Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre
Um olhar crítico sobre o ensino em Portugal, sobre a Inteligência Artificial (2/2)
por Júlio Marques Mota
Terceira Parte
A caminho da desconstrução da Universidade com a Inteligência Artificial
Voltámos a encontrar-nos, agora através dos media, depois de ter tomado posse. Gostei de o ver, gostei de o ouvir, uma vez que como ministro não abdicou da sua posição de cidadão, de pai cuidadoso e preocupado com os seus filhos e, como ministro, preocupado com a edução e a saúde dos filhos dos outros. O texto que se segue é então dirigido ao ministro da Educação
Sinceramente desde há décadas que não vejo um ministro da Educação falar assim e que esse discurso sadio venha da direita, acrescento, foi para mim, que sou de esquerda, um facto difícil de engolir contra a cobardia dos ministros do PS em enfrentar os problemas da Educação no nosso país, o ministro Fernando Alexandre apresentou um diagnóstico relativamente coerente da situação estudantil. Foi uma alegria ouvir as suas intervenções. Na época escrevi o que abaixo transcrevo com leves modificações:
No seu caso assinalo duas intervenções suas que considero típicas do que acabo de dizer. A primeira delas foi uma sua intervenção na televisão ocorrida no mês de agosto. Simplesmente gostei, e gostei mesmo muito. Falou do problema dos jovens adultos à saída do liceu e à entrada na Universidade, falou da transposição dos estudantes das pequenas cidades para as grandes cidades, para as grandes Universidades, falou dos múltiplos apoios que estes jovens poderiam precisar e a todos os níveis, entre os quais os apoios psicológicos ou de saúde mental. Sinceramente haja a coragem de criar Serviços Sociais em cada uma das Universidades dedicados aos apoios de diversos tipos aos nossos estudantes. A maioria deles são jovens adultos muito imaturos, gente deslocada fora da família, não o esqueçamos.
Nesse seu discurso, sinceramente não era apenas o Ministro da Educação que falava, era também o pai cuidadoso, era o pai atento ao crescimento dos seus filhos, era o cidadão atento à sociedade do seu tempo e dos seus problemas que estava ali à minha frente, na televisão. Nunca vi um ministro da Educação falar assim, tão humanamente assim. Era como se este papel de ministro tenha estado durante décadas ausente, e totalmente, como se este tivesse sido reduzido a zero. Gostei, gostei mesmo muito. Ainda agora, julho-agosto de 2025, o João Miguel Tavares escreve que os piores ministros da educação de que se lembra foram do PS, Tiago Rodrigues e João Costa, lista à qual eu acrescento Maria de Lurdes Rodrigues e Manuel Heitor. Mas refiro que a direita também não teve melhor gente. Olhe-se para o patético ministro Nuno Crato, para nos convencermos desta triste realidade.
O texto de então referia-se a duas suas intervenções enquanto Ministro da Educação, onde se dizia:
assinalo duas intervenções suas que considero típicas do que acabo de dizer. A primeira delas foi uma intervenção na televisão ocorrida no mês de agosto. Simplesmente gostei, e gostei mesmo muito. Falou do problema dos jovens adultos à saída do liceu e à entrada na Universidade, falou da transposição dos estudantes das pequenas cidades para as grandes cidades, para as grandes Universidades, falou dos múltiplos apoios que estes jovens poderiam precisar e a todos os níveis, entre os quais os apoios psicológicos ou de saúde mental. Sinceramente haja a coragem de criar Serviços Sociais em cada uma das Universidades dedicados aos apoios de diversos tipos aos nossos estudantes. A maioria deles são jovens adultos muito imaturos, gente deslocada fora da família, não o esqueçamos.
Nesse seu discurso, sinceramente não era o Ministro da Educação que falava, era o pai cuidadoso, era o pai atento ao crescimento dos seus filhos, era o cidadão atento à sociedade do seu tempo e dos seus problemas. Nunca vi um ministro da Educação falar assim, tão humanamente assim. Era como se este papel de ministro estivesse ausente totalmente, como se este fosse reduzido a zero. Gostei, gostei mesmo muito.
Depois, já em setembro, houve uma outra intervenção sobre os estudantes de medicina, sobre a internacionalização do ensino. Aí a imagem que me foi dada era mais curiosa: o senhor ministro dava a sensação de que estava a fazer um discurso de obrigação, a vestir um fato que não estava à tua (começaste a tratar o ministro por você e, por isso, deves continuar a fazê-lo) medida, um discurso cujas palavras não eram por si sentidas enquanto cidadão e pai cuidadoso e os termos modernidade, competitividade, atratividade, concorrência, estavam lá todos. Era o discurso neoliberal puro e duro. Parecia o Álvaro Garrido a defender a FEUC nestes mesmos termos no Diário das Beiras. Mas sentia-se que o ministro estava incomodado com o que dizia, sentia-se que se sentia a vestir um fato que AINDA não era o seu. Em resumo, esta segunda intervenção diz-me que a sua transformação de cidadão humanamente atento para o papel de ministro humanamente desatento estava já a funcionar, mas AINDA não em pleno. Dito de outra forma, o mundo dos sem nada de onde veio o Fernando Alexandre ainda tem na tua (o mesmo que digo atrás) interioridade muitas raízes a oferecer resistência ao trabalho de transformação da tua (idem) pessoa-cidadão-pai em cidadão-ministro que quer continuar a ser. Penso, porém, que muito rapidamente se irá colocar no papel de ministro apenas e ignorar o papel de cidadão. Como é evidente, preferiria o percurso inverso.
