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Inteligência artificial — Texto 2 – O que acontece depois da I.A. destruir a escrita nas Universidades? Por Hua Hsu

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

20 min de leitura

Nota prévia

Na linha de conflito que me opõe frontalmente à política educacional seguida pela FEUC, deixem-me colocar uma questão e dar-lhe a devida resposta: porque é que nunca tenho como revisor nenhum dos meus ex-colegas em serviço na FEUC? A resposta é simples: não quero que alguém seja acusado de partilhar as minhas opiniões sobre a Instituição em que trabalham e com a qual eu entrei em confronto de ideias e ser depois prejudicado por isso. Chamemos os bois pelos nomes, mas com isto também estou a considerar que na FEUC a Democracia foi chão que já deu uvas, mas uma coisa é certa, foi com ela que se construiu a velha FEUC, aquela que foi considerada como tendo a licenciatura mais equilibrada do país, a que tiveram os caloiros que entraram em 1984-1985, por exemplo, aquela que com Bolonha foi relativamente desestruturada por culpa de alguns e, por fim, completamente desfeita sob a égide de Álvaro Garrido, Tiago Sequeira, Pedro Godinho e outros. Sei que quanto ao atual funcionamento institucional, democrático ou não, a minha posição é diferente da do atual diretor, mas o que alimenta a Democracia e lhe confere substância é confronto de diferenças, com os diabos.

Repare-se por exemplo na longa série de textos editados em homenagem ao Joaquim Feio: os revisores foram muitos: António Martins, FLUC, Fernando Ribeiro, antigo aluno da FEUC, Carlos Bastien, antigo colega do Joaquim Feio, Júlio Gomes, antigo aluno da FEUC, Carlos Gouveia Pinto, meu amigo e antigo colega no ISEG, Pedro Ferrè da Universidade do Algarve , Francisco Tavares, meu antigo aluno no ISEG, António Gomes Marques, entre outros recursos anónimos e nessa mesma série contei com o apoio externo de Ghislan Deleplace, Ben Fine ,Guido Montani, Giancarlo De Vivo e Emiliano Brancaccio.

Como se pode verificar não há por aqui ninguém que esteja no ativo na FEUC. São muitos os textos que publicamos os são diversos os seus revisores e não quero ser demasiado pesado para ninguém. Mesmo no caso presente, o revisor analisou ao detalhe três dos quatro textos que lhe foram enviados. Percebe-se pois que não mo tenha ainda enviado.

 

Júlio Mota, em 05/07/2025

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Texto 2 – O que acontece depois da I.A. destruir a escrita nas Universidades?[1]

O fim do trabalho académico de inglês encerrará uma longa tradição intelectual, mas também é uma oportunidade para reexaminar o propósito do ensino superior.

 Por Hua Hsu

Publicado por   em 30 de Junho de 2025 (ver original aqui)

“Não há números confiáveis sobre quantos estudantes usam inteligência artificial, apenas histórias de que todos estão a utilizá-la. Ilustração de Tameem Sankari.

 

Numa ventosa quinta-feira de primavera, logo após as provas do meio do semestre, saí para comer macarrão com Alex e Eugene, dois estudantes de graduação da Universidade de Nova York, para conversar sobre como é que eles utilizam a inteligência artificial nos seus trabalhos académicos. Quando conheci Alex pela primeira vez, no ano passado, ele estava interessado em seguir carreira nas artes e dedicava grande parte do seu tempo livre a sessões de fotos com os amigos. Mas ele havia decidido recentemente seguir um caminho mais prático: queria tornar-se um perito-contabilista com certificado público (C.P.A. – Certified Public Accountant) [2]. As quintas-feiras dele estavam ocupadas, e ele tinha quarenta e cinco minutos antes de uma sessão de estudos para uma aula de contabilidade. Guardou o skate debaixo de um banco no restaurante e tirou o laptop da mochila, ligando-se à internet antes de nos sentarmos.

Alex tem cabelo ondulado e fala com a cadência tranquila e melodiosa de alguém que passou muito tempo na Bay Area. Ele e Eugene analisaram o cardápio, e Alex disse que deveriam escolher o caldo suave, em vez do picante, “para podermos manter a pele cuidada”. Semanas antes, quando eu havia enviado uma mensagem para Alex, ele disse-me que toda a gente que ele conhecia usava o ChatGPT de alguma forma, mas que ele usava apenas para organizar as suas notas. Pessoalmente, ele admitiu que isso não era nem um pouco verdade. “Em todo e qualquer tipo de escrita na vida, eu uso IA”, disse ele. Ele usava o Claude para pesquisa, o DeepSeek para raciocínio e explanação, e o Gemini para geração de imagens. O ChatGPT servia para necessidades mais gerais. “Preciso de IA pra enviar mensagem às garotas”, brincou, imaginando uma versão melhorada do Hinge com IA. Perguntei se ele havia usado a IA para marcar o nosso encontro. Ele riu e respondeu: “Para ser sincero, sim. Não estou disposto a digitar tudo aquilo. Deu pra perceber?”

A OpenAI lançou o ChatGPT em 30 de novembro de 2022. Seis dias depois, Sam Altman, o CEO, anunciou que a ferramenta havia alcançado um milhão de utilizadores. Modelos de linguagem de grande escala como o ChatGPT não “pensam” em sentido humano — quando o você faz uma pergunta ao ChatGPT, ele baseia-se nos conjuntos de dados nos quais foi treinado e constrói uma resposta com base em padrões previsíveis de palavras. As empresas já vinham a experimentar robôs de conversa movidos por IA há anos, mas a maioria fracassava ao ser lançada; a experimentação da Microsoft em 2016 com um robô chamado Tay foi encerrada após dezasseis horas porque ele começou a fazer declarações racistas e a negar o Holocausto. Mas o ChatGPT parecia diferente. Ele conseguia manter uma conversa e decompôr ideias complexas em etapas fáceis de seguir. Em menos de um mês, a diretoria da Google, temendo que a IA afetasse o seu negócio de motores de busca, declarou um “código vermelho”, ou alerta de emergência.

