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Espuma dos dias — Missionários de um Deus vencido . Por Viriato Soromenho-Marques

Nota de editor: um texto de Viriato Soromenho-Marques de Julho de 2024, que se mantém bem atual mais de um ano e meio depois da sua publicação.

FT

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Seleção de Francisco Tavares

2 min de leitura

Missionários de um Deus vencido

 Por Viriato Soromenho-Marques

Publicado por  em 20 de Julho de 2024 (original aqui)

 

Para quem prega a democracia pelo mundo fora, com missionários armados até aos dentes, o atentado falhado contra Trump, bem como a permanência no espaço público da patética figura de Biden, revelam bem toda a tóxica hipocrisia de quem não respeita, em casa, as boas-práticas impostas aos de fora com baionetas.

Hipocrisia, até quando se usa a democracia como escudo para alimentar o inferno genocida dos amigos, como ocorre em Gaza. Sem uma pinga de espírito crítico, desprovidos da capacidade de se olharem ao espelho sem os partirem, os protagonistas da tragédia americana desempenham os seus papéis, sem cuidar da triste imagem derramada para o resto do mundo.

Mas o que são hoje os EUA? Nascido o país de uma ideia setecentista de liberdade, própria e vigorosa, conseguiu firmá-la na primeira Constituição moderna. Ela esteve nas secretárias dos constitucionalistas franceses de 1789-1791, e tem sido modelo para muitas leis fundamentais de muitos outros países ao longo dos séculos.

A liberdade política original dos EUA respira um espírito de independência, das comunidades e indivíduos, contra qualquer tutela externa (duas guerras contra o Império Britânico). É uma liberdade republicana, representativa, que inventou o primeiro federalismo onde os cidadãos também contam. Mas essa liberdade liberal (o pleonasmo é só aparente) tem um poderoso antagonista. Fraco no início, mas que ganhou força com o crescimento da tecnologia e dos mercados. A liberdade económica. Ela é não só mais indomável e irrestrita do que a liberdade política, como, tem capacidade para a controlar e, eventualmente, destruir.

A liberdade económica norte-americana é iliberal. Não tem limites constitucionais, e ainda menos éticos. Produz bilionários, que transportam nos bolsos, senadores e candidatos presidenciais, como quem exibe troféus de caça. No campo de batalha do mercado não há Convenção de Genebra, nem se fazem prisioneiros. A concentração de riqueza é hoje pornográfica. A desigualdade campeia. Cada cidade norte-americana fecha os olhos aos seus milhões de sem-abrigo (losers), pobres e doentes.

Em 1970 o Coeficiente de Gini (que mede a desigualdade, sendo ela maior quanto maior é o seu valor) nos EUA era de 0,39, hoje é de 0,49. Comparativamente, Portugal tem 0, 35 e a Rússia tem 0,36.

O Estado federal (haverá exceções nos planos municipal e estadual) é hoje uma instituição plutocrática, uma “democracia bilionária” (para citar o título de um livro de 2018, de George R. Tyler). Por isso, Trump será de novo o presidente dos EUA. O dinheiro dos bilionários, a começar por Elon Musk, jorra de Biden para a sua campanha. Como carisma do crepuscular deus da democracia.

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O autor: Viriato Soromenho Marques [1957 – ] é um filósofo português, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (desde 2003). Tem o grau de mestre em Filosofia Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa e é Doutorado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. É ou foi membro de várias sociedades e organizações científicas em Portugal e no estrangeiro. Foi conferencista em várias Universidades nacionais e estrangeiras. Desenvolve desde 1978 uma intensa actividade no movimento associativo ligado à defesa do ambiente, tendo sido — de 1992 a 1995 — presidente da mais importante associação ambientalista nacional, a QUERCUS– Associação Nacional de Conservação da Natureza. Membro fundador da ZERO, em 2016. Publicou cerca de quatro centenas de estudos, abordando temas filosóficos, político-estratégicos e ambientais. De entre os livros publicados os mais recentes são: Muros de Liberdade (2014), Portugal na Queda da Europa (2014) The Safe Operating Space Treaty. A New Approach to Managing Our Use of the Earth System (2016), Ética Aplicada. Ambiente (2017), Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação (2019. Para mais detalhe ver aqui.

 

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