Refiro aqui um autor que li no final dos anos 60, Nicos Poulantzas, sobre o poder onde se lia, e cito apenas de memória, que em democracia o governo é apenas a plataforma onde se gerem os conflitos de interesses, das classes dominantes ou de grupos no interior destas classes. Logicamente quando ascendem ao poder pessoas que representam interesses divergentes e níveis de poder muito diferentes são então os interesses dos grupos mais fortes que predominam e as características singulares que caraterizam as pessoas dos grupos perdedores começam a apagar-se em nome da conservação do poder e a serem substituídas pelas características dos vencedores, o governo passa então a falar a uma só voz! É o que está já a acontecer no PSD e um dia destes ouviremos os ministros da coligação a dizerem “Somos todos Spinumviva”. Foi o que aconteceu no PS e lembremo-nos da frase “Somos todos Centeno”. E quem discorda: rua! É assim que eu sempre vi a situação da saída de António José Seguro da arena pública. Acrescento ainda que a sua situação de sintonia com o governo de Luís Montenegro, um governo que caminha perigosamente para a direita, não é em nada diferente da sintonia do socialista António Costa com as quase-fascistas Ursula von der Leyen e a comissária europeia Kaja Kallas.
Quanto a si, senhor ministro Fernando Alexandre, estou a ver a coragem, mostrada com as suas declarações iniciais, a transformar-se, e rapidamente, numa cobardia em nada diferente da que marcou os responsáveis pela pasta da Educação do PS. Exemplos:
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A sua incapacidade em proibir de imediato o uso de telemóveis nas escolas do ensino primário secundário(?).
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Depois de uma fraude vê-se obrigado a impor a proibição da sua utilização. Mesmo aqui meteu dó a sua falta de coragem: a proibição vai apenas até aos miúdos do segundo ciclo do ensino obrigatório – como se para cima dos 12 anos se seja já adulto.
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Ensino digital – foi incapaz de proibir e de imediato a continuação do ensino digital.
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Foi preciso uma outra instituição, a Comissão Nacional de Acompanhamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), ter afastado “a possibilidade de uma adoção generalizada dos manuais escolares digitais, pelo menos no curto prazo e especialmente nos primeiros anos de escolaridade” para que o seu Ministério se pronunciasse. A partir da sua posição tardia, muito tardia, a minha neta vai voltar a ser ensinada através de livros. Mas o poder dos lóbis é aqui evidente: a utilização do ensino digital irá continuar para os anos seguintes do ciclo básico: como é possível pensar que os defeitos do ensino digital para miúdos até aos doze anos se transformem depois em qualidades para as idades seguintes? Será que se anda a gozar com o futuro do país, uma vez que estamos conscientemente a deformar a capacidade criativa futura da nossa juventude?
Os exames digitais. Insiste-se de novo em utilizar as tecnologias digitais. Teima-se de novo e as provas de exames são feitas em formato digital. Percebe-se a razão: os alunos cada vez mais sabem escrever menos e os professores cada vez mais são menos capazes de ler o que os alunos escrevem. Resolve-se o mal pela raiz: não há escrita manual. Continuando assim, a evitar as dificuldades, contornando-as, em vez de os ensinarmos a enfrentá-las, chegaremos a um ponto em que os diplomas não irão valer sequer a tinta gasta na sua emissão. Esta afirmação não é minha, é de Brad Delong ou de Robert Reich, já não me lembro bem de qual deles. Relembro aqui o que dizem as neurociências sobre a escrita manual, aquela que os homens do PS e agora os homens da AD sob a sua tutela querem quase que eliminar:
“No entanto, os neurocientistas descobriram que a “experiência incorporada” da escrita manual ativa áreas do cérebro que a digitação não alcança”.
Chegados aqui, deixe-me relatar uma pequena história, acontecida nos anos 2000. Por volta desta data, o filho de uma amiga tinha graves complicações respiratórias. A mãe, à cautela, dirigiu-se às urgências do Hospital de Évora com o miúdo. Viviam em Montemor-o-Novo. O médico viu o miúdo, passou a receita e mãe e filho regressaram a Montemor-o-Novo. A mãe foi à farmácia para aviar a receita. Percalço: a empregada da farmácia não entendia o que estava escrito na receita. Chamou a dona da farmácia e esta igualmente não foi capaz de ler o que estava escrito na receita. Esta mãe, aflita, voltou a Évora com a receita para que o médico a colocasse em letra legível. Pasme-se; o médico não foi capaz de ler o que escrevera cerca de duas horas antes. A mãe teve que voltar a Montemor-o-Novo e trazer de novo o miúdo ao Hospital de Évora. Foram quilómetros para cá e para lá até que o miúdo começasse a tomar os devidos medicamentos. Dada a gravidade da situação e com os tempos perdidos de idas e voltas a Évora por causa da letra de uma receita médica, o miúdo poderia ter morrido. Felizmente está bem, pois falei com ele nesta última sexta-feira. Idade do médico: supostamente cerca de 30 anos. Estamos no ano 2000. O médico terá nascido à volta de 1970, ou seja, fez a primária num período de liberdade total onde se considerava que cada miúdo deveria escrever da forma que mais lhe aprouvesse. Irresponsabilidade total – ensino sem fricção é o que se defendia na altura, é o que se continua a defender ainda hoje. Lamentavelmente assim. Ensino sem fricção, aprendizagem sem custo pessoal, é coisa que não existe.