Entre os educadores surgiu um pânico ainda maior. Já era tarde demais no período letivo para implementar uma política coerente para o que parecia ser o fim dos deveres de casa: em segundos, o ChatGPT podia recolher e resumir pesquisas e redigir uma redação completa. Muitas grandes instituições universitárias tentaram regular o ChatGPT e seus concorrentes posteriores, na maioria das vezes sem sucesso. Pedi a Alex que me mostrasse um exemplo de um trabalho produzido por IA. Eugene também queria ver. Ele usava um aplicativo de IA diferente para ajudar com cálculos nas suas aulas de negócios, mas nunca tinha conseguido usá-lo bem para escrever. ‘Eu mostro-te’, disse-lhe Alex. (Todos os estudantes com quem conversei foram identificados por pseudónimos.)

Ele abriu o Claude no seu computador portátil. Reparei num chat que mencionava abolicionismo. “Tivemos que ler Robert Wedderburn para uma aula”, explicou ele, referindo-se ao abolicionista jamaicano do século XIX. “Mas, obviamente, eu não estava para ler aquilo”. Ele tinha pedido um resumo ao Claude, mas era longo demais para ele ler nos dez minutos que tinha antes da aula começar. Ele disse-me: “Disse-lhe, ‘Transforma isso em tópicos concisos.’” Em seguida, transcreveu os pontos do Claude no seu caderno, já que o professor não permitia o uso de ecrãs em sala de aula.

Alex pesquisou até encontrar um trabalho para uma aula de história da arte, sobre uma exposição num museu. Ele tinha ido à exibição, tirado fotos das obras e dos textos nas paredes, e depois carregou-as no Claude, pedindo-lhe que gerasse um trabalho de acordo com as instruções do professor. “Estou a tentar fazer o mínimo possível, porque esta é uma aula com a qual eu não estou para trabalhar”, disse ele. Depois de dar uma leitura rápida no ensaio, achou que a IA não tinha respondido bem às perguntas do professor, então refinou as instruções e disse-lhe para tentar de novo. No final, a versão que Alex entregou recebeu o equivalente a um A-. Ele disse que tinha uma noção básica do argumento do trabalho, mas que, se o professor tivesse pedido detalhes, ele teria ficado “muito fodido”. Li o trabalho por cima do ombro de Alex; era uma imitação convincente de como um estudante de graduação poderia descrever um conjunto de imagens. Se isto tivesse sido em 2007, eu não teria dado muita importância ao seu tom genérico, nem à precisão meticulosa, quase mecânica, das observações críticas.

Eugene, sério e um tanto solene, estava a ouvir com ar perplexo. “Eu não copiaria e colaria como ele fez, porque sou muito mais paranóico,” disse ele. Eugene é alguns anos mais novo que Alex e estava no ensino secundário quando o ChatGPT foi lançado. Na época, ele experimentou usar a IA para redações, mas percebeu que ela cometia erros facilmente detetados. “Isso passou no detetor de IA?” perguntou ele a Alex.

Quando o ChatGPT foi lançado, os professores adotaram várias medidas para garantir que o trabalho dos estudantes fosse realmente deles. Essas medidas incluíam exigir que eles compartilhassem os históricos de versões com carimbo de data e hora dos seus documentos do Google e criar tarefas escritas que precisassem ser feitas presencialmente, em várias sessões. Mas a maior parte da investigação ocorre após a entrega dos trabalhos. Serviços como GPTZero, Copyleaks e Originality.ai analisam a estrutura e a sintaxe de um texto e avaliam a probabilidade de ele ter sido produzido por uma máquina. Alex disse que o professor dele de história da arte era “muito velho” e, por isso, provavelmente não conhecia esses programas. Nós submetemos o trabalho a alguns diferentes sítios de deteção de A.I. Um deles indicou que havia vinte e oito por cento de chance de o texto ter sido gerado por inteligência artificial; outro apontou sessenta e um por cento de chance. “Isso é melhor do que eu esperava”, disse Eugene.

Perguntei se ele achava que o que o amigo dele tinha feito era trapaça, e o Alex interrompeu: “Claro. Você está a gozar comigo, ou quê?”

“Ainda há um jurado que não foi devidamente intimidado.” Desenho de Frank Cotham

 

Enquanto olhávamos para o portátil de Alex, notei que ele havia perguntado recentemente ao ChatGPT se era aceitável utilizar as sapatilhas Nike Dunks. Ele havia concluído que o ChatGPT era o melhor confidente. Consultava-o como quem consulta um terapeuta, pedindo dicas sobre namoro e sobre como manter-se motivado em tempos difíceis. A barra lateral do ChatGPT era um índice dos altos e baixos de ser jovem. Ele admitiu, para mim e para Eugene, que usou o ChatGPT para redigir a sua inscrição para a New York University (N.Y.U.) — o nosso almoço talvez nunca tivesse acontecido se não fosse devido à I.A.

“Eu acho que é realmente desonesto, mas, que se foda, eu estou aqui”, disse ele.

“É trapaça, mas não acho que seja, tipo, trapaça de verdade,” disse Eugene. Ele via o ensaio de história da arte de Alex como um crime sem vítimas. Ele só estava a cumprir os requisitos, não a treinar-se para se tornar um estudioso da literatura.

Alex teve que sair a correr para uma sessão de estudos. Eu disse a Eugene que a nossa conversa me fez pensar sobre o meu papel como professor. Ele perguntou se eu ensinava inglês, e eu disse que sim com um aceno de cabeça.

“Hmm, ok,” disse ele, a rir. “Então o professor está, tipo, super afetado por isso”.

