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E CARINHO, NÃO É PRECISO? – por Carlos Pereira Martins

E CARINHO, NÃO É PRECISO?

por Carlos Pereira Martins

Num mundo impelido por ventos densos de modernidade — esses que prometem atalhos para a felicidade através de novas economias e de uma globalização sem fronteiras — esquecemo-nos, por vezes, de escutar o murmúrio antigo que nos recorda uma verdade simples e persistente: tudo traz consigo o seu reverso. Mais cedo ou mais tarde, o equilíbrio reclama o que lhe é devido. Nada é definitivo, nem sequer as certezas que julgamos inabaláveis.

Vivemos tempos de corrida ofegante, onde a sobrevivência da humanidade parece, subitamente, depender de matérias tangíveis: semicondutores, chips, petróleo, barris de crude, cereais. Elementos concretos, mensuráveis, contabilizáveis. E, no entanto, há uma outra dimensão, invisível mas não menos vital, que continua a sustentar o pulsar do mundo. Que será do ser humano sem aquilo que lhe aquece o sangue e lhe regula o compasso do coração? Os afectos, os sentimentos, as amizades, os valores — esses fios silenciosos que tecem o verdadeiro sentido da existência.

Entre todos, detenho-me no carinho. Esse gesto discreto, tantas vezes subestimado, mas essencial como o ar que respiramos. Ao longo da vida, aprende-se que o carinho não é um luxo, nem um capricho: é um alimento. Nutre o indivíduo e sustenta a comunidade. Sem ele, definhamos por dentro, mesmo que tudo o resto aparente abundância.

Há, porém, quem o procure como se de um bem transaccionável se tratasse. Há quem acredite que o carinho se convoca com um gesto autoritário, como se pudesse ser adquirido, encomendado, exigido a uma ou muitas concubinas às ordens. 

Outros, órfãos de laços familiares ou de amizade profundos, vagueiam pelas margens da noite, buscando em encontros fugazes, a uma esquina de uma rua mal afamada, a ilusão de um carinho e calor que lhes escapa. E há ainda quem, à luz do dia, o procure em espaços onde se confunde contacto com ligação, presença com entrega.

Mas todos se enganam. O que ali se troca não é carinho, mas simulacro. No final, sobra o peso acrescido de uma frustração que não se nomeia, mas se sente.

Porque o carinho não se compra, nem se improvisa. Para o receber, é preciso já o trazer dentro de si, em reserva viva e disponível. O carinho paga-se com carinho — e com amizade oferecida sem cálculo, sem medida, sem recibo. Dá-se porque se sente. Recebe-se porque se merece e se quer muito recebê-lo dali mesmo. E, nesse movimento contínuo, constrói-se uma linguagem silenciosa onde o humano se reconhece.

Se gosto de carinho? Mais do que gostar, preciso dele. Preciso de o dar e de o receber, num fluxo constante que dá sentido aos dias. Sabendo sempre por que o ofereço e por que o acolho — eis o que o torna verdadeiro.

A conclusão é simples, ainda que exigente: só recebe carinho quem tem, de facto, carinho para dar — e já o deu. O resto são encenações frágeis, ensaios de afectos sem alma, trocas vazias que não deixam rasto senão o da sua própria insuficiência.

 

 

 

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