Uma das linhas de ataque à crise do ensino de hoje deverá começar exatamente na primária. Exigem-se hoje mais ditados, mais redações, (composições), exigem-se mais cópias, exige-se que o professor tenha dignamente tempo para tudo isto e isso pressupõe, senhor Ministro, turmas mais pequenas. Exigem-se ainda espaços de recreio adequados e pessoal de apoio nestes recreios com preparação para lidar com crianças e estas, tenhamos consciência disso, precisam de aprender também a brincar umas com as outras. Um dos efeitos para esta necessidade urgente advém exatamente dos efeitos nefastas das tecnologias digitais[1] tão apregoadas, e tanto pelos “modernistas” do PS como pelos conservadores da AD. Isto pode parecer patético, mas não é, chega-se aos 20 anos e não o sabem. Basta ver o que se tem passado nas diferentes Queima das Fitas. Ao longo dos anos tem havido selvajaria da mais pura e dura.
Neste contexto penso que é necessário rever o que se faz nas Escolas Superiores de Educação, uma vez que o tempo da formação barata para professores, que foi estabelecida pelo Banco Mundial nos anos 70 para os países do Terceiro Mundo, deve ser considerado extinto. Proponho o contrário do que se tem estado a fazer, e o que se tem estado a fazer que é a alargar as competências dos atuais licenciados pelas Escolas Superiores de Educação sem sequer se discutir a qualidade da sua formação.
Se não for assim passaremos a ter, curiosamente, muitos mais casos como o do médico referido, teremos cirurgiões sem a devida motricidade fina para estar a operar, teremos arquitetos incapazes de corrigir à mão os planos de construção, teremos engenheiros incapazes de estabelecer o desenho de uma qualquer peça para uma máquina, etc., etc… Continuar pelo caminho que temos seguido, será o fim do ensino condigno etc., etc., será precisamente estarmos a alargar a possibilidade de criar cretinos digitais em larga escala.
Senhor Ministro, falo de problemas graves cujos efeitos a prazo podem ser terríveis. Há todo um trabalho a fazer desde a primária até ao superior, articulando programas e colocando-os com um grau de dificuldade adaptado às faixas etárias a que se destinam. Quanto ao nosso país, dou-lhe três a quatro exemplos que ilustram culturalmente o país que temos:
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Vou a uma farmácia e compro três produtos que estão com um desconto de 25% cada. Atende-me um a jovem farmacêutica na casa dos 30 anos. Ela e eu dirigimo-nos para a caixa. Pega na máquina de calcular e faz uma coisa que eu não imaginava. Os produtos são X1, X2 e X3. O que ela faz é o seguinte: regista à mão o valor X1x0.75, depois X2x0,75 e por fim X3x0,75 e, por fim, acha a soma destes valores. Disse-lhe: não seria mais fácil somar os valores X1+X2+X3 com a máquina e multiplicar por 0,75? Sabe, a máquina faz tudo, diz-me a rir. Pense-se o que se quiser, mas foi assim. Terá possivelmente uma licenciatura em Farmácia, terá as matemáticas do 12º ano.
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Vou com um amigo meu a uma geladaria. Este pede um gelado de duas bolas e eu uma garrafa de água. O empregado traz a minha garrafa de água e o gelado para o meu amigo. O meu amigo diz ao empregado: parece-me que as bolas vêm ocas. Ocas? O que é isso? É o que nos pergunta o empregado. É aluno do 2º ano de uma Faculdade e está em part-time.
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Vou a uma empresa multinacional que tem habitualmente rigor na qualidade dos empregados que admite e quero adquirir uma máquina nova, dizendo-lhe qual é. A máquina que eu quero adquirir está ao lado da máquina que eu já tenho. Peço ao empregado que me diga a diferença de profundidade das duas máquinas. Surge inesperadamente uma pergunta: profundidade? O que é isso? Disse-lhe: deixe estar, posso ver as máquinas de mais perto? Pode, respondeu. Vi-as, tinham aproximadamente um centímetro de diferença, em termos de profundidade. Levo aquela máquina, disse-lhe. Garantidamente trata-se de alguém com o 12º ano e não sabe o significado da palavra profundidade em termos de medida.
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Fui ao cinema ver o filme Ainda estou aqui. A fila para compra de bilhetes era razoável. À minha frente estava um grupo de 8 jovens que irradiavam alegria por todos os poros. Chegou a vez deles de comprarem os bilhetes. Um deles pede 8 lugares. A vendedora dos bilhetes, uma estudante universitária, diz-lhes: temos uma promoção. Por cada 5 bilhetes damos um. Vou dar-vos um conjunto de 6 bilhetes e depois mais dois bilhetes. E o pagador paga por Pay Pal duas vezes; os 5 bilhetes e os dois bilhetes. E o mais caricato veio depois: os 8 estudantes, por causa de um bilhete oferecido, tiveram dificuldade em saber quanto cabia a cada um pagar! Eu nem queria acreditar no que se estava a passar à minha frente!
E poderíamos continuar, mas não vale a pena. Este é o país que nós temos, esta é uma realidade que é honestamente necessário enfrentar e para a qual é necessária muita coragem e pedagogicamente muita competência e estas qualidades faltam a muita gente. E a última pessoa a quem pode faltar é a si, senhor Ministro.