Dou aulas numa pequena faculdade de artes liberais e, frequentemente, ironizo dizendo que é mais provável um aluno entregar um trabalho extenso com um ano de atraso (como aconteceu recentemente) do que recorrer a um atalho desonesto. As minhas turmas são pequenas e com alguma intimidade, baseadas em processos e métodos pedagógicos — como, por exemplo, deixar perdurar os silêncios constrangedores — que são difíceis de replicar em larga escala. Por isso, sempre tive uma sensação vaga de que os meus alunos estavam a aprender alguma coisa, mesmo quando era difícil medir isso. Antes, quando suspeitava que um trabalho pudesse ter sido plagiado, eu digitava algumas frases num motor de busca e considerava que havia feito a minha parte. Mas, recentemente, comecei a notar que a escrita de alguns alunos parecia fora de sintonia com a maneira como se expressavam em sala de aula. Um ensaio, em especial, parecia ter sido escrito por duas pessoas diferentes — uma parte era polida e mecânica, a outra, íntima e espontânea.

Como eu nunca tinha definido uma política sobre o uso de inteligência artificial, escolhi o caminho mais fácil. O aluno teve vergonha suficiente para escrever metade do texto, e eu concentrei os meus comentários em como melhorar justamente essa parte.

É fácil ficar obsessionado com histórias de desonestidade académica. No final do ano passado, uma pesquisa com dirigentes de faculdades e universidades revelou que 59% relataram um aumento nas fraudes, um número que parece conservador quando se conversa com os estudantes. A inteligência artificial voltou a colocar em cima da mesa a pergunta sobre qual é o objetivo do ensino superior. Até aos dezoito anos, vamos à escola porque somos obrigados, estudando a Segunda Guerra Mundial e simplificando frações enquanto passamos por um processo de socialização. Estamos, essencialmente, a aprender a seguir regras. A faculdade, no entanto, é uma escolha, e sempre envolveu um acordo tácito de que os estudantes cumpririam um conjunto de tarefas — às vezes relacionadas com temas que consideram inúteis ou pouco práticos — e, em troca, receberiam algum tipo de credencial. Mas mesmo para os estudantes mais pragmáticos, a busca por uma nota ou um diploma sempre trouxe um benefício adicional. Está-se a aprender a fazer algo difícil e, talvez, nesse processo, acabe por se valorizar o que está a aprender. Mas a chegada da inteligência artificial significa que agora é possível saltar completamente o processo — e a dificuldade.

Não existem números fiáveis sobre quantos estudantes americanos usam inteligência artificial, apenas relatos de que todos estão a utilizá-la. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2024, com estudantes entre os treze e os dezassete anos, sugere que um quarto dos adolescentes atualmente usam o ChatGPT para trabalhos escolares — o dobro do número de 2023. A OpenAI divulgou recentemente um relatório afirmando que um em cada três universitários usa os seus produtos. Há boas razões para acreditar que essas estimativas sejam ainda conservadoras. Se o leitor cresceu a pesquizar tudo no Google ou a utilizar o Grammarly para dar um toque profissional à sua redação, não é exagero ver a I.A. como apenas mais uma ferramenta de produtividade. “Eu vejo isso como nada diferente do Google”, disse Eugene. “Uso-o para o mesmo tipo de propósito.

Ser estudante é testar limites e estar um passo à frente das regras. Enquanto administradores e educadores debatem novas definições de trapaça e discutem os mecanismos de vigilância, os estudantes têm aderido às possibilidades oferecidas pela inteligência artificial. Poucos meses após o lançamento do ChatGPT, um aluno de graduação de Harvard obteve aprovação para conduzir uma experimentação na qual a IA escreveu trabalhos que haviam sido atribuídos em sete disciplinas. A IA conseguiu uma média de 3,57, um pouco abaixo da média da universidade. Empresas emergentes lançaram produtos especializados em “humanizar” textos gerados por IA, e influenciadores do TikTok começaram a ensinar os seus seguidores sobre como evitar a deteção.

Incapazes de acompanhar o ritmo, as administrações académicas em grande parte deixaram de tentar controlar o uso da inteligência artificial pelos estudantes e adotaram uma atitude de resignação esperançosa, incentivando os professores a explorar as aplicações práticas e pedagógicas da I.A. Em certas áreas isso não representou um grande desafio. Estudos mostram que a I.A. é particularmente eficaz em ajudar falantes não nativos a adaptarem-se à escrita em nível universitário em inglês. Em algumas disciplinas de STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics), o uso de I.A. generativa como ferramenta é aceitável. Alex e Eugene contaram-me que o seu professor de contabilidade os incentivou a aproveitar ofertas gratuitas de novos produtos de I.A. disponíveis apenas para estudantes de licenciatura, enquanto as empresas disputavam a fidelidade dos alunos durante a primavera. Em maio, a OpenAI anunciou o ChatGPT Edu, um produto voltado especificamente para uso educacional, após escolas como a Universidade de Oxford, a Universidade Estadual do Arizona e a Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia experimentarem incorporar a I.A. nos seus currículos. Neste mês, a empresa detalhou planos para integrar o ChatGPT em todas as dimensões da vida universitária, com os estudantes a receberem contas de I.A. “personalizadas” para acompanhá-los ao longo dos anos de faculdade.

Mas, para os departamentos de inglês e para o ensino de redação universitária em geral, a chegada da inteligência artificial tem sido mais problemática. Porque é que nos devemos ainda preocupar em ensinar redação? O futuro da redação de meio de semestre pode parecer uma preocupação antiquada diante de questões maiores sobre as implicações da inteligência artificial, como o seu impacto no meio ambiente ou na automação de empregos. E, no entanto, houve algum momento na história humana em que a escrita foi tão importante para a pessoa comum? E-mails, mensagens de texto, colocar textos nas redes sociais, comentários raivosos em seções de comentários, conversas com o atendimento ao cliente — sem falar no próprio trabalho. A forma como escrevemos molda o nosso pensamento. Processamos o mundo por meio da composição de textos dezenas de vezes por dia, no que a estudiosa de literatura Deborah Brandt chama de nossa era da “escrita em massa”. É possível que a capacidade de escrever frases originais e interessantes se torne ainda mais importante num futuro em que todos tenham acesso aos mesmos assistentes de inteligência artificial.

