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Espuma dos dias — O ataque ao Irão e o Grande Israel. Por José Goulão

Seleção de Francisco Tavares

3 min de leitura

O ataque ao Irão e o Grande Israel

 Por José Goulão

Publicado por em 18 de Abril de 2026 (ver aqui)

 

 

Não é novidade: os Estados Unidos iniciaram a guerra contra o Irão porque Israel iria começá-la de qualquer maneira.

 

Não é novidade: os Estados Unidos iniciaram a guerra contra o Irão porque Israel iria começá-la de qualquer maneira.

Eliminar o Irão é uma obsessão sionista e também a condição que falta cumprir para desenhar “um novo Médio Oriente”.

Existem dois grandes interesses convergentes para liquidar o Irão independente. Washington pretende “terminar o trabalho” de conquista estratégica da Ásia Ocidental iniciado com a destruição do Iraque, em 1991, e continuado em 2003. O sionismo quer dar um grande e decisivo passo para a criação do Grande Israel, um velho sonho colonial.

A conquista sionista do território do “Nilo ao Eufrates” pouco tem a ver com a ambição do “regresso do povo eleito à terra prometida”.

Israel é um Estado colonial habitado por estrangeiros, maioritariamente oriundos de comunidades de judeus convertidos da Europa e dos Estados Unidos, populações que nada têm a ver étnica e culturalmente com os palestinianos praticantes da religião judaica.

O Grande Israel seria um imenso território geoestratégico, decisivo para assegurar o domínio sionista sobre toda a região, a rogo do imperialismo de matriz ocidental.

Para isso é necessário um novo “desenho” do Médio Oriente, só possível com a liquidação dos regimes nacionalistas e independentes ali existentes. O imperial-sionismo começou por destruir o Iraque, seguiu para a Líbia e para a Síria, neutralizou o Egipto, massacra o Líbano e continua a exterminar o povo palestiniano.

Para concluir o “trabalho” falta eliminar o Irão. Por isso, o cessar-fogo não tem qualquer solidez. O Irão sabe que Israel tomará a iniciativa – o que já está a acontecer no Líbano – e, mais uma vez, forçará Trump a seguir a sua estratégia. Entretanto, o presidente dos Estados Unidos multiplica provocações, com a tentativa de bloqueio aos portos iraniano, para obrigar Teerão a atacar a sua marinha e ter um alegado pretexto para romper o cessar-fogo.

Israel investiu forte nesse objectivo de tirar o Irão independente de cena. O Mossad conseguiu mesmo recrutar o comandante supremo da Guarda Revolucionária, general Ismail Qaani. A Guarda Revolucionária é o corpo militar de elite da República Islâmica e o fulcro do “Eixo de Resistência” – formado por Teerão, o Hezbollah libanês e o derrotado regime nacionalista sírio – ainda a única resistência ao imperialismo na região.

O general Qaani foi o sucessor do mítico general Qassem Suleimani e chegou ao cargo depois de este ser abatido por ordem de Trump num atentado milimétrico no aeroporto de Bagdade, em Janeiro de 2020.

A traição de Qaani acabou por ser exposta devido aos sucessivos “milagres” que acompanharam a sua vida recente:

Apesar da traição e das consequências desastrosas da agressão, o Irão está a recompor-se, resiste, contra-ataca e forçou um cessar-fogo humilhante para o imperial-sionismo. As ditaduras do Golfo, Israel e as bases militares norte-americanas na região acumulam danos e não tiveram um dia de descanso sob os mísseis e drones iranianos. Teerão fechou o estratégico Estreito de Ormuz e mantém a economia mundial sob crescente pressão, de tal modo que Trump chegou a pedir auxílio aos países europeus da NATO e, imagine-se, à China Popular para quebrar o bloqueio. A tentativa de bloqueio dos portos iranianos tem igualmente como objectivo fazer represálias à China, devido à oposição deste país à agressão ao Irão.

Os povos que habitaram e habitam o planalto iraniano ao longo de milénios aprenderam que a defesa contra inimigos tecnologicamente superiores se faz com resistência, organização e paciência. E que a guerra de atrito se trava à distância, por pressão indirecta e prolongada no tempo. O imperialismo, por seu lado, começa a dar sinais de que o tempo não joga a seu favor.

A resistência do Irão independente é fulcral. A sua derrota representaria um enorme reforço do domínio estratégico do imperialismo sobre a fundamental Eurásia. Seria ainda como uma larga porta aberta para a construção do Grande Israel e um passo de gigante para a imposição do desumano regime globalista neoliberal. Os povos do mundo ficariam então numa situação aterradora.

 

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O autor: José Manuel Goulão [1950 -] é um jornalista português. Iniciou atividade n’A Capital em 1974 e trabalhou n’ O Diário, no Semanário Económico e na revista Vida Mundial., de cuja última série foi diretor. Foi também diretor de comunicação do Sporting Clube de Portugal.

Fez carreira na área de política internacional, especialmente nas questões do Médio Oriente. Desde 2018 dirige o jornal digital de informação internacional O Lado Oculto-Antídoto para a propaganda global. Obra publicada: Contos correntes: a nação desaparecida, o submarino teimoso, o banqueiro e a cabra necrófila– e outras coisas de assombrar (2018); O Futuro dos direitos humanos (2015); A King Up Hitler’s Sleeve (2014); Um rei na manga de Hitler: conspiração em Lisboa (2013); O labirinto da conspiração: P2, Mafia, Opus Dei (1986); Do Báltico Aos Gelos Siberianos (1985).

 

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