Mas as linhas de análise que proponho para o ensino primário estendem-se de imediato ao 2º e 3º ciclos do ensino básico e também ao ensino secundário[2]. Sempre turmas mais pequenas e mais exigências nos trabalhos de casa, com tempo para serem vistas sem ser em diagonal e discutidos em aula sempre que conveniente. De resto, muitos dos seus professores têm a mesma formação científica e pedagógica dada pelas Escolas Superiores de Educação. Não vale, pois, a pena alongarmo-nos por aqui.
Tenho oitenta e dois anos, já vivi muito e pela minha frente passaram muitas coisas. Vejamos mais uma pequena história. Nunca abdiquei da minha exigência, mas custava-me ver estudantes a arrastarem-se pela Faculdade. Criei uma turma especial no final da tarde para alunos com mais de 3 anos de presença na disciplina de Economia Internacional. A aula decorria da seguinte maneira: um aluno pedia a solução de um exercício do seu caderno de problemas. Aí, eu explicava a teoria ligada ao exercício referido e depois levava o aluno a conseguir fazer o respetivo exercício. Seguia-se um segundo exercício e assim sucessivamente. Isto passava-se aula a aula. O esforço intelectual era enorme e eu saia sempre exausto dessa aula. Um acrescento a esta história: essa aula decorreu durante alguns anos. Nunca foi reconhecida no meu horário e isso significava que era uma oferta minha aos estudantes.
Mais uma vez relato esta história não como auto-elogio, mas sim como expressando o meu espírito de missão. Mas a história é muito importante, muito importante mesmo, porque os alunos faziam exames como os outros em provas vistas por mim e por aqueles que trabalhavam comigo, e estes não sabiam quem ia a estas aulas, e os resultados finais eram espantosos: só reprovei uma só pessoa e porque esta terá apanhado o comboio no final e de forma oportunista. Só há uma explicação para resultado espantoso: a empatia professor-aluno tida pela proximidade e quase intimidade com que essa aula decorria levava a que os estudantes se empenhassem, assumissem a fricção que hoje se não quer, e os resultados escolares tornaram-se visíveis.
Com este texto já concluído procurei na Internet alguma explicação para estes estranhos resultados e entre o que li seleciono duas citações que se coadunam como explicação para este resultado:
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De Bloom B. S., Learning for Mastery (University of California Press, Los Angeles, USA, 1968)
“Cada professor inicia um novo período (e o curso é fútil para os estudantes) com a expectativa de que cerca de um terço dos seus alunos aprenderá adequadamente o que ele tem a ensinar. Ele espera que cerca de um terço dos seus alunos reprove ou apenas “passe à tangente”. Por fim, espera que outro terço aprenda boa parte do que ele tem a ensinar, mas não o suficiente para se ser considerado “bom aluno”. Esse conjunto de expectativas, apoiado pelas políticas e práticas escolares de avaliação, é transmitido aos alunos por meio dos procedimentos de classificação e dos métodos e materiais de ensino. O sistema cria uma profecia autorrealizável, de modo que a classificação final dos alunos através do processo de avaliação torna-se aproximadamente equivalente às expectativas iniciais.
A maioria dos alunos (talvez mais de 90%) pode dominar o que temos a ensinar, e a tarefa do ensino é encontrar os meios que permitam aos nossos alunos dominar a matéria em questão. A nossa tarefa fundamental é a de determinar o que entendemos por domínio da matéria e procurar dispor dos métodos e materiais que permitam à maior proporção de nossos alunos atingir esse domínio.” Fim de citação.
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De Kenneth R Koedinger e all Lê-se de um extenso artigo publicado em 2023:
“Qualquer pessoa pode aprender a ser boa em qualquer coisa que desejar? Ou o talento, como ter “facilidade para matemática” ou “dom para aprender línguas”, é ele necessário? Os nossos resultados sugerem que, uma vez que sejam dadas condições favoráveis de aprendizagem para a prática deliberada e desde que o estudante invista esforço em oportunidades de aprendizagem suficientes, de facto, qualquer pessoa pode aprender o que quiser. Se for verdade, essa implicação é uma boa notícia para a equidade educacional — desde que os nossos sistemas educacionais possam fornecer as condições favoráveis necessárias e consigam motivar os alunos a envolverem-se nelas.” Fim de citação.
Repare-se que no quadro daquela aula reunia-se toda uma mudança de condições de estudo e de relações interpessoais, de muitas condições mesmo, e ao ponto até de se criar o sentimento de cada aluno se sentir obrigado perante o coletivo em se aplicar a fundo de modo a não se sentir pelos outros e perante o professor.
Curiosamente, na lógica de Benjamim Bloom tentava-se que o terceiro terço dos alunos, os que se situavam abaixo da tangente, subissem pelo menos um pouco para lá da tangente e isso conseguiu-se.