Corey Robin, escritor e professor de ciência política no Brooklyn College, leu com ceticismo as primeiras reportagens sobre o ChatGPT. Mas então a sua filha, que na época estava no segundo ano do ensino secundário, usou a ferramenta para produzir uma redação que era tão boa quanto as que os seus alunos de graduação escreviam após um semestre de trabalho. Ele decidiu parar de atribuir redações para serem feitas em casa. Pela primeira vez nos seus trinta anos de ensino, passou a aplicar provas em sala de aula.

Robin disse.-me que considera muitas das medidas que as universidades adotaram para combater redações feitas por I.A. como “segurar pela mão sem levar a lugar nenhum”. Ele passou a acreditar no modelo de prova com identificação de trechos em caderno azul, em que os alunos nomeiam e contextualizam trechos do que leram para a aula. “Conheça o texto e escreva sobre ele com inteligência,” disse ele. “Essa era uma forma de honrar a autonomia dos alunos sem agir como um polícia.”

A filha dele, que agora está no último ano do ensino secundário, queixa-se de que os seus professores raramente atribuem livros completos. E Robin percebeu que os estudantes universitários se sentem mais à vontade com trechos do que com artigos inteiros, e preferem contos a romances. “Não tenho a impressão de que eles tenham o tipo de domínio literário ou cultural que antes era pressuposto para que lhes déssemos trabalhos”, disse ele. Um estudo, publicado no ano passado, constatou que cinquenta e oito por cento dos alunos de duas universidades do centro oeste dos EUA tiveram tanta dificuldade em interpretar os parágrafos iniciais de Bleak Houve, de Charles Dickens, que “não seriam capazes de ler o romance sozinhos”. E esses eram estudantes de Letras.

O retorno ao papel e caneta tem sido uma resposta comum à inteligência artificial entre os professores, com as vendas dos blue books [n.t. um livreto sem nada nas páginas, que os estudantes universitários nos EUA devem usar para escrever as suas respostas às perguntas do exame] a aumentarem significativamente em certas universidades nos últimos dois anos. Siva Vaidhyanathan, professor de estudos dos media na Universidade da Virgínia, ficou desanimado depois de alguns alunos terem entregue trabalhos que ele suspeitava terem sido gerados por IA — ironicamente, para um tema sobre como é que o código de honra da escola deveria lidar relativamente a trabalhos feitos por IA. Siva também decidiu voltar a usar blue books e está a considerar a logística de provas orais. “Talvez a gente volte tudo até 450 a.C.”, foi o que me disse.

Mas outros professores renovaram a sua ênfase em fazer que os alunos vejam o valor do processo. Dan Melzer, diretor do programa de composição para caloiros na Universidade da Califórnia, em Davis, lembrou que “toda a gente entrou em pânico” quando o ChatGPT surgiu. O trabalho de Melzer é pensar sobre como a escrita funciona em todo o currículo, para que todos os estudantes — desde aspirantes a cientistas até aos futuros advogados — tenham a chance de aprimorar a sua capacidade de escrita. Consequentemente, ele tem uma visão flexível sobre como as normas de comunicação mudaram, especialmente na era da internet. Ele demonstrou compreensão em relação aos jovens que viam algumas das suas tarefas como entediantes e mecânicas e recorriam ao ChatGPT para agilizar o processo. Ele considerou a redação de cinco parágrafos — a clássica estrutura “hambúrguer”, composta por uma introdução, três parágrafos de desenvolvimento e uma conclusão — de “ultrapassada”, por descender de tradições elitistas.

Melzer acredita que alguns estudantes detestam escrever por causa da forma como isso tem sido ensinado, especialmente nos últimos vinte e cinco anos. A Lei Nenhuma Criança É Deixada para Trás, de 2002, instituiu reformas baseadas em padrões em todas as escolas públicas, resultando em gerações de alunos ensinados a escrever de acordo com rubricas rígidas de testes. Como escreveu um professor no Washington Post em 2013, os estudantes destacavam-se quando dominavam uma forma de “má escrita”. Melzer desenvolveu oficinas que tratam a escrita como um processo deliberativo e iterativo, que envolve rascunho, retorno (de colegas e também do ChatGPT) e revisão.

Sim, é claro que vamos apanhar a gazela, assim que eu receba uma atualização do estatuto de todos vocês. Desenho de Kendra Allenby

 

“Se o professor atribui um tema genérico de redação e não participa em nenhum processo, apenas o recolhe um mês depois, é quase como se estivesse a criar um ambiente propício ao crime”, disse ele. “O professor está então a incentivar o crime na sua comunidade!”

Achei a abordagem pedagógica de Melzer inspiradora; instantaneamente senti-me mal por dividir rotineiramente a minha turma em pequenos grupos para que pudessem “trabalhar” os seus textos, como se o significado desse verbo fosse intuitivamente claro. Mas, como estudante, eu teria achado tedioso o foco de Melzer no processo — isso exige um certo grau de fé de que todo o esforço valerá a pena no final. Escrever é difícil, seja uma redação de cinco parágrafos ou um haku [3], e é natural, especialmente quando se é estudante universitário, querer evitar trabalho duro — é por isso que aulas como as de Melzer são obrigatórias. “O leitor pode imaginar que os alunos realmente querem estar ali”, disse a brincar.

