgamos ter sido o primeiro filme em que a vimos num papel principal, A Rapariga da Mala, filme que é tido pelos especialistas como o mais célebre de Valerio Zurlini, que conta no elenco, para além da actriz que agora nos deixou, com Jacques Perrin, Luciana Angiolillo, Renato Baldini.

Em 1961, o ano em que foi realizado o filme A Rapariga da Mala

Terá sido o seu primeiro filme em que a crítica especializada lhe dá um grande destaque, mostrando uma sensualidade e uma beleza selvagem no papel de Aida, a mãe solteira que canta para ganhar a vida. Teve, de facto, uma interpretação sublime que nunca mais se apaga na memória.

Mas Claudia Cardinale participou em variadíssimos filmes, alguns com lugar destacado na história do cinema, como Rocco e os seus irmãos, (1960), O Leopardo, (1963) ambos de Luchino Visconti, , (1963) de Federico Fellini, e Era Uma Vez no Oeste, realizado por Sergio Leone (1968). Lembramos também Os Profissionais, de Richard Brooks (1966). Nos vários filmes contracenou com actores como Henry Fonda, Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Jack Palance, Annie Girardot e muitos outros, entre os quais Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Ricardo Trêpa, no filme de Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra, (2012), baseado na peça homónima de Raul Brandão, filme este com produção luso-francesa.

No filme Era Uma Vez no Oeste, realizado por Sergio Leone

Cresceu em La Goulette. Em 1957 venceu o concurso de “Mulher italiana mais bonita da cidade”, o que lhe valeu uma viagem a Itália, seguindo-se depois o seu envolvimento com Franco Cristaldi, com quem viveu e que muito terá contribuído para os primeiros contratos no cinema. A partir de 1975 passou a viver com o realizador de cinema italiano Pasquale Squitieri até à morte deste, em 18 de Fevereiro de 2017.

Claudia Cardinale é considerada uma das principais figuras do cinema europeu, não tendo gostado da sua experiência em Hollywood, cujo ambiente a cansava, regressando à sua Europa, mantendo-se no activo até 2022.

O Festival de Veneza atribuiu-lhe o Prémio de Honra em 1993 e, em 2002, conquistou o Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim. Em Portugal, no Festival Internacional de Cinema do Funchal, recebeu o Prémio Carreira, em 2008. João Botelho, no mesmo ano, recebeu também o Prémio Carreira como realizador de cinema.

Apoiou causas femininas e gay, tendo também sido Embaixadora de Boa Vontade da UNESCO para a defesa dos direitos da mulher desde o início de 2000 e Embaixadora da Boa Vontade do Dia Mundial da Água da UNESCO em 2006.

A revista Los Angeles Times Magazine nomeou Claudia Cardinale como uma das 50 mulheres mais bonitas da história do Cinema.

Como homenagem à saudosa actriz, publicamos o texto de José do Carmo Francisco, a quem agradecemos, o qual nos foi enviado pelo nosso companheiro no blogue Manuel Simões.

A Viagem dos Argonautas

 

Lamentação e pranto de Jill McBain em Sweetwater

(para Cláudia Cardinale em Aconteceu no Oeste)

 

Não tive tempo para nada.

A trompete ajudou com as suas notas sincopadas a simular os meus soluços que ninguém ouviu. Nunca tinha visto um banquete de morte. Lá longe, em New Orleans, as mesas servem sempre para as refeições e para a alegria dos encontros. Aqui de nada serviu a recomendação de Brett à filha para cortar as fatias do pão muito maiores que o habitual.

Não tive tempo para nada.

Nem para as lágrimas que são a água salgada da revolta perante a injustiça da morte. Nem para perceber quem mandou matar uma família inteira. Nem para perceber porquê. Ainda era cedo. Sei agora a diferença entre a água doce do meu poço e o sal da água azul do Oceano Pacifico que está num quadro da parede da carruagem de luxo de Mr. Morton.

Não tive tempo para nada.

Afinal ainda é cedo para saber de um homem, moreno e triste, capaz de, como quem cumpre uma sentença, matar vários assassinos depois de tocar uma melodia vagarosa numa harmónica velha, presa ao pescoço por uma corda muito mais pequena e estreita do que a outra, a utilizada para enforcar o seu irmão mais velho numa infância já distante.

Não tive tempo para nada.

Aos poucos percebi como é possível construir um sonho em miniatura. A madeira está paga, os barris cheios de pregos estão à espera. É só contar os passos e marcar o perímetro das primeiras casas de Sweetwater. A Estação e a Igreja, o Banco e o Hotel, as primeiras lojas. O sonho de Brett McBain não pode ficar adiado. A roldana do poço espera por mim. Os primeiros operários do caminho-de-ferro acabam de chegar e estão mortos de sede.

José do Carmo Francisco

 

 

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