Um exemplo parecido com a das duas estudantes africanas. No final de julho, com as avaliações já concluídas, esperam-me à porta do meu gabinete duas alunas desta turma especial, uma mulher na idade dos 40 e a segunda na idade dos sessenta anos. Querem falar comigo. Entramos, sentam-se à minha frente. Dizem que me vêm agradecer o que fiz por elas e entregar-me cada uma delas uma lembrança. A mulher mais nova, mulher de um médico de Rio Maior, trouxe um bolo de produção local, e a segunda uma garrafa de whiskey Chivas Regal engarrafado possivelmente há mais de 40 anos. O papel de celofane original estava amarelo de queimado pelo tempo. Fiquei enrascadíssimo, sem saber bem o que fazer, mas senti que a rejeição seria para aquelas duas mulheres, que tinham acabado o seu curso com Economia Internacional, uma afronta, tal era a emoção com que se apresentavam, que acabei por aceitar.
O importante aqui a considerar é a necessidade de turmas pequenas e explicar por que é que isso pode ser importante. Nada mais que isso.
Para esclarecer a necessidade de olhar para o que se passa no ensino básico e secundário assinalo dois exemplos, a partir de cada uma das minhas netas:
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Vejam-se os manuais de matemática do 8º e 9º ano. Analise-se o que se ensina sobre paralelismo de retas, que é ensinado à base de vetores. Não quis acreditar quando tive que tirar uma dúvida à minha neta. Fui falar com um professor catedrático em Matemáticas sobre esta matéria pois era-me impensável que esta matéria fosse ensinada e desta forma para o nível etário dos miúdos de 13-14 anos. O meu amigo professor catedrático em matemática ficou igualmente de olhos esbugalhados. Impensável, foi o que me disse.
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No caso da minha neta de 11 anos o problema de matemática a resolver é o seguinte:
O RUI foi com o pai a uma loja de desporto. O Rui quis comprar 2 raquetas e 100 bolas de ténis de mesa, pois achava que eram muito baratas.
Quando chegou à caixa registadora a funcionária disse que teriam de pagar 55 euros.
O livro mostrava uma figura onde está marcado o preço das
raquetes – 2.50 euros cada e 0,5 euros cada bola.
O pai do Rui disse que o custo era muito elevado e pediu-lhe que voltasse a colocar 90 das 100 bolas no cesto onde estavam.
Pergunta: que preço achas que o Rui pensava que lhe custava cada bola?” fim de citação.
O problema está mal colocado. Ao Rui não lhe foi imposto um limite para compras. Só depois de estar na caixa é que o pai determina o limite para a compra. Logo a pergunta não tem qualquer sentido.
Apresentei este problema de matemática feito para miúdos de 11 anos a um antigo professor do ISEG, do campo das matemáticas duras, e o que me diz sobre o mesmo:
“Eu acho a pergunta um bocado idiota, supostamente um miúdo (pequeno) quer, e o pai avalia e decide. Mas isto é pergunta do ensino? Se é, então o ensino está pior do que pensava, não só é mau, como os professores aparentam ser idiotas, talvez já tenham apanhado um ensino tão mau e assim ficaram. Com se trata de um adulto e um miúdo, o miúdo é apenas para usufruir como brinquedo sem se importar com o seu preço. Nem faz sentido envolvê-lo para além de se gosta ou não, é miúdo não adulto. O meu raciocínio refere-se ao agente da decisão, o adulto, o outro, o miúdo, não é agente de decisão/avaliação. Em rigor, qualquer que fosse a resposta, incluindo o verdadeiro preço, não poderia ser considerada errada, já que ele não tinha qualquer referência do valor previamente fixada” Fim de citação.
Refiro este caso para explicar que para um programa estabelecido a rigor pelo Ministério não tem sentido tantos manuais. Empola-se o preço e depois o governo estabelece uma coisa criminosa: podem-se disponibilizar os livros (emprestar) aos estudantes com a condição de não estarem riscados quando forem devolvidos à escola! Os alunos, crianças pobres e enquanto pobres, ficam assim proibidas de sublinhar o seu material de estudo. Continua a ignorar-se que o sublinhar é importante. Inacreditável. Um neoliberal nestas matérias dir-me-á que não é preciso: os livros já vêm sublinhados pelos autores e editores. Uma resposta deste tipo mostraria a estupidez de que quem ma desse e dispenso-me de comentários sobre esta matéria.
Considerando a necessidade de reestruturação do ensino da primária ao secundário e que as linhas de mudança são em quase tudo semelhantes, viremo-nos para um outro problema, um problema central no ensino superior de hoje: a presença em massa da Inteligência Artificial nas Universidades.
Sobre esta matéria estamos a construir uma série[3] de textos procurando com eles obter uma visão clara sobre as consequências da utilização da Inteligência Artificial tanto no mundo do ensino como no mundo do trabalho.
Destes textos aqui deixo alguns excertos:
“Desde que o teste de inteligência foi inventado há mais de 100 anos, as nossas pontuações de QI têm aumentado constantemente”, disse a BBC Future. Mas, nos últimos anos, essa tendência tem desacelerado ou tem-se até mesmo invertido – sugerindo que podemos muito bem ter “passado do auge do potencial intelectual humano”.
E a perspetiva parece semelhante para a “capacidade cognitiva” humana – a nossa capacidade em aplicar a inteligência em situações do mundo real. Houve uma quantidade “notavelmente pequena” de pesquisas de longo prazo, disse o Financial Times, mas, a partir dos dados que temos, as evidências estão se acumulando de que a nossa capacidade de raciocinar, concentrar-se e resolver problemas “atingiu o pico no início dos anos 2010 e vem diminuindo desde então”. Fim de citação
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Professor Hua Hsu, (original aqui) O que acontece depois da I.A. destruir a escrita nas Universidades? O fim do trabalho académico de inglês encerrará uma longa tradição intelectual, mas também é uma oportunidade para reexaminar o objetivo do ensino superior.