A faculdade é toda sobre custos de oportunidade. Uma forma de ver a inteligência artificial (IA) é como uma intervenção na maneira como as pessoas escolhem gastar o seu tempo. No início dos anos sessenta, os estudantes universitários passavam cerca de vinte e quatro horas por semana em trabalhos escolares. Hoje, esse número é de cerca de quinze horas, um sinal, para os críticos do ensino superior contemporâneo, de que os jovens são beneficiários da inflação de notas — num estudo conduzida pelo Harvard Crimson, quase oitenta por cento da turma de 2024 relataram um GPA (Grade Point Average) [4] de 3,7 ou mais — e carecem da diligência dos seus antecessores. Não sei quantas horas eu gastava com trabalhos escolares no final dos anos noventa, quando estava na faculdade, mas lembro-me de sentir que nunca havia tempo suficiente. Suspeito que, mesmo que os estudantes de hoje passem menos tempo a estudar, eles não se sintam significativamente menos estressados. É da natureza da vida no campus que todos se assimilem a uma cultura de ocupação, e muita dessa ansiedade foi deslocada para atividades extracurriculares ou para buscas pré-profissionais. Um reitor de Harvard comentou que os estudantes se sentem compelidos a encontrar distinção fora da sala de aula porque, em grande parte, eles são indistinguíveis dentro dela.

Eddie, um estudante de sociologia na Long Beach State, é mais velho que a maioria dos seus colegas. Ele formou-se no ensino secundário em 2010 e trabalhou em tempo integral enquanto frequentava uma faculdade comunitária. “Passei por muita coisa para estar na faculdade”, disse-me. “Quero aprender o máximo que puder.” O ChatGPT, que o seu terapeuta lhe recomendou, já era onipresente em Long Beach mesmo antes do sistema da Califórnia State University, do qual Long Beach faz parte, anunciar uma parceria com a OpenAI, dando acesso ao ChatGPT Edu para os seus quatrocentos e sessenta mil estudantes. “Eu estava um pouco desconfiado em relação à sua adequabilidade, disse Eddie. “Parecia saber muito, de uma forma que parecia tão humana.”

Ele disse-me que usava a inteligência artificial “como um exercício de geração de iedeias”, mas nunca para escrever o trabalho em si. “Eu limito-me, com certeza”. Eddie trabalha para o Condado de Los Angeles e estava a conversar comigo durante uma pausa. Admitiu que, quando estava apertado de tempo, às vezes usava o ChatGPT para criar questionários. “Não sei se me estou a enganar”, disse ele. “Eu dei a mim mesmo oportunidades de agir eticamente, mas, se estou com pressa para o trabalho, não me sinto mal com isso”, especialmente para disciplinas fora da sua área principal.

Eu reconheci o conflito do Eddie. Eu usei o ChatGPT algumas vezes, e numa ocasião ele realizou uma tarefa de agendamento tão rapidamente que comecei a entender a intoxicação da hiper eficiência. Senti a necessidade de me conter para não me entregar a consultas ociosas. Quase todos os estudantes que entrevistei nos últimos meses descreveram a mesma trajetória: desde usar a IA para ajudar a organizar os seus pensamentos até descarregar todo o processo de pensar. Para alguns, isso tornou-se algo parecido com uma rede social, constantemente aberta no canto do ecrã, um portal para distração. Não era como pagar a alguém para escrever um trabalho para nós — não havia atrito social, nem aura de atividade ilícita. Também não parecia compartilhar anotações, ou apresentar como sua própria análise o que você tinha lido no CliffsNotes ou SparkNotes [n.t. série de brochuras com resumos e análises básicas de obras literárias, destinadas a ajudar o estudo]. Não havia tempo real para refletir sobre questões de originalidade ou honestidade — o estudante basicamente tornou-se um gestor de projeto. E para os estudantes que o utilizam da mesma forma que Eddie, como uma espécie de “painel de testes” [5], não há um limite claro em que o trabalho deixa de ser uma criação original. Em abril, a Anthropic, a empresa por trás do Claude, divulgou um relatório baseado em um milhão de conversas anónimas entre estudantes e os seus robôs de conversação. O relatório sugeriu que mais da metade das interações dos utilizadores poderia ser classificada como “colaborativa”, envolvendo um diálogo entre estudante e IA. (Presumivelmente, o restante das interações era mais de caráter extrativo.)

May, uma estudante do segundo ano em Georgetown, inicialmente resistia a usar o ChatGPT. “Não sei se era uma questão ética”, disse ela. “Eu só achava que poderia fazer a tarefa melhor, e não valia a pena o tempo economizado.” Mas ela começou a usá-lo para rever os seus ensaios, depois para gerar cartas de apresentação, e agora usa para “praticamente todas” as suas aulas. “Não acho que isso me tenha tornado uma escritora pior”, disse. “Talvez me tenha tornado uma escritora menos paciente. Eu costumava passar horas a escrever ensaios, cuidando minuciosamente da minha escolha de palavras, realmente a pensar em como formular as frases”. A faculdade fê-la refletir sobre a sua experiência numa escola secundária extremamente competitiva, onde ela tirava as melhores notas, mas retinha muito pouco conhecimento. Como resultado, ela foi uma das poucas alunas que achou a faculdade relativamente tranquila. O ChatGPT ajudou-a a superar as tarefas repetitivas e aprofundar o seu envolvimento nas matérias pelas quais sentia paixão. “Eu estava a tentar pensar, para onde é que vai todo esse tempo?”, disse ela. Eu nunca tinha sentido inveja de um estudante universitário até que ela me disse a resposta: “Eu durmo mais agora”.

Harry Stecopoulos é responsável pelo departamento de inglês da Universidade de Iowa, que conta com mais de oitocentos alunos matriculados. No primeiro dia da sua disciplina introdutória, ele pede aos estudantes que escrevam à mão uma análise de duzentas palavras sobre o parágrafo inicial do livro “Homem Invisível”, de Ralph Ellison. Há sempre alguns resmungos, e ocasionalmente alguns alunos saíram da sala. “Gosto desse exercício como um marcador de tom, porque ele realça a escrita deles”, disse-me este professor.

O retorno aos exames em cadernos azuis pode prejudicar os estudantes incentivados a dominar a digitação desde cedo. Uma vez acostumado aos ritmos suaves da digitação, voltar ao papel e caneta pode parecer sufocante. No entanto, os neurocientistas descobriram que a “experiência incorporada” da escrita manual ativa áreas do cérebro que a digitação não alcança. Ser capaz de escrever de uma maneira — mesmo que mais eficiente — não torna a outra obsoleta. Há algo elevado no exercício de Stecopoulos no primeiro dia de aula. Mas há um outro motivo para isso: o parágrafo escrito à mão também inicia um rastro de papel, atestando voz e estilo, que um assistente de ensino pode consultar se um trabalho suspeito for entregue.

