As sílabas marginais/MEU QUERIDO BART/Nelson Ferraz



MEU QUERIDO BART
(homenagem ao meu eterno e querido companheiro, Bart.
um gato que viveu e ficou no meu coração)
chove e vejo-te pelo vidro.
estás tranquilo, lindo como só tu, e olhas-me de toda a parte.
percebo uma lágrima a doer que não sei se é tua,
que não sei se é minha,
que sei que é dos dois,
de nós dois.
estás nas flores, nas ervas pequenas, em todas as árvores, nas parcelas mais pequenas das gotas que caem a chorar magoadas por não te verem.
entra, companheiro, entra.
estás aqui, na cadeira,
desviei-te um pouco para me sentar a teu lado,
estás aqui, subiste para a secretária,
andaste pelo teclado,
desviei-te um pouco,
deitas-te por trás do computador, junto à chávena ainda morna,
e olhas-me, e olhas-me,
e olhas-me, meu amor.
quanto sofrimento teu, quanto de repente me deixaste.
meu amor,
ajuda-me a apanhar as letras, as palavras,
ajuda-me a perceber tudo o que me dizias,
porque, agora,
eu preciso de explicações para esta tristeza que queima. preciso de ti.
porque a saudade é um paliativo falso,
uma alternativa que não ronrona, e que, por mais que que eu queira,
a saudade não és tu aqui, meu amor.
estás nas flores, nas ervas pequenas, em todas as árvores, nas parcelas mais pequenas das gotas que caem a chorar magoadas por não te verem.
entra, companheiro, entra.
sai dessa sombra que quero abraçar-te.
desculpa,
sei que não podes fazer isso, mas
a vida ficou-me aflita e escureceu por dentro.
foste a mais bela bênção, a mais perfeita companhia.
ficaste a doer-me. muito.