A faculdade, no entanto, é uma escolha, e sempre envolveu um acordo tácito de que os estudantes cumpririam um conjunto de tarefas — às vezes relacionadas a temas que consideram inúteis ou pouco práticos — e, em troca, receberiam algum tipo de credencial. Mas mesmo para os estudantes mais pragmáticos, a busca por uma nota ou diploma sempre trouxe um benefício adicional. Está-se a aprender a fazer algo difícil e, talvez, nesse processo, acabe por se valorizar o que está a aprender. Mas a chegada da inteligência artificial significa que agora é possível saltar completamente o processo — e a dificuldade.
Não existem números confiáveis sobre quantos estudantes americanos usam inteligência artificial, apenas relatos de que todos estão a utilizá-la. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2024, com estudantes entre os treze e os dezassete anos, sugere que um quarto dos adolescentes atualmente usa o ChatGPT para trabalhos escolares — o dobro do número de 2023. A OpenAI divulgou recentemente um relatório afirmando que um em cada três universitários usa seus produtos. Há boas razões para acreditar que essas estimativas sejam ainda conservadoras”.
(…)
Mas, para os departamentos de inglês e para o ensino de redação universitária em geral, a chegada da inteligência artificial tem sido mais problemática. Porque é que nos devemos ainda preocupar em ensinar redação? (…)
A forma como escrevemos molda o nosso pensamento. Processamos o mundo por meio da composição de textos dezenas de vezes por dia, no que a estudiosa de literatura Deborah Brandt chama de nossa era da “escrita em massa”. É possível que a capacidade de escrever frases originais e interessantes se torne ainda mais importante num futuro em que todos tenham acesso aos mesmos assistentes de inteligência artificial.
Ainda no mesmo texto:
Siva Vaidhyanathan, professor de estudos dos media na Universidade da Virgínia, ficou desanimado depois que alguns alunos entregaram trabalhos que ele suspeitava terem sido gerados por IA — ironicamente, para uma tarefa sobre como é que o código de honra da escola deveria lidar relativamente a trabalhos feitos por IA, Siva também decidiu voltar a usar blue books e está a considerar a logística de provas orais. “Talvez a gente volte tudo até 450 a. C.”, foi o que me disse. (…)
Shanna Andrawis, professora do ensino médio desde 2008, frequentemente discordava de seus métodos despreocupados para lidar com os grandes modelos de aprendizagem. Andrawis argumenta que a desonestidade sempre foi um problema. “Estamos a tentar educar em massa”, disse ela, significando que há menos espaço para ser exigente com o processo pedagógico. “Não tenho conversas com alunos sobre escrita ‘artesanal’. Mas converso com eles sobre a relação professor-aluno. Respeitem-me o suficiente para me darem a sua voz autêntica, mesmo que possam achar que não seja muito boa. Tudo bem. Eu quero encontrar-vos onde estão”.
“No final das contas, Andrawis temia menos o ChatGPT e mais as condições mais amplas de ser jovem nos dias de hoje. Os seus alunos estão a ficar cada vez mais introvertidos, olhando para os seus telemóveis sem muito desejo de ‘praticar superar aquela timidez’ que define a vida adolescente, como ela disse. A inteligência artificial pode contribuir para essa deterioração, mas não é a única culpada. É ‘uma cerejinha em cima de um pequeno gelado, tipo sorvete, mas de muito má qualidade’, afirmou ela.
Quando o ano letivo começou, os meus sentimentos em relação ao ChatGPT estavam situados entre a deceção e o desdém, focados principalmente nos alunos. Mas, à medida que as semanas passavam, a minha perceção sobre o que deveria ser feito e quem era o culpado ficava cada vez mais confusa. Eliminar requisitos básicos, repensar as notas (G.P.A.), ensinar ceticismo em relação à IA — nenhuma das soluções potenciais poderia reverter a situação e regressar às condições anteriores em que vivia a juventude americana. Os professores podem repensar a sala de aula, mas há muito pouco espaço que eles possam controlar. Eu não acreditava que as instituições de ensino passariam a encarar as novas tecnologias como algo que inevitavelmente iriam aceitar. Faculdades e Universidades, muitas das quais tentaram restringir o uso da IA há alguns semestres atrás, correram para se associar a empresas como OpenAI e Anthropic, considerando um produto que não existia quatro anos atrás como sendo essencial para o futuro da educação.
Exceto por um ano em que vagueei pela minha cidade natal, basicamente passei os últimos trinta anos em campus. Os estudantes de hoje veem a faculdade como consumidores, de uma forma que nunca teria ocorrido a mim na idade deles. Eles cresceram numa época em que a sociedade valoriza opiniões instantâneas, e não a deliberação lenta do pensamento crítico. Embora eu me tenha solidarizado com os diversos minidramas dos meus alunos, raramente me projeto nas vidas deles. Olho para eles, observo-os quando estão uns com os outros e deixo os mistérios das suas vidas seguirem em frente. As pressões que eles sentem são hoje tão diferentes das que eu sentia no meu tempo de estudante. Por mais que eu inveje o metabolismo deles, não gostaria de ter a visão de mundo que eles têm.”