Kevin, um estudante do terceiro ano da Universidade de Syracuse, lembrou-se de que, no primeiro dia de aula, o professor pediu a todos que escrevessem algumas ideias à mão. “Isso fez-me sorrir”, disse Kevin. “Os outros alunos estão a coçar o pescoço e a suarem, e eu estou tipo: ‘Isto até é agradável.’”

Kevin trabalhou como assistente de ensino num curso obrigatório que os estudantes do primeiro ano fazem para se adaptar à vida no campus. As tarefas de escrita envolviam perguntas básicas sobre o histórico dos estudantes, contou-me ele, mas eles frequentemente usavam inteligência artificial mesmo assim. “Fiquei muito perturbado”, disse ele. Ele usa inteligência artificial ocasionalmente para ajudar com traduções no seu curso avançado de árabe, mas passou a desprezar aqueles que dependem muito dela. “Eles quase se esquecem que têm a capacidade de pensar”, afirmou. Como muitos ex-resistentes, Kevin sentia que a sua utilização criteriosa da IA era mais justificável do que a utilização que os seus colegas faziam dela.

À medida que o ChatGPT começa a soar mais humano, vamos repensar o que significa soar como nós mesmos? Kevin e alguns dos seus amigos orgulham-se de ter um ouvido afinado para textos gerados por IA. As características, segundo ele, incluem um excesso de travessões (—) e uma voz que parece desinteressadamente objetiva. Uma pessoa conhecida tinha submetido a um detetor um ensaio escrito por si mesma, porque estava preocupada que estivesse a começar a expressar-se como o ChatGPT. Ele leu o ensaio dela: “Eu dei-me conta que, de facto, o texto soava um pouco a ChatGPT. Isso assustou-me um pouco.”

Uma característica particularmente cativante do ChatGPT é que, quando se aponta um erro, ele responde com o tom defensivo de um aluno arrependido. (“Peço desculpas pela confusão anterior…”) Os seus erros são frequentemente chamados de “alucinações”, um termo que parece antropomorfizar a IA, evocando a imagem de um assistente privado de sono. Alguns professores disseram-me que pedem aos alunos que verifiquem os factos apresentados pelo ChatGPT, como forma de discutir a importância da pesquisa original e de mostrar a falibilidade da máquina. As taxas de alucinação pioraram na maioria das IAs, sem uma única explicação para o aumento. Como um investigador disse ao The Times: “Ainda não sabemos exatamente como funcionam esses modelos.”

Mas muitos estudantes afirmam não se incomodar com os erros da IA. Eles parecem indiferentes à questão do desempenho académico e estão até dissociados do seu próprio trabalho, já que ele só é deles teoricamente. Joseph, um atleta da I Divisão numa universidade da Big Ten, disse-me que não via problema em usar o ChatGPT para as suas aulas, mas fez uma exceção: queria vivenciar o seu curso de literatura africana “autenticamente”, porque envolvia a sua herança cultural. Alex, o estudante da NYU, disse-me que, se um dos seus trabalhos feitos com IA recebesse uma má nota, a sua deceção estaria centrada no facto de ter gasto vinte dólares na assinatura do serviço. August, uma estudante do segundo ano na Columbia que estuda ciência da computação, contou-me sobre uma aula em que ela foi obrigada a compor uma pequena palestra sobre um tópico da sua escolha. “Era uma aula em que toda a gente tinha a garantia de tirar A, então eu só peguei no texto, coloquei-o no papel e talvez tenha colocado umas duas palavras e entreguei-o”, disse ela. O seu professor identificou o seu ensaio como um trabalho exemplar, e ela foi convidada a lê-lo para uma turma de duzentos alunos. “Eu fiquei um pouco nervosa”, admitiu ela. Mas então percebeu: “Se eles não gostarem, não haveria problema, não fui eu que o escrevi, sabe?”

Kevin, em contraste, desejava um tipo mais geral de distinção moral. Perguntei se ele se importaria de receber uma nota mais baixa numa redação do que um colega que usou o ChatGPT. ‘Parte de mim consegue separar as coisas e não ficar irritado com isso’, disse ele. ‘Eu desenvolvi-me como ser humano. Posso ter um complexo de superioridade sobre isso. Aprendi mais.’ Ele sorriu. Mas então continuou: ‘Parte de mim também pode ficar tipo, Isto é tão injusto. Eu teria adorado sair mais com os meus amigos. O que ganhei eu? Tornei a minha vida mais difícil durante todo esse tempo.’

Nas minhas conversas, sobre como os estudantes universitários invariavelmente viam o ChatGPT como apenas mais uma ferramenta, pessoas acima dos quarenta anos focavam-se sobre os seus efeitos, traçando uma comparação com o GPS e a erosão da nossa relação com o espaço. Os taxistas de Londres, rigorosamente treinados no “the knowledge” (o conhecimento detalhado das ruas), desenvolveram hipocampos posteriores anormalmente grandes – a parte do cérebro crucial para a memória de longo prazo e a perceção espacial. Mesmo assim, no final, a maioria das pessoas provavelmente preferiria viagens mais rápidas que memórias mais profundas. O que vale a pena preservar, e com o que é que nos sentimos confortáveis em abrir mão em nome da eficiência?

E se levarmos a sério a ideia de que a assistência da IA pode acelerar a aprendizagem — que os estudantes de hoje estão a chegar aos seus objetivos mais rapidamente? Em 2023, investigadores de Harvard introduziram um tutor de IA com ritmo personalizado num curso popular de física. Os alunos que usaram o tutor de IA relataram níveis mais altos de envolvimento e motivação e saíram-se melhor num teste do que aqueles que aprenderam apenas com um professor. May, uma estudante de Georgetown, contou-me que frequentemente pede ao ChatGPT para gerar questões extras de prática quando está a estudar para uma prova. Será que a IA está aqui não para destruir a educação, mas para a revolucionar? “Barry Lam leciona no departamento de filosofia da Universidade da Califórnia, Riverside, e apresenta um podcast popular, Hi-Phi Nation, que aplica métodos filosóficos de investigação a temas cotidianos. Ele começou a perguntar-se o que significaria para a IA ser realmente uma ferramenta de produtividade. Ele falou comigo do estúdio de podcast que construiu. ‘Agora os alunos conseguem gerar em trinta segundos o que antes me levava uma semana’, disse. Ele comparou a educação à marcenaria, um dos seus muitos hobbies.” Será que qualquer passaria a usar ferramentas elétricas sem aprender a serrar manualmente? Se os alunos estivessem a aprender mais rápido, então fazia sentido que Lam lhes atribuísse ‘algo muito difícil’. Ele queria testar essa teoria, e nos exames finais colocou então aos seus alunos de licenciatura uma questão de nível de doutorado envolvendo linguagem denotativa [6] relacionada com o trabalho do lógico alemão Gottlob Frege [7] — que, francamente, estava além da minha compreensão. Eles falharam miseravelmente, bolas” disse ele. Ele ajustou a sua curva de avaliação em conformidade.

Desenho por Liana Finck

 

Lam não considera que o uso da I.A. seja moralmente indefensável. “Não é plágio no sentido de copiar e colar”, argumentou, porque tecnicamente não há uma versão original. Em vez disso, ele vê a utilização da IA como um potencial desperdício de tempo para todos. No início do semestre, ele disse aos alunos: “Se for apenas para me entregarem o vosso trabalho gerado pelo ChatGPT, então eu vou corrigir todo o vosso trabalho utilizando o ChatGPT e todos nós podemos ir para a praia.”

Ninguém entra na carreira de ensino porque gosta de corrigir provas. Conversei com um professor que falou entusiasticamente sobre o quanto os seus alunos estavam agora a aprender mais uma vez que ele tinha substituído redações por provas curtas. Perguntei se ele sentia falta de corrigir redações. Ele riu e disse: “Sem comentários.” Uma estudante de licenciatura da Northeastern University acusou recentemente um professor de usar IA para criar materiais do curso; ela fez uma reclamação formal na universidade, solicitando o reembolso de parte da sua mensalidade. A confusão revelou a tensão entre o motivo pelo qual muitas pessoas vão para a faculdade e o motivo pelo qual os professores ensinam. Os estudantes são criados para entender o sucesso como algo discreto e mensurável, mas quando chegam à faculdade, encontram pessoas como eu, implorando para que enfrentem a dificuldade e a abstração. Pior ainda, dizem-lhes que as notas não importam tanto quanto importavam na altura em que estavam a tentar entrar na faculdade — só que, neste ponto, os estudantes estão programados para encontrar o caminho mais eficiente possível para obter boas notas.

À medida que a arte da escrita é degradada pela inteligência artificial, a escrita original tornou-se um recurso valioso para o treino dos modelos de linguagem. No início deste ano, uma empresa chamada Catalyst Research Alliance anunciou a disponibilização de “dados de discursos académicos e de trabalhos de estudantes” provenientes de dois estudos realizados no final dos anos 1990 e meados dos anos 2000 na Universidade de Michigan. A universidade solicitou que a empresa interrompesse essa atividade — os dados já estavam disponíveis gratuitamente para académicos — e um porta-voz da instituição declarou que os dados dos estudantes “não estavam e nunca estiveram à venda.” No entanto, a situação levou muitas pessoas a perguntarem-se se as instituições começariam a encarar os trabalhos originais de estudantes como uma possível fonte de receita.

De acordo com um estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a inteligência humana tem diminuído desde 2012. Uma avaliação feita com dezenas de milhares de adultos em quase trinta países mostrou uma queda geral, ao longo de uma década, nas pontuações de testes de matemática e compreensão de leitura. Andreas Schleicher, diretor de educação e competências da OCDE, levantou a hipótese de que a forma como consumimos atualmente a informação — muitas vezes por meio de textos curtas nas redes sociais — tem relação com esse declínio na alfabetização. Um dos melhores desempenhos da Europa na avaliação foi o da Estónia, que anunciou recentemente que introduzirá inteligência artificial para alguns estudantes do ensino secundário nos próximos anos, substituindo redações escritas e exercícios mecânicos de deveres de casa por aprendizagem autodirigida e provas orais.

Lam, o professor de filosofia, foi meu colega, e por um curto período de tempo foi também meu vizinho. De vez em quando, eu olhava pela janela e via-o a construir uma cerca ou a cuidar do jardim. Ele é um entusiasta cozinheiro amador, guitarrista e carpinteiro, e continua convencido de que há valor em aprender a fazer as coisas da maneira trabalhosa, antiquada e — como ele diz — “artesanal”. Ele contou-me que a sua esposa, Shanna Andrawis, professora do ensino secundário desde 2008, frequentemente discordava dos seus métodos despreocupados para lidar com os grandes modelos de aprendizagem. Andrawis argumenta que a desonestidade sempre foi um problema. “Estamos a tentar educar em massa”, disse ela, significando que há menos espaço para ser exigente com o processo pedagógico. “Não tenho conversas com alunos sobre escrita ‘artesanal’. Mas converso com eles sobre a relação professor-aluno. Respeitem-me o suficiente para me darem a vossa voz autêntica, mesmo que possam achar que eu não seja muito boa. Tudo bem. Eu quero encontrar-vos lá onde vocês estão”.

No final das contas, Andrawis temia menos o ChatGPT do que as condições mais amplas de ser jovem nos dias de hoje. Os seus alunos estão a ficar cada vez mais introvertidos, olhando para os seus telemóveis sem muito desejo de ‘praticar superar aquela timidez’ que define a vida adolescente, como ela disse. A inteligência artificial pode contribuir para essa deterioração, mas não é a única culpada. É “uma cerejinha em cima de um pequeno gelado, tipo sorvete, mas de muito má qualidade”, afirmou ela.