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Dan Sarofian-Butin 19 de março de 2025 –
Na Era da IA, a Educação é Apenas uma Ilusão? (original aqui) Estamos no meio de uma crise de sentido”
“Durante dois longos anos, os professores têm travado uma batalha de retaguarda contra a inteligência artificial. Trazemos de volta os cadernos de prova e os testes presenciais, apelamos aos princípios éticos dos nossos alunos, usamos diversas plataformas — que mudam constantemente — na tentativa de apanhar os trapaceiros, apresentamos-lhes a IA como um complemento (e não um substituto) da sua aprendizagem e desenvolvemos tentativas cada vez mais desesperadas de “proteger” os nossos trabalhos contra a IA. Nada funcionou.
A grande maioria dos estudantes universitários utilizam agora um ou outro tipo de IA para fazerem os seus trabalhos. (E, falando seriamente, será que o leitor não faria o mesmo, se com o apertar de um botão aquele outro trabalho em atraso — que o leitor nem entendia bem o que se queria com ou até não se importava muito com isso — fosse milagrosamente escrito?)
Agora, ao que parece, os seus professores estão a seguir o mesmo caminho. (…)
Então, vamos fazer uma experiência mental: o leitor consegue imaginar algum reitor de universidade a levantar-se e, por estar cansado da fiscalização e intromissão dos órgãos de credenciamento, declarar que os professores são simplesmente ‘profissionais que … divertem as pessoas’ e que o que acontece em sala de aula ‘não tem nada a ver’ com ensino e aprendizagem, mas sim que a ‘função’ do professor e dos alunos ‘é apenas cumprir os rituais que se espera’ deles? Que tudo não passa de uma grande ‘ilusão’?
Claro que não. Supostamente, não há espaço para ilusão ou entretenimento no ensino superior, onde a vida da mente é sagrada, a moeda do reino é o conhecimento, e o único comprar e vender ocorre no mercado de ideias. Sim, alguns alunos podem fazer vigarice, e alguns professores podem atalhar caminho, mas o ensino superior não é um espetáculo de performance!
Mas se o leitor acredita nisto que acabo de dizer, então eu direi que na verdade não sei por onde é que tem andado nesses últimos dois longos anos. Provavelmente, não numa sala de aula.” Fim de citação.
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Lorena A. Barba, Experiência na adoção de IA generativa num curso de computação em engenharia: O que deu errado e quais os próximos passos. (original aqui)
“Durante alguns anos, utilizei um sistema de correção automática que dava aos alunos um feedback instantâneo sobre as suas tarefas, com a possibilidade de reenviar as respostas. O objetivo era incentivar os alunos a continuarem a trabalhar até alcançar a maestria. No entanto, esses alunos começaram a usar o corretor automático e a IA generativa de forma iterativa para ‘resolver’ os exercícios por tentativa e erro, evitando o esforço mental que deveria ocorrer durante a realização das tarefas escolares. Fiquei muito preocupado com o uso da IA dessa maneira. Conversei com eles em sala de aula sobre usos apropriados e pedi que não copiassem e colassem as perguntas das tarefas. Eles não deram ouvidos ao meu conselho e pareciam não perceber que estavam a prejudicar a sua própria aprendizagem.” Fim de citação.
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Leif Weatherby +longo comentário de Bradford Delong
Os Nossos Senhoras das Folhas de Cálculo (original aqui e aqui)
“Em vez de fornecer a tão alardeada inovação e eficiência associadas ao Vale do Silício (Silicon Valley), os sistemas de IA geram mais confusão do que clareza. Eles são um mecanismo de enfrentamento para uma sociedade global que funciona com conjuntos de dados digitais grandes demais para serem compreendidos, complexos demais para serem desvendados manualmente. Alimentando-se de uma quantidade impressionante de dados digitalizados, eles são uma ferramenta específica para esses dados e o seu formato tabular. Quando pensamos em IA, devemos pensar menos em O Exterminador do Futuro 2 e mais na série da TV Severance, em que funcionários de escritório procuram “números ruins” com base apenas em sugestões.
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A IA é a cultura da folha de cálculo em hipervelocidade”
É notável que os novos defensores da AGI (Inteligência Artificial Geral) — Roose, Klein, Silver — trabalham em setores onde a IA tende a automatizar ou transformar radicalmente o trabalho quotidiano. Diversos veículos jornalísticos importantes, incluindo The Atlântic, firmaram acordos com empresas de IA, e já vimos vários exemplos de artigos gerados por IA sendo apresentados como se tivessem sido escritos por humanos. E não há dúvida de que a IA eliminará muitos empregos na área de análise de dados. O próprio Silver provavelmente está seguro — ele agora é um autor de livros importantes — mas mesmo aqueles que permanecerem verão grandes reformulações nos fluxos de trabalho, à medida que os modelos que hoje pensamos principalmente como chatbots passarem a intervir na interpretação, produção e análise de dados. Na verdade, todo o trabalho de escritório, todo o trabalho intelectual — desde funções secretárias e administrativas até cargos executivos no topo das empresas — tende a mudar. Isso porque o trabalho, assim como todos os outros aspetos das nossas vidas, foi transformado em dados.
(…)
A capacidade de associar imagens, textos e dados — e de derivar previsões sobre o comportamento humano a partir disso — deve ser tratada com extrema cautela. No entanto, a intenção declarada da Palantir de colaborar com os aparatos de segurança nacional de um governo que agora deporta imigrantes — e, aparentemente, cidadãos — sem se importar com a precisão, sugere que a “inteligência” da IA é apenas uma história de fachada para algo muito mais profundo e perigoso.
Em nenhum lugar essa intenção é mais clara do que no recente “hackathon” em que a Palantir e a DOGE colaboraram, com o objetivo de criar uma interface de programação de aplicações (API) de uso geral para o IRS e os seus dados. Respondendo à exigência da Casa Branca de que o governo “elimine os silos de informação”, os dois grupos estão a tentar criar um modelo de como interagir com todas as informações sobre os cidadãos num único banco de dados — um projeto que faz com que o programa “Total Information Awareness” da era George W. Bush, já orwelliano, pareça uma perfeita ingenuidade. O objetivo de criar essa API é libertar o verdadeiro poder dos modelos de linguagem de grande escala (LLM). A inteligência artificial de baixa qualidade que o leitor dispõe ao alcance da sua mão nas suas redes sociais não é a questão principal; a questão principal, em vez disso, é a capacidade de dizer: “Faça uma lista de todos os cidadãos que são marxistas, corte os seus pagamentos e notifique o ICE sobre a sua localização.
Se o leitor deixar de lado toda a linguagem especulativa e mística sobre “inteligência” e “raciocínio”, fica fácil perceber que esse tipo de tarefa é o que normalmente chamaríamos de burocracia. O poder, o perigo e os limites da IA estão todos nesse mundo banal de linhas e colunas. É fácil não perceber isso, porque passamos as últimas três décadas a transformar praticamente o mundo inteiro numa folha de cálculo gigante. Com tudo — desde as variações diárias da sua frequência cardíaca e tendências financeiras até os tiques da fala e da cultura — pré-formatado para um modelo de IA, o poder dessa ferramenta torna-se imenso. Quando o engenheiro de IA vencedor do Prémio Turing, Yann LeCun, foi ao X (antigo Twitter) para descrever as suas expectativas um tanto moderadas para o futuro da tecnologia, Musk respondeu: “O nosso deus digital virá na forma de um arquivo csv”, fundindo ironicamente um formato comum de dados (valores separados por vírgula) com a noção de ficção científica de uma IA todo-poderosa.
Musk veio a Washington a prometer inovação, mas está a entregar uma nova forma de burocracia, sem responsabilidade. Não podemos continuar a acreditar que tudo o que a “IA” toca será mais eficiente, com o seu progresso tendendo a sistemas “mais inteligentes”. (Nessa altura, já deveríamos saber que “inteligente” não significa “inteligência”; só significa “brilhante”.) Uma auditoria geral é um procedimento burocrático, algo que a IA atual é limitada demais para executar bem. Mas enquanto acreditarmos na propaganda, vai parecer uma boa ideia inserir modelos de IA nos bancos de dados que contêm o nosso seguro de saúde, os nossos pagamentos da Previdência Social e os nossos registros fiscais.
Entre aqueles que achavam que Trump causaria uma crise constitucional, poucos previram que isso aconteceria de uma forma tão entediante quanto uma folha de cálculo. Mas a verdade é que quem controla a burocracia tem um poder além até do que um processo democrático como o voto pode autorizar ou derrubar. A pretensão de entregar esse controle para as máquinas serve como cobertura para um ato político muito humano: destruir e desmantelar o governo federal usando uma ferramenta com poder sem precedentes para o conseguir.
Em vez do sonho da inteligência das máquinas, estamos a testemunhar as consequências políticas desastrosas de um sonho diferente: o de uma burocracia total que opera nos interstícios quase invisíveis do software do qual passamos a depender. A forma como esse sistema rompe elementos básicos do nosso contrato social é uma sua característica, não uma falha. Sistemas de IA poderiam ser usados como ferramentas ao serviço da democracia. Mas isso exigiria que os entendêssemos e os tratássemos primeiro como objetos científicos e só depois como produtos comerciais. Será necessário um esforço massivo e com princípios para compreender a matemática profunda e as formas cultural-linguísticas que resultam disso, a fim de reverter a tendência atual do progresso da IA.” Fim de citação.
Tenhamos presentes os excertos de textos selecionados, tenhamos presente as afirmações de Baldi e as afirmações de Brad Delong e vejamos o que foi a minha prática docente na companhia de Luís Lopes, hoje este professor está do lado dos mandarins atuais, do lado dos neoliberais, e de Margarida Antunes. Esta professora trabalhou durante 35 anos nesta disciplina e foi durante muitos anos titular da mesma. Por conveniência de serviço foi-lhe retirada a titularidade da disciplina de Economia Internacional e saiu desta área para passar a lecionar outras disciplinas.
Vejamos o que se passava numa disciplina como Economia Internacional, em que trabalhei com os dois professores acima citados.
A disciplina tinha três métodos de avaliação:
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Exame tradicional de 0 a 20 valores.
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Avaliação contínua tipo A
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Avaliação contínua tipo B.



I love how well-organized and detailed this post is.
Para os mais politicamente distraídos este artigo servirá para demonstrar o antagonismo evidente de se colocarem no poder governos e governantes liberais para gerir os superiores interesses de um povo ou nação, dada a incompatibilidade entre os interesses das classes ou castas dominantes, facilmente comandadas pelo poder do capital privado, atendendo a muito possíveis vaidades e egoísmos pessoais envolvidos.