Quando o ano letivo começou, os meus sentimentos em relação ao ChatGPT estavam situados entre a deceção e o desdém, focados principalmente nos alunos. Mas, à medida que as semanas passavam, a minha perceção sobre o que deveria ser feito e quem era o culpado ficava cada vez mais confusa. Eliminar requisitos básicos, repensar as notas, ensinar ceticismo em relação à IA — nenhuma das soluções potenciais poderia reverter a situação e regressar às condições anteriores em que vivia a juventude americana. Os professores podem repensar a sala de aula, mas há muto poucas coisas que eles possam controlar. Eu não acreditava que as instituições de ensino passariam a encarar as novas tecnologias como algo que não fosse senão inevitável. Faculdades e Universidades, muitas das quais tentaram restringir o uso da IA há alguns semestres atrás, correram para se associar a empresas como OpenAI e Anthropic, considerando um produto que não existia quatro anos atrás como sendo essencial para o futuro da educação.

Exceto por um ano em que vagueei pela minha cidade natal, basicamente passei os últimos trinta anos em campus. Os estudantes de hoje veem a faculdade como consumidores, de uma forma que nunca me teria ocorrido na idade deles. Eles cresceram numa época em que a sociedade valoriza opiniões instantâneas, e não a deliberação lenta do pensamento crítico. Embora eu me tenha solidarizado com os diversos minidramas dos meus alunos, raramente me projeto nas vidas deles. Observo-os observando uns aos outros e deixo os mistérios das suas vidas seguirem em frente. As pressões que eles sentem são hoje tão diferentes das que eu sentia no meu tempo de estudante. Por mais que eu inveje o metabolismo deles, não gostaria de ter a visão de mundo que eles têm.

A educação, especialmente nas humanidades, baseia-se na crença de que, além das coisas práticas que os alunos podem reter, alguma ideia obscura mencionada de passagem pode enraizar-se nas suas mentes, florescendo anos depois, no futuro. A inteligência artificial permite que qualquer um de nós se sinta um especialista, mas é o risco, a dúvida e o fracasso que nos tornam humanos. Costumo dizer aos meus alunos que esta é a última vez nas suas vidas que alguém será obrigado a ler algo que eles escrevam, então é melhor que me digam o que realmente pensam.

Apesar de toda a histeria atual sobre alunos a fazerem batota, eles não são os culpados. Eles não pressionaram pela introdução de computadores portáteis quando estavam no ensino primário, e não é culpa deles que tenham tido que ir à escola através do Zoom durante a pandemia. Eles não criaram as ferramentas de IA, nem estavam na linha de frente promovendo a inovação tecnológica. Eles foram apenas os primeiros a adotar, tentando enganar o sistema numa época em que isso nunca foi tão fácil. E eles não têm mais controle do que qualquer um de nós. Talvez sintam essa impotência ainda mais intensamente do que eu. Num momento, dizem-lhes para aprender a programar; no seguinte, descobre-se que os empregadores procuram as “habilidades interpessoais” que alguém pode aprender cursando inglês ou filosofia. Em fevereiro, um relatório do Federal Reserve Bank de Nova York mostrou que os formados em ciência da computação tinham uma taxa de desemprego maior do que os de estudos étnicos – resultado, segundo alguns, da automação pela IA de empregos iniciais em programação.

Nenhum dos estudantes com quem conversei pareceu preguiçoso ou passivo. Alex e Eugene, os alunos da NYU, trabalhavam duramente — mas parte do seu esforço era direcionado a eliminar qualquer aspeto das suas experiências universitárias que parecesse supérfluo. Eles eram extremamente engenhosos.

Quando as aulas terminaram e os alunos estavam a mudar-se para as suas moradias de verão, troquei e-mails com Alex, que estava a instalar-se no East Village. Ele havia acabado de fazer as suas provas finais e estimou que gastou entre trinta minutos e uma hora para redigir dois trabalhos para as suas disciplinas de humanidades. Sem a ajuda do Claude, isso teria levado cerca de oito ou nove horas. “Não retive nada”, escreveu ele. “Não conseguiria dizer-te a tese de nenhum dos dois trabalhos hahhahaha”. Ele recebeu um A- (excelente) e um B+ (muito bom).

 

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Notas

[1] Agradeço a revisão extremamente cuidada deste texto feita  pelo Manuel Ramalhete. Como de costume, se persistirem gralhas a responsabilidade é logicamente apenas  minha, por ser o último a mexer no texto.

[2] N.T. Em português estas funções são desempenhadas pelos Técnicos Oficiais de Contas (TOC) e pelos Revisores Oficiais de Contas (ROC).

[3] N.T. Dado que a expressão haku pode ter vários significados (em japonês), neste contexto interpretamos a afirmação como sendo difícil escrever, sejam textos mais longos sejam textos poéticos mais curtos, tipo haku. Um dos significados de haku é o de um poema japonês curto.

[4] N.T.  Em português é a média de pontos das notas (de avaliação).

[5] N.T. No original “sounding board”.

[6] A linguagem denotativa usa as palavras no seu sentido literal, ou seja, sem ambiguidades ou interpretações subjetivas.

[7] Gottlob Frege foi um matemático, lógico e filósofo alemão (1848-1925).

 

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O autor: Hua Hsu [1977 – ] começou a sua colaboração com o The New Yorker em 2014 e tornou-se redator da equipa em 2017. Ele é o autor de “A Floating Chinaman: Fantasy and Failure Across the Pacific” e do livro de memórias vencedor do Prêmio Pulitzer “Stay True”. Ele serviu no Conselho editorial do livro “A New Literary History of America”. Hsu é atualmente professor de literatura no Bard College e faz parte do Conselho Executivo do Workshop de Escritores Asiáticos Americanos. Ele publica Suspended in Time, uma série de magazines sobre música e vida